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Roque Santeiro: relembre a história e a trama da novela que marcou a TV brasileira
Clássico de Dias Gomes e Aguinaldo Silva acompanha o retorno de um homem considerado morto e transformado em santo, colocando em risco os interesses de toda uma cidade
Roque Santeiro está de volta às tardes da Globo e traz novamente ao público uma das histórias mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira. Exibida originalmente entre 1985 e 1986, a novela mistura comédia, romance, crítica social, política, religião e elementos do imaginário popular para contar a história da fictícia cidade de Asa Branca.
Tudo começa com uma lenda. Luís Roque Duarte, o Roque Santeiro (José Wilker), é considerado morto ao defender Asa Branca do bando do criminoso Navalhada. Com o passar dos anos, o jovem passa a ser tratado como herói e santo popular. Milagres são atribuídos a ele, sua imagem se espalha e a cidade transforma sua história em uma verdadeira indústria.
O problema é que Roque não morreu.
Roque volta a Asa Branca e ameaça a farsa
Dezessete anos depois de seu desaparecimento, Roque retorna a Asa Branca. Sua simples presença é suficiente para colocar em risco toda a estrutura econômica e social construída em torno de sua suposta morte.
A cidade prosperou explorando a fama do “santo”. Peregrinos movimentam o comércio, lembranças religiosas são vendidas aos visitantes e diferentes personagens conquistaram dinheiro, prestígio e poder graças à lenda.
Por isso, a volta de Roque representa uma ameaça. Se todos descobrirem que o mártir está vivo, o mito pode desmoronar — e muita gente tem algo a perder.
É justamente dessa situação que nasce uma das principais críticas da novela: até onde uma sociedade é capaz de ir para preservar uma mentira quando ela se torna lucrativa e conveniente?
Viúva Porcina nunca foi viúva
No centro da história também está a inesquecível Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte.
Extravagante, espalhafatosa e dona de um estilo próprio, Porcina é conhecida em Asa Branca como “a viúva que foi sem nunca ter sido”. Isso porque ela nunca chegou a se casar de verdade com Roque.
A falsa viuvez ajudou a construir sua posição na sociedade local e também serviu aos interesses de Sinhozinho Malta (Lima Duarte), poderoso fazendeiro e uma das figuras mais influentes da cidade.
Malta e Porcina mantêm um relacionamento, mas tudo começa a mudar quando Roque reaparece. Ao conhecer pessoalmente o homem de quem supostamente era viúva, Porcina acaba se apaixonando por ele.
Forma-se, então, o principal triângulo amoroso da novela: Roque, Porcina e Sinhozinho Malta.
Sinhozinho Malta tenta preservar seu poder
Sinhozinho Malta é um dos grandes personagens de Roque Santeiro. Coronel moderno de Asa Branca, ele exerce influência econômica e política sobre a região e não pretende abrir mão facilmente de sua posição.
O retorno de Roque representa uma ameaça tanto aos seus interesses quanto ao relacionamento com Porcina.
Interpretado por Lima Duarte, Malta também entrou para a cultura popular brasileira por seus gestos, pulseiras, bordões e pela famosa pergunta: “Tô certo ou tô errado?”
Por trás do humor e do jeito caricato do personagem, a novela apresenta uma crítica ao coronelismo, ao poder econômico e às relações de influência existentes em pequenas comunidades.
Asa Branca vive do mito de Roque Santeiro
A força de Roque Santeiro está justamente no fato de que a história não depende apenas de seus protagonistas. Asa Branca praticamente se transforma em uma personagem.
Diversos moradores têm interesses ligados à manutenção da lenda.
Zé das Medalhas (Armando Bógus) ganha dinheiro comercializando objetos relacionados ao santo. Padre Hipólito (Paulo Gracindo) precisa lidar com a devoção popular criada em torno de Roque, enquanto Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) representa uma visão diferente dentro da própria Igreja.
O prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura) e sua mulher, Pombinha Abelha (Eloísa Mafalda), também estão inseridos na estrutura social e política da cidade.
Ao redor deles circulam dezenas de personagens que ajudam a mostrar como fé, dinheiro, poder, moralidade e interesses particulares se misturam em Asa Branca.
Matilde e a boate Sexus agitam a cidade
Outro núcleo importante gira em torno de Matilde, interpretada por Yoná Magalhães.
Dona da Pousada do Sossego e da boate Sexus, ela representa uma postura mais liberal diante da sociedade conservadora da cidade.
A boate reúne personagens como Ninon (Claudia Raia) e Rosaly (Isis de Oliveira) e provoca constantes conflitos com as figuras mais moralistas de Asa Branca, especialmente Pombinha Abelha e as beatas.
A oposição entre esses grupos permite que a novela explore, com muito humor, a hipocrisia existente entre aquilo que determinados personagens defendem publicamente e aquilo que fazem na vida privada.
Mocinha esperou anos por Roque
O retorno do protagonista ainda afeta diretamente Mocinha Abelha (Lucinha Lins).
Apaixonada por Roque desde a juventude, ela passou anos cultivando a lembrança do rapaz que acreditava ter morrido como herói.
Quando ele reaparece, entretanto, Roque já não é exatamente o homem idealizado por ela durante tantos anos. Além disso, o envolvimento dele com Porcina complica ainda mais a situação.
A trama utiliza esse reencontro para confrontar novamente mito e realidade, um dos temas fundamentais de toda a novela.
Uma história sobre uma cidade que precisa de uma mentira
Por trás do humor, dos romances e dos personagens caricatos, Roque Santeiro apresenta uma ideia bastante sofisticada: a verdade pode ser inconveniente quando uma sociedade inteira aprendeu a lucrar com uma mentira.
Roque deveria ser a pessoa mais importante de Asa Branca, mas, paradoxalmente, sua presença é justamente aquilo que muitos moradores não desejam.
O “santo morto” é muito mais útil para a cidade do que o homem vivo.
É a partir dessa contradição que Dias Gomes e Aguinaldo Silva desenvolvem uma sátira sobre poder, exploração da fé, interesses econômicos, moralismo, política e construção de mitos populares.
A origem da história é ainda mais antiga. Roque Santeiro foi inspirada na peça O Berço do Herói, de Dias Gomes. Uma primeira versão da novela chegou a ser produzida pela Globo em 1975, mas acabou proibida pela censura da ditadura militar antes da estreia.
Somente dez anos depois a história finalmente chegou à televisão. Com José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte à frente do elenco, a versão de 1985 se transformou em um fenômeno de audiência e em um dos maiores clássicos da história das novelas brasileiras.
Quatro décadas depois, o retorno de Roque Santeiro permite não apenas rever personagens inesquecíveis, mas também perceber por que a história de uma cidade que prefere preservar um mito a enfrentar a verdade continua sendo uma das tramas mais lembradas da televisão brasileira.
O texto Roque Santeiro: relembre a história e a trama da novela que marcou a TV brasileira foi publicado primeiro no Observatório da TV.