Maior que a Suíça e no coração do Pantanal, a cidade brasileira que já teve o 3º maior porto da América Latina guarda casarões históricos e milhares de animais selvagens - Super Rádio Tupi
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Maior que a Suíça e no coração do Pantanal, a cidade brasileira que já teve o 3º maior porto da América Latina guarda casarões históricos e milhares de animais selvagens

Às margens do Rio Paraguai.

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Entre 1878 e 1930, Corumbá foi o terceiro maior porto fluvial da América Latina, / Imagem ilustrativa

Há cidades cuja história parece grande demais para o seu tamanho atual. No extremo oeste do Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia, Corumbá já rivalizou com Buenos Aires como porto, ocupa uma área maior que a Suíça e guarda mais da metade do Pantanal brasileiro. A Cidade Branca, às margens do Rio Paraguai, acumula recordes que poucos conhecem.

Por que Corumbá é chamada de Cidade Branca?

O apelido vem do chão. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Corumbá é conhecida como Cidade Branca por causa da cor de suas terras, ricas em calcário, que clareiam as ruas, as ladeiras e até os casarões do centro histórico. O solo claro, formado por rochas carbonáticas, dá à paisagem um tom pálido que acompanha o visitante do porto às colinas.

A cidade nasceu de uma estratégia militar. Fundada em 1778 pelo Império Português como posto de defesa da fronteira contra o avanço espanhol, ela ocupava uma posição-chave às margens do Rio Paraguai. Esse mesmo rio, que garantia a defesa, logo se tornaria a fonte de uma riqueza que transformaria Corumbá em um dos lugares mais movimentados da América do Sul.

Até a década de 1930, Corumbá só era acessível pelo rio, e foi justamente essa ligação fluvial que a tornou rica. / Créditos: Wikipédia

Como uma cidade no interior virou o terceiro maior porto da América Latina?

A resposta está na água. Até a década de 1930, Corumbá só era acessível pelo rio, e foi justamente essa ligação fluvial que a tornou rica. Com a abertura da navegação pelo Rio Paraguai e pela Bacia do Prata, a cidade virou um entreposto comercial por onde passavam mercadorias vindas da Europa rumo ao interior do Brasil e dos países vizinhos.

Entre 1878 e 1930, Corumbá foi o terceiro maior porto fluvial da América Latina, atrás apenas de Buenos Aires e Montevidéu, conforme o IPHAN. Comerciantes de origem europeia e árabe ergueram no Porto Geral casarões de arquitetura eclética que lembravam as cidades do Prata, um cenário sofisticado raríssimo no interior brasileiro. Esse conjunto, com mais de 200 edifícios, foi tombado pelo IPHAN em 1993. A decadência veio quando a ferrovia chegou e deslocou o eixo comercial para Campo Grande, mas o casario ficou como testemunha da época de ouro.

Por que Corumbá mergulha seu santo no Rio Paraguai?

Todo dia 23 de junho, a cidade vive seu ritual mais singular. No Banho de São João, milhares de pessoas descem em cortejo até o Rio Paraguai carregando a imagem de São João Batista para mergulhá-la, ou batizá-la, nas águas do rio, num gesto que renova a fé para um novo ciclo. A festa mistura o catolicismo português à cultura indígena e africana, com os cantadores de cururu e suas violas-de-cocho e as cirandas do siriri.

A tradição ganhou reconhecimento nacional. Em 19 de maio de 2021, o IPHAN inscreveu o Banho de São João no Livro de Registro das Celebrações como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, tornando-se o primeiro bem imaterial registrado exclusivamente em território de Mato Grosso do Sul. O pedido havia sido feito em 2010 e envolveu uma década de estudos, consolidando uma das festas juninas mais originais do país.

Como uma única cidade pode ser maior que a Suíça?

Pelo tamanho impressionante do seu território. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Corumbá tem cerca de 64.431 km² de área, o que faz dela o maior município de Mato Grosso do Sul e o 11º maior do Brasil, com superfície superior à de países europeus como a Suíça. Boa parte desse território é feita de água e planície alagável.

É dentro desses limites que vive o maior tesouro da cidade. Corumbá guarda cerca de 60% do Pantanal sul-mato-grossense, a maior planície alagável do planeta, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera desde 2000. A cidade não é apenas a porta de entrada do bioma: é parte viva dele, com a fauna pantaneira começando a poucos minutos do asfalto.

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É esse pulsar das águas que faz do Pantanal um dos maiores santuários de vida selvagem das Américas. / Créditos: Wikipédia

Por que faz tanto calor em Corumbá?

A combinação de baixa altitude, umidade e posição continental cria um dos climas mais quentes do país. Em novembro de 2023, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou 43,3°C na cidade, colocando-a no topo do ranking nacional de temperatura. No Pantanal, o calor extremo faz parte do ritmo da vida, ditando quando os rios enchem e quando as estradas de terra reaparecem.

Esse clima intenso molda tudo ao redor. A cheia e a seca alternam-se como dois tempos distintos: na época das águas, a planície se transforma num imenso espelho que cobre campos inteiros; na estiagem, a terra ressurge e concentra a fauna em torno dos rios, tornando o avistamento de jacarés, capivaras e aves ainda mais intenso. É esse pulsar das águas que faz do Pantanal um dos maiores santuários de vida selvagem das Américas.

A capital de um santuário que pulsa ao ritmo das águas

Corumbá reúne num só lugar o que parece pertencer a mundos diferentes: o esplendor de um porto que rivalizou com Buenos Aires, um território maior que um país europeu, uma festa em que um santo toma banho de rio e a maior planície alagável do planeta batendo à sua porta. Entre o calcário branco das ladeiras e as águas escuras do Rio Paraguai, a cidade carrega camadas de história que poucos imaginam existir no interior do Brasil.

Talvez seja essa a lição mais curiosa da Cidade Branca: que a grandeza de um lugar nem sempre se mede pelo tamanho da sua população, mas pela imensidão do que ele guarda, seja na memória dos casarões, seja na vida que pulsa no Pantanal ao redor.