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Especialistas em psicologia concordam com Oscar Wilde: “A arte da música é a que mais perto se encontra das lágrimas e das lembranças” e apontam a adolescência como fase especialmente marcante para memórias musicais
Nem sempre é sua música favorita: canções da adolescência podem emocionar porque carregam partes importantes da sua história
Uma reflexão de Oscar Wilde sobre música ajuda a pensar na ligação entre emoções e memória autobiográfica. Bastam os primeiros acordes de uma canção para lembrar uma amizade, uma festa ou o caminho da escola. Pesquisas sobre memórias musicais indicam que a adolescência ocupa um lugar especialmente marcante nessa relação com o passado.
O que a frase de Oscar Wilde revela sobre música e lembranças?
No poema The Burden of Itys, o escritor aproxima a música das lágrimas e da memória. A formulação em português resume essa imagem poética, capaz de descrever a experiência de ouvir uma melodia e sentir que uma parte da própria história reapareceu:
“A arte da música é a que mais perto se encontra das lágrimas e das lembranças.”
A reflexão de Oscar Wilde não é uma conclusão científica, mas encontra um ponto de contato com pesquisas sobre lembranças associadas a canções. Uma música pode significar muito mais do que sua letra descreve. Pesquisas do cotidiano mostram que músicas frequentemente evocam lembranças de pessoas, lugares e acontecimentos pessoais, segundo a Psychology of Music. Para quem a escuta, ela pode estar ligada a uma despedida, a uma viagem ou a alguém que deixou saudade.

Por que a adolescência marca tanto as memórias musicais?
A adolescência reúne mudanças de identidade, novas amizades e experiências de autonomia. Uma discussão científica publicada em 2024 na Frontiers in Psychology relaciona a força das músicas dessa fase ao desenvolvimento dos sistemas de recompensa e à importância das relações sociais. Entre os contextos que ajudam a visualizar essas associações estão:
- A banda descoberta por indicação de um amigo que passou a acompanhar os encontros da turma;
- A música ouvida repetidamente no trajeto entre a casa e a escola;
- O refrão cantado em uma festa que marcou o início de um relacionamento;
- O álbum escolhido para expressar um gosto próprio, diferente daquele dos familiares;
- A canção compartilhada com colegas e transformada em referência de pertencimento ao grupo.
O que os estudos mostram sobre as músicas dessa fase?
Uma pesquisa publicada em 2020 na revista Music & Science reuniu 470 participantes, de 18 a 82 anos. Eles avaliaram títulos e artistas de 111 músicas que apareceram nas paradas entre 1950 e 2015. As perguntas investigavam familiaridade, preferência e a presença de lembranças pessoais associadas às canções apresentadas.
Os resultados mostraram um pico próximo dos 14 anos para familiaridade e relevância autobiográfica das músicas. Esse padrão integra o chamado pico de reminiscência, uma concentração de lembranças ligadas à juventude. Isso não significa que todos tenham uma idade decisiva, nem que a música mais lembrada seja necessariamente a favorita. São medidas diferentes.

Como reconhecer as histórias que uma canção traz de volta?
Uma maneira de explorar as próprias memórias musicais é observar quais detalhes aparecem durante a escuta, sem exigir uma lembrança completa. Em vez de procurar apenas o ano de lançamento, vale pensar nas situações em que aquela faixa esteve presente. Para montar uma playlist acompanhada de pequenas anotações, algumas perguntas podem orientar a escolha:
- Onde você costumava ouvir essa música e com quem dividia aquele espaço?
- Ela lembra um acontecimento específico ou um período inteiro, como as férias escolares?
- Você escolheu a canção ou passou a conhecê-la porque alguém próximo a ouvia?
- O sentimento de hoje é parecido com o daquela época ou mudou com o tempo?
- Existe alguma música recente que já esteja ligada a uma pessoa ou experiência importante?
A trilha sonora da vida continua recebendo novas canções
A adolescência não encerra a formação de lembranças musicais. O destaque dessa fase nos estudos descreve uma tendência, não uma fronteira. Uma música descoberta na vida adulta também pode acompanhar um casamento, uma mudança de cidade ou o nascimento de um filho. O repertório pessoal continua ganhando associações conforme surgem experiências.
A imagem de Oscar Wilde convida a prestar atenção nessa dimensão afetiva da escuta. Ao reencontrar uma faixa antiga, podemos lembrar não apenas de alguém, mas de como vivíamos naquele período. O significado pessoal de uma canção inclui os lugares, os vínculos e os acontecimentos que passaram a fazer parte dela para cada ouvinte.