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Parece filme, mas é no Brasil: a vila sem asfalto no Nordeste eleita uma das mais bonitas do mundo, proíbe a entrada de carros e a rede elétrica foi escondida debaixo da areia
Sem carros, sem asfalto e com fios subterrâneos para as estrelas brilharem.
Há destinos que crescem apagando o próprio charme; outros crescem protegendo-o. No litoral oeste do Ceará, Jericoacoara virou fenômeno turístico mundial sem trocar as ruas de areia por asfalto. A antiga aldeia de pescadores, cercada por dunas que caminham sozinhas, entrou em uma famosa lista internacional de praias e manteve o céu estrelado livre de postes de luz.
Como uma vila sem estrada virou notícia no Washington Post?
Por uma reportagem que cruzou o oceano. Em 1994, o jornal norte-americano The Washington Post incluiu a praia de Jericoacoara em sua lista das dez mais bonitas do planeta, ao lado de destinos consagrados do Caribe e do Mediterrâneo. O texto nasceu da experiência do jornalista Cal Fussman, que atravessou as dunas e descreveu a paisagem quase intocada da vila, então conhecida apenas por mochileiros.
O apelido carinhoso de Jeri veio depois, mas o nome original é bem mais antigo. Vem do tupi e costuma ser traduzido como “toca das tartarugas”, referência às tartarugas-marinhas que desovam no litoral muito antes de qualquer roteiro turístico. Até os anos 1980, a aldeia vivia da pesca, sem luz, telefone ou estrada, acessível apenas a pé pela areia, de jangada ou no lombo de animais.

Por que a rede elétrica foi enterrada sob a areia?
Para não estragar a paisagem que tornou a vila famosa. Quando a energia elétrica finalmente chegou a Jericoacoara, no fim da década de 1990, a comunidade tomou uma decisão incomum: enterrar a fiação sob o chão de areia, em vez de erguer postes pela vila. O resultado é um céu noturno sem o emaranhado de fios e luminárias que marca a maioria das cidades, onde as estrelas aparecem com uma nitidez rara.
A circulação de veículos particulares também é proibida dentro da Vila de Jericoacoara. Os carros ficam em estacionamentos autorizados na entrada, e quem chega segue a pé pelas ruas de areia. Todo visitante paga a Taxa de Turismo Sustentável, conforme a Prefeitura de Jijoca de Jericoacoara, município que abriga a vila. A regra preserva as ruas de areia e o ritmo de caminhada que define o lugar.
O que fazer nas dunas, lagoas e praias de Jeri?
Os passeios saem da vila em buggies ou veículos 4×4 com guias locais, cortando dunas móveis que avançam cerca de trinta metros por ano. Algumas atrações, porém, ficam a uma curta caminhada do centro.
Por que Jericoacoara é o 3º parque nacional mais visitado do Brasil?
Porque reúne paisagem rara e proteção legal num só lugar. A área foi declarada Área de Proteção Ambiental em 1984 e, em 4 de fevereiro de 2002, parte do território foi recategorizada para a proteção máxima, com a criação do Parque Nacional de Jericoacoara. A unidade tem cerca de 8.850 hectares de dunas, lagoas temporárias, manguezais e uma faixa marítima paralela à costa, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O reconhecimento se traduz em números. Em 2024, o parque registrou mais de 1,5 milhão de visitantes, tornando-se o terceiro parque nacional mais visitado do país, atrás apenas do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, conforme dados do ICMBio. O território se espalha pelos municípios de Jijoca de Jericoacoara, Cruz e Camocim.
O que comer com os pés na areia em Jeri?
A cozinha da vila mistura frutos do mar frescos, tradição cearense e influências trazidas pelos estrangeiros que se instalaram na região. Os restaurantes se concentram na praça central e na orla.
- Camarão no abacaxi: prato-símbolo da vila, servido na fruta e presente em praticamente todos os restaurantes da praça.
- Peixada cearense: peixe fresco cozido com legumes, leite de coco e pimenta, acompanhado de pirão.
- Baião de dois: arroz e feijão-verde com queijo coalho e carne de sol, clássico da cozinha do sertão nordestino.
- Caipifruta: drinque preparado com frutas nativas como caju, tamarindo e acerola, servido nos bares à beira da praia.
Quando ir e o que esperar do clima?
O calor é constante o ano inteiro em Jericoacoara. A diferença entre as estações está nos ventos e nas chuvas, que mudam o tipo de experiência disponível, do kitesurf às lagoas cheias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à vila cercada de dunas?
Jericoacoara fica a cerca de 300 km de Fortaleza. Por rodovia, o trajeto segue pela CE-085, a Rota do Sol Poente, até Jijoca, seguido de aproximadamente 20 km em estrada de terra e areia até a vila, trecho que exige veículo adequado. Há também voos para o Aeroporto Regional de Jericoacoara, no município de Cruz, a menos de 40 km do centro, opção que encurta bastante a viagem.
A vila que a lua ilumina
Jericoacoara provou que é possível crescer sem perder a essência. Ruas de areia, dunas que caminham sozinhas, um parque nacional entre os mais visitados do país e um céu sem postes fazem da antiga aldeia de pescadores um dos destinos mais singulares do litoral brasileiro.
Você precisa conhecer Jericoacoara e sentir a areia nos pés enquanto o sol mergulha direto no oceano, num lugar onde o anoitecer ainda depende da lua.