Brasil
Brasil registra um caso de violência política a cada 44 horas
Estudo revela um ataque a cada 44 horas fora do período eleitoral; 97,5% dos casos de agressão permanecem sem punição efetiva
A violência política no Brasil registra uma ocorrência a cada 44 horas, mesmo em períodos sem disputas eleitorais. Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, foram 354 episódios, um aumento de 18,4% em relação ao período pré-eleitoral anterior.
Os dados são de um estudo preliminar das organizações Terra de Direitos e Justiça Global. O levantamento aponta que a violência tem como alvo prioritário o exercício parlamentar, especialmente no âmbito municipal. O ano de 2025, sem eleições, registrou 225 casos, o período mais violento em 10 anos de pesquisa.
Pessoas com mandatos ou cargos públicos foram vítimas em 96,3% dos casos, sendo que 63% dos episódios se concentraram na política municipal. A letalidade segue a mesma tendência: 24 dos 28 ataques com intenção letal, incluindo 10 dos 11 assassinatos, ocorreram contra agentes políticos locais.
Segundo Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global, o fenômeno é permanente e atinge quem ocupa espaços de decisão. Ela destaca que grupos criminosos e policiais estão entre os responsáveis pelos atos, o que ameaça as instituições democráticas.
Mulheres e a dimensão racial da violência
As mulheres foram vítimas em metade (50,6%) dos episódios de violência, embora ocupem apenas 18% das cadeiras legislativas. A violência física, como agressões e assassinatos, teve homens como alvos em 77,2% dos casos, enquanto a violência simbólica, como ameaças e ofensas, atingiu majoritariamente mulheres (58,3%).
Ameaças de violência sexual e comentários sobre aparência tiveram 100% de vítimas femininas. Entre as mulheres atacadas, uma em cada três é preta; entre os homens, a proporção é de um em cada nove.
As mulheres negras (pretas e pardas) representam 22,8% do total de vítimas, mas concentram mais da metade dos episódios de repetição de violência. As quatro ameaças assinadas por grupos neonazistas ou supremacistas no período tiveram como alvo exclusivo mulheres pretas de quatro estados diferentes.
Agressões e impunidade
O próprio Estado figura como agressor em quase um terço dos casos (29,9%), quando somados políticos, policiais e outros agentes estatais. Em 52 episódios, as agressões aconteceram dentro do local de trabalho parlamentar. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi alvo de três ofensas por parlamentares em menos de quatro meses.
A impunidade é um fator preocupante. Embora 84,5% dos casos tenham sido denunciados, apenas 2,5% resultaram em punição efetiva dos autores. As organizações responsáveis pela pesquisa apontam que os mecanismos de proteção são falhos por se concentrarem apenas no período eleitoral.
Destaques da pesquisa
- 354 episódios de violência política em 22 meses (out/2024 a ago/2026), o que representa um caso a cada 44 horas.
- O tipo de violência mais frequente é a ameaça (193 casos), seguida de ofensa (71).
- Os estados com maior número de casos são São Paulo (67), Paraná (31) e Ceará (29).
- 96,3% das vítimas exerciam mandato ou cargo público.
- 63% das agressões e 85,7% dos atos com intenção letal atingiram o nível municipal.
- 50,6% das vítimas são mulheres (cis, trans e travestis).
- Um em cada cinco vereadores do PSOL eleitos em 2024 foi vítima de violência.
- Apenas 2,5% dos episódios resultaram em punição do agressor.
- As vítimas se distribuem em 183 brancas, 84 pretas, 70 pardas, quatro indígenas, uma amarela e doze sem identificação.
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.