Entretenimento
A vila que guarda o maior acervo da imigração italiana do Brasil foi eleita pela ONU uma das melhores do mundo em 2025
A vila brasileira que transformou sua herança italiana em patrimônio e ganhou projeção internacional.
Na Serra Gaúcha, a pouco mais de 180 km de Porto Alegre, uma vila pequena parece ter congelado no fim do século XIX. Antônio Prado reúne o maior conjunto de casarões da imigração italiana do país, onde a maioria dos moradores ainda fala o dialeto trazido do norte da Itália. Em 2025, essa herança rendeu um reconhecimento inédito da ONU.
Por que Antônio Prado é chamada de cidade mais italiana do Brasil?
Porque reúne o maior e mais completo acervo da colonização italiana no país. Segundo a Prefeitura de Antônio Prado, a cidade guarda o maior conjunto arquitetônico da imigração italiana do Brasil, com 48 edificações de madeira e alvenaria tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) na década de 1980. O IPHAN não tombou prédios isolados, mas o conjunto urbano inteiro, caso raríssimo no país.
A origem explica a identidade. Fundada em maio de 1886, Antônio Prado foi a sexta e última das chamadas antigas colônias da imigração italiana do Rio Grande do Sul. O nome homenageia Antônio da Silva Prado, fazendeiro paulista que, como Ministro da Agricultura do Império, promoveu a vinda dos imigrantes italianos e a instalação dos núcleos coloniais no estado. As casas foram erguidas entre o fim do século XIX e a primeira metade do XX, com técnicas trazidas da Europa.

Como uma cidade pequena ganhou um prêmio da ONU em 2025?
Pelo que soube preservar. Segundo a Prefeitura de Antônio Prado, em 17 de outubro de 2025, durante cerimônia em Huzhou, na China, a cidade foi reconhecida pela Organização Mundial do Turismo (ONU Turismo) como uma das Melhores Vilas Turísticas do Mundo, o selo Best Tourism Villages. Antônio Prado foi a única representante brasileira escolhida entre mais de 270 candidaturas de 65 países, numa lista de 52 vilas premiadas naquele ano.
O prêmio chegou num ano simbólico. O reconhecimento aconteceu justamente quando o Rio Grande do Sul celebrava os 150 anos da imigração italiana no estado. A distinção da ONU Turismo valoriza destinos que combinam sustentabilidade, preservação cultural e inclusão social, exatamente o que a cidade construiu ao proteger seu casario e suas tradições ao longo de mais de um século.
Por que o isolamento ajudou a preservar o casario?
Porque sem crescimento acelerado não houve demolição. Conforme a Prefeitura de Antônio Prado, o relativo isolamento geográfico do município foi um fator determinante para a preservação do antigo casario em estilo colonial. Enquanto outras cidades da região derrubavam suas construções antigas para dar lugar a prédios modernos, Antônio Prado ficou de fora do grande fluxo econômico e manteve suas casas intactas.
O que parecia atraso virou tesouro. A ausência de especulação imobiliária deixou de pé um conjunto de casarões de madeira e pedra que, hoje, é o mais homogêneo da arquitetura colonial italiana no país. O IPHAN mantém um escritório técnico instalado em uma das casas históricas, acompanhando as restaurações e promovendo a educação patrimonial entre os moradores.
O que visitar no centro histórico de Antônio Prado?
O centro histórico é um museu a céu aberto, percorrido a pé num raio curto, com placas explicativas e casarões abertos à visitação. As atrações contam a história da imigração italiana na Serra Gaúcha.
O que é o talian, a língua que resiste nas ruas?
É um dialeto que sobreviveu melhor no Brasil do que na própria Itália. O talian é a língua trazida pelos imigrantes do norte da Itália, principalmente da região do Vêneto, uma mistura de dialetos italianos com influências do português. Segundo o IPHAN, cerca de 80% da população de Antônio Prado ainda usa o talian no dia a dia, o que faz da cidade uma das que mais preservam essa herança linguística.
O reconhecimento oficial veio em etapas. Em 2014, o talian foi incluído no Inventário Nacional da Diversidade Linguística do IPHAN como patrimônio cultural imaterial, e em 2016 a cidade o cooficializou por lei municipal, ao lado do português. Nas escolas, o dialeto é ensinado, e ele convive com os grupos folclóricos, a religiosidade e o tradicional Filó, encontro noturno das famílias herdado dos antigos colonos.

Como é o clima em Antônio Prado ao longo do ano?
A altitude da Serra Gaúcha garante o clima frio que completa o cenário europeu. O inverno é rigoroso, com madrugadas que podem chegar perto de zero e geadas frequentes, enquanto o verão é ameno e mais chuvoso.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O que comer na cidade com sotaque do Vêneto?
A gastronomia é a mesma que os imigrantes vênetos cozinhavam no fim do século XIX, com pequenas adaptações ao ingrediente local. A mesa farta é parte da identidade italiana da cidade.
- Polenta: prato-base da cozinha vêneta, servida cremosa ou frita, acompanhando carnes e molhos, símbolo da mesa dos colonos.
- Massas artesanais: talharim, ravióli e nhoque feitos à mão segundo as receitas trazidas da Itália, servidos nas cantinas da cidade.
- Galeto e carnes: frango e carnes assados no estilo da colônia italiana, fartos e temperados de forma simples.
- Vinho colonial e grappa: produzidos nas propriedades rurais da região, herança direta da tradição vitivinícola dos imigrantes.
A pequena Itália gaúcha que o mundo aprendeu a admirar
Antônio Prado reúne o que poucos lugares das Américas conseguem preservar: o maior conjunto de casarões da imigração italiana do Brasil, uma língua trazida do Vêneto que resiste nas ruas e um reconhecimento mundial que coroou mais de um século de cuidado com a própria memória. Entre o casario de madeira e o talian falado na padaria, a cidade transformou o passado em presente.
Você precisa conhecer Antônio Prado, caminhar entre os casarões tombados e ouvir o talian nas conversas para entender por que uma vila de 13 mil habitantes na Serra Gaúcha emocionou a ONU e o mundo.