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O papa de mármore que estava à venda num ferro-velho inglês por R$ 2 mil era obra de um dos escultores da Fontana di Trevi e é o único registro de uma estátua de bronze que Roma derreteu em 1798
Peça de Pietro Bracci foi comprada por R$ 2 mil como se fosse concreto e agora pode ser vendida por quase R$ 700 mil; conheça a história
Uma escultura de mármore, comprada por apenas £300, ou cerca de R$ 2,06 mil, em um depósito na Inglaterra, foi identificada como uma obra ligada a Pietro Bracci. Ele foi um dos grandes nomes do barroco italiano e o escultor por trás da figura central da Fontana di Trevi, em Roma.
A peça, que representa o papa Clemente XII, ficou exposta ao tempo por décadas e foi parar em ferro-velho em Wiltshire. Os responsáveis pelo local acreditavam que a escultura era feita de concreto, sem perceber seu verdadeiro valor.
Um comprador, que não teve a identidade revelada, desconfiou do material e adquiriu a estátua por £300. Ao verificar que se tratava de mármore, uma investigação sobre a origem da obra revelou a assinatura de Pietro Bracci. A casa de leilões Woolley & Wallis catalogou o item como um raro modelo relacionado à estátua de Clemente XII.
Peça de R$ 2 mil pode chegar perto de R$ 700 mil
Com aproximadamente 68 centímetros de altura, a escultura será leiloada em 8 de outubro, em Salisbury, na Inglaterra.
A estimativa oficial da Woolley & Wallis é de até £10 mil, o equivalente a R$ 68,7 mil. Contudo, devido ao interesse internacional e à raridade de obras de Bracci, especialistas acreditam que o valor final pode atingir £100 mil, ou cerca de R$ 687 mil.
Mark Yuan Richards, especialista da casa de leilões, classificou a descoberta como excepcional. Ele destacou que o proprietário não trabalha com antiguidades, mas percebeu que o objeto poderia ser mais valioso do que aparentava. A estátua estava desgastada por ter permanecido em um jardim ao ar livre por cerca de 50 anos.
Escultura seria modelo de uma obra que desapareceu
A peça retrata Clemente XII, papa entre 1730 e 1740, cujo pontificado marcou o início da construção da Fontana di Trevi. O mármore foi produzido por Pietro Bracci por volta de 1733, como parte do desenvolvimento de uma estátua monumental do pontífice.

Em 1736, Bracci trabalhou no modelo de uma versão em bronze, posteriormente fundida por Francesco Giardoni e instalada no Palazzo Nuovo, em Roma. A obra celebrava as contribuições de Clemente XII aos Museus Capitolinos, mas não sobreviveu ao tempo. O bronze foi derretido em 1798, durante a República Romana.
Até esta descoberta, a principal representação da obra perdida era uma gravura dos irmãos Stefano e Rocco Pozzi. A casa de leilões considera o mármore um exemplar raro ligado à composição desaparecida.
A trajetória da escultura da Itália do século XVIII até um jardim inglês ainda não foi comprovada. Antes de chegar ao depósito em Wiltshire, a peça pertenceu a uma casa de campo na região de Andover, em Hampshire.
Uma das hipóteses é que a obra tenha sido levada à Inglaterra durante o “Grand Tour”, uma tradicional viagem pela Europa feita por membros das elites britânicas. Outra possibilidade é que tenha sido um presente diplomático.
Pietro Bracci viveu entre 1700 e 1773 e foi um dos principais escultores da Roma de sua época. Seu trabalho mais famoso é a monumental figura de Oceano, que domina o centro da Fontana di Trevi. Quase três séculos depois, uma de suas criações foi confundida com concreto e vendida por pouco mais de R$ 2 mil.