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Especialistas em psicologia explicam: “O número de filhos que uma pessoa deseja ter pode não depender apenas de planos financeiros ou familiares, mas também do próprio estilo de apego”
O estilo de apego pode influenciar o número de filhos desejado, mas não determina sozinho o tamanho da família
O estilo de apego pode fazer parte da reflexão sobre ter filhos, ao lado da renda, da rotina e dos planos do casal. Na psicologia, esse conceito ajuda a compreender expectativas de proximidade, confiança e segurança emocional. A maneira como alguém vivencia os vínculos pode entrar nessa decisão, mas não determina, sozinha, o desejo de formar uma família.
O que o estilo de apego tem a ver com a parentalidade?
Imaginar a chegada de um filho envolve pensar em cuidado, dependência e disponibilidade emocional. Para algumas pessoas, essa perspectiva desperta entusiasmo. Para outras, traz dúvidas sobre autonomia, responsabilidade ou apoio do parceiro. Essas expectativas merecem espaço na conversa, junto das condições práticas necessárias para criar uma criança.
Uma pesquisa com 15.120 adultos do Japão, do Canadá e dos Estados Unidos examinou relações entre padrões de vínculo e número de filhos. O estudo, publicado em 2026 no International Journal of Psychology, avaliou ‘sucesso reprodutivo’ pelo número de filhos que os participantes já tinham, e não pelo número de filhos que desejavam ter. Foram encontradas associações estatísticas, com diferenças culturais. Associação não comprova causa: os resultados não permitem afirmar que uma característica emocional produz determinado tamanho de família, nem prever a escolha individual de quem respondeu.
Quais padrões de vínculo foram considerados?
O estudo considerou quatro padrões de apego adulto. Eles descrevem tendências na relação com proximidade e confiança, sem funcionar como diagnósticos ou identidades imutáveis. Confira abaixo as características gerais usadas para diferenciá-los:
- Seguro, associado a maior conforto com intimidade e confiança nos vínculos;
- Preocupado ou ansioso, marcado por insegurança sobre a disponibilidade e a aceitação do outro;
- Distante ou desinvestido, relacionado à valorização da autossuficiência e ao afastamento da dependência emocional;
- Temeroso, que combina desejo de proximidade com receio de rejeição.

Desejar uma família maior significa sentir mais insegurança?
Não é possível chegar a essa conclusão olhando apenas para o número de filhos desejado. Uma pessoa pode querer três crianças por valorizar a convivência entre irmãos. Outra pode preferir uma porque considera sua disponibilidade de tempo. Também existem pessoas que não desejam a parentalidade, sem que essa escolha indique dificuldade de estabelecer vínculos.
Na pesquisa, padrões preocupados e temerosos apareceram associados a um número maior de filhos nos três países. O padrão seguro teve associação com menos filhos no Canadá e nos Estados Unidos, mas não no Japão. Essas diferenças reforçam a importância do contexto. O tamanho da família não mede a qualidade dos vínculos nem permite classificar alguém como emocionalmente mais preparado.
Como separar desejo pessoal, expectativas e condições reais?
O número de filhos desejado e o número de filhos que uma pessoa terá são questões distintas. Uma preferência pode mudar com a saúde, o relacionamento, a moradia ou o acesso a uma rede de apoio. Para refletir sobre o projeto familiar, confira abaixo perguntas que incluem tanto a rotina quanto as expectativas emocionais:
- Eu desejo cuidar de uma criança ou sinto pressão para corresponder à família?
- Como imagino a divisão dos cuidados, das despesas e das tarefas domésticas?
- Que apoio estaria disponível em períodos de cansaço ou dificuldade?
- Minha preferência continua fazendo sentido diante das condições atuais?
- Consigo conversar sobre dúvidas sem precisar decidir imediatamente?

A maneira de construir vínculos pode mudar?
O estilo de apego não deve ser tratado como uma sentença sobre o futuro familiar. Experiências posteriores e relações consistentes podem modificar expectativas sobre confiança e disponibilidade. Se o tema de ter filhos provoca conflitos repetidos, explorar esses receios pode ajudar a distinguir o desejo de exercer a parentalidade do medo de perder autonomia ou de ficar sem apoio. Essa reflexão não exige escolher um número de crianças nem assumir que toda dúvida vem da infância.
Um projeto familiar precisa considerar desejos e possibilidades
Compreender o estilo de apego pode oferecer uma perspectiva sobre a forma de vivenciar intimidade e cuidado. Ainda assim, uma decisão sobre filhos precisa incluir saúde, recursos, disponibilidade e escolhas pessoais. Ter filhos não garante segurança afetiva, assim como optar por não tê-los não demonstra ausência de afeto ou incapacidade de cuidar.
Uma conversa sobre parentalidade ganha clareza quando cada pessoa pode expressar o que deseja e o que teme. Em vez de procurar uma explicação única para o tamanho ideal da família, vale discutir como seria a vida com uma criança e quais responsabilidades seriam compartilhadas. O projeto pode ser revisto conforme o relacionamento, a rede de apoio e as condições de cuidado mudam.