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Uma rocha os rios transparentes e esculpiu cavernas gigantes com lagos de 80 metros no interior do Mato Grosso do Sul
Onde o sol nasce primeiro nas Américas, uma floresta corta a cidade e a paisagem da praia tem regras rígidas.
No sudoeste do Mato Grosso do Sul, um tipo de rocha explica dois espetáculos de uma vez só. Em Bonito, o calcário da Serra da Bodoquena filtra a água dos rios até deixá-los quase invisíveis e, ao mesmo tempo, abre cavernas e abismos no subsolo. É essa geologia rara que transformou a cidade na capital brasileira do ecoturismo.
Por que o calcário deixa a água tão transparente em Bonito?
A resposta está na química da rocha. A região de Bonito fica sobre a Serra da Bodoquena, formada por rochas calcárias ricas em carbonato de cálcio, um mineral que funciona como um filtro natural. Quando a água da chuva se infiltra no solo e atravessa essas camadas, o carbonato captura as partículas de argila e sujeira em suspensão e as deposita no fundo, de modo que a água chega aos rios com uma limpidez surpreendente.
O resultado é uma visibilidade que faz peixes e plantas parecerem flutuar no ar durante a flutuação, atividade que virou marca do destino. O mesmo carbonato de cálcio, ao se depositar nas margens dos rios, forma as chamadas tufas calcárias, barragens naturais de rocha que represam a água e criam piscinas de tom azul-turquesa e pequenas cachoeiras ao longo do curso.

Como as cavernas e abismos da Serra da Bodoquena se formaram?
A mesma rocha que clareia os rios também escava o subsolo. Ao longo de milhões de anos, a água levemente ácida foi dissolvendo o calcário da Serra da Bodoquena, abrindo fendas que se alargaram até virar galerias e salões subterrâneos. É esse processo, chamado de carste, que deu origem às dezenas de grutas e abismos da região, muitos deles decorados por estalactites e estalagmites, as formações minerais que crescem gota a gota.
Boa parte desse patrimônio está protegida por lei. Segundo a Secretaria de Turismo de Bonito, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena foi criado em 21 de setembro de 2000 e abrange cerca de 77 mil hectares, administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A unidade preserva um raro encontro de biomas, com Mata Atlântica, Cerrado e a influência do Pantanal num mesmo território.
Quais grutas e abismos visitar em Bonito?
As cavernas da região têm características bem diferentes entre si, da contemplação tranquila à aventura radical. Todas exigem agendamento e guia credenciado, parte do sistema de visitação controlada da cidade.
O que esconde o fundo da Gruta do Lago Azul?
A gruta mais famosa de Bonito guarda surpresas muito além da cor. A Gruta do Lago Azul tem uma abertura por onde o sol entra e acende o lago em tons de azul profundo nos meses certos do ano. O espelho d’água no fundo da caverna tem mais de 80 metros de profundidade, o que a coloca entre as maiores cavidades inundadas conhecidas do planeta.
Foi nesse fundo submerso que a ciência encontrou um tesouro inesperado. Mergulhadores e pesquisadores recuperaram ali fósseis de animais da última era do gelo, entre eles preguiças-gigantes e tigres-dentes-de-sabre, criaturas que desapareceram há milhares de anos. A gruta funciona, assim, como uma cápsula do tempo, guardando no escuro os vestígios de uma fauna pré-histórica que habitou o Centro-Oeste brasileiro.

O que comer em Bonito?
A gastronomia de Bonito mistura a tradição pantaneira com os peixes de água doce da região. Os restaurantes se concentram na Rua Coronel Pilad Rebuá, a principal da cidade.
- Pintado e pacu: peixes de água doce típicos da bacia do Pantanal, servidos grelhados, assados ou à urucum, com pequi e mandioca.
- Traíra sem espinha: especialidade das casas de pescado, preparada para eliminar as espinhas do peixe de água doce.
- Chipa e sopa paraguaia: heranças da fronteira com o Paraguai, o pãozinho de polvilho e queijo e a espécie de bolo salgado de milho.
- Sobá: macarrão de origem japonesa que virou patrimônio do estado, servido em caldo com carne e cebolinha.
Qual a melhor época para visitar Bonito?
O clima é tropical, com verão quente e chuvoso e inverno seco e ameno. A estação seca costuma oferecer a melhor visibilidade nos rios, quando a água fica ainda mais transparente para a flutuação.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Bonito?
Bonito fica a cerca de 300 km de Campo Grande, capital do estado, viagem de aproximadamente quatro horas por estrada asfaltada. A cidade tem um aeroporto regional a poucos quilômetros do centro, com voos que a conectam a São Paulo. Dentro do município, o carro é a forma mais prática de circular entre os atrativos, quase todos em fazendas e reservas na zona rural, a distâncias que chegam a mais de 20 km do centro.
A geologia que fez de uma cidade um santuário de água e pedra
Bonito deve sua fama a um detalhe invisível aos olhos: a composição da rocha sob seus pés. O mesmo carbonato de cálcio que clareia os rios ergue as tufas, esculpe as cavernas e guarda fósseis no fundo dos lagos subterrâneos, num encadeamento raro de fenômenos naturais. Poucos lugares no mundo reúnem tanta transparência na superfície e tanto mistério no subsolo.
Você precisa conhecer Bonito, flutuar num rio de águas cristalinas e descer até um lago escondido numa caverna para entender como uma única rocha moldou um dos destinos mais singulares do Brasil.