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Frase de Rita Lee, cantora brasileira: “Quem não tem bom gosto não tem mau gosto, tem gosto nenhum.” Uma reflexão bem-humorada sobre ter personalidade sem medo do julgamento alheio
Quem tem gosto próprio corre o risco de desagradar e Rita Lee fez disso uma marca
Rita Lee tinha o dom de comprimir em uma frase o que levaria páginas para explicar. Uma das que circula com mais frequência entre quem a admira não é de letra de música nem de entrevista solene. É o tipo de coisa que ela dizia como se fosse óbvio: “Quem não tem bom gosto não tem mau gosto, tem gosto nenhum.” A construção é divertida e a conclusão é certeira. Quem não arrisca ter uma posição estética própria não errou na direção. Simplesmente não foi para lugar nenhum.
Quem foi Rita Lee e por que ela pode dizer isso sem soar vazia?
Rita Lee Jones nasceu em São Paulo em 1947 e morreu em maio de 2023, aos 75 anos. Em mais de cinco décadas de carreira, passou pelos Mutantes, pelo rock psicodélico dos anos 1970, pelo pop dos anos 1980 e pela aposentadoria que ela própria anunciou sem cerimônia. Ao longo de todo esse percurso, fez escolhas que desagradaram a muita gente: vestidos que não combinavam com a época, músicas que a gravadora não queria, letras que o conservadorismo não aprovava, posicionamentos que os prudentes evitariam.
Essa trajetória é o que dá peso à frase sobre gosto. Rita não estava aconselhando pessoas a terem coragem de ser diferentes como quem nunca precisou exercer essa coragem. Ela estava descrevendo a própria vida. Cada escolha estética que contrariou a expectativa do mercado, da crítica ou do público foi uma aposta de que ter um ponto de vista próprio valia mais do que a aprovação de quem discordava. Às vezes a aposta não se pagou. Ela ficou assim mesmo.
O que a frase diz sobre a diferença entre gosto e ausência de gosto?
A lógica da frase inverte uma hierarquia que as pessoas costumam aceitar sem questionar. Na visão comum, quem tem bom gosto é admirável e quem tem mau gosto é criticável, mas ambos estão em posição melhor do que quem não tem gosto nenhum. Rita deixa isso explícito ao encerrar a sequência não com um julgamento sobre o bom ou o mau, mas com o veredito sobre a ausência: quem não tem nenhum dos dois simplesmente não existe como interlocutor estético.
Ter mau gosto pressupõe escolha. Significa que a pessoa foi a algum lugar, mesmo que o destino tenha sido contestável. Quem tem gosto nenhum não escolheu nada porque não arriscou nada. Não tem preferência própria suficiente para defender, não tem posição estética que alguém possa discutir, não gera nem admiração nem crítica, apenas a indiferença reservada ao que não tem personalidade suficiente para existir com força.

Por que o medo do julgamento é o principal gerador de gosto nenhum?
A psicologia social tem um nome para o mecanismo que produz pessoas sem gosto próprio: conformidade informacional. Quando alguém não tem certeza sobre o que prefere, usa as preferências dos outros como guia. O problema é que esse processo pode se consolidar até o ponto em que a pessoa não consegue mais distinguir o que genuinamente gosta do que aprendeu a fingir gostar para pertencer a um grupo ou evitar julgamento.
O resultado prático é exatamente o que Rita descreveu. Não é alguém com gosto ruim que pode ser corrigido ou debatido. É alguém cujo gosto é sempre reflexo do ambiente imediato, um espelho que muda conforme a companhia muda. Esse tipo de conformidade pode parecer seguro socialmente, mas tem um custo: a impossibilidade de criar algo genuinamente próprio, porque criar exige ter uma perspectiva que não foi emprestada de ninguém.
Quais outras frases de Rita Lee revelam a mesma postura?
A frase sobre gosto não é um momento isolado de provocação. Ela faz parte de um padrão consistente de declarações que Rita repetiu ao longo da vida com variações de forma mas não de conteúdo:
- “Meu único defeito é não ter medo de fazer o que gosto.” Aqui ela chama de defeito o que a maioria chamaria de virtude, invertendo a expectativa com o mesmo humor da frase sobre gosto.
- “O pior inimigo da criatividade é o bom-senso.” Rita identificava na prudência excessiva o maior obstáculo para quem quer produzir algo original.
- “Se não me amar basta me aceitar. Se não me aceitar dá unfollow e não se fala mais nisso.” A sequência é de uma clareza prática que elimina qualquer drama sobre aprovação alheia.
- “Gosto de mim, mas não é muito confortável ser eu.” Essa admite o custo de ter posição própria sem romantizá-lo nem abandoná-la por causa dele.
Existe algum limite para essa lógica ou vale em qualquer situação?
A frase de Rita não é um manifesto de indiferença ao outro nem um convite ao descaso. Ela fala sobre gosto estético, sobre escolhas criativas e sobre personalidade. Transportá-la de forma literal para relações interpessoais ou para contextos que envolvem impacto real em outras pessoas distorce o que ela estava dizendo.
Rita Lee não era indiferente ao mundo. Era indiferente à aprovação do mundo quando essa aprovação exigiria que ela se tornasse menos do que era. Essa distinção importa. Ter gosto próprio não é o mesmo que desconsiderar o entorno. É simplesmente recusar a operação de substituir as próprias preferências pelas do grupo mais próximo a cada vez que os dois entram em conflito.
O que fica de uma postura que se recusou a ser incolor
Rita Lee morreu com um epitáfio que ela mesma escolheu: “Nunca foi um bom exemplo, mas era gente fina.” A escolha da frase para a própria lápide é reveladora. Ela não queria ser lembrada como modelo, como referência de virtude, como exemplo a ser seguido. Queria ser lembrada como alguém que foi ela mesma com uma consistência que poucas pessoas conseguem manter ao longo de sessenta anos de carreira pública.
Quem não tem bom gosto nem mau gosto não vai deixar epitáfio nenhum que alguém queira lembrar. Vai deixar o silêncio suave de quem passou sem fazer barulho. Rita fez barulho no sentido mais literal e no mais figurado que existe. E a frase sobre gosto é, de certa forma, a explicação mais curta que ela deixou sobre por que fez assim.