Brasil
Em 1861, o imperador Dom Pedro II mandou replantar as encostas devastadas por fazendas de café no Rio de Janeiro e, mais de 160 anos depois, a área é uma das maiores florestas urbanas do mundo
Reflorestamento de 1861 transforma encostas devastadas na atual Floresta da Tijuca
No século 19, as encostas do Maciço da Tijuca, no Rio de Janeiro, estavam tomadas por cafezais e carvoarias, e os rios que abasteciam a cidade começavam a secar. Em 1861, Dom Pedro II mandou replantar a área. Mais de 160 anos depois, a Floresta da Tijuca é um dos maiores exemplos de reflorestamento urbano do mundo e cobre boa parte do Parque Nacional da Tijuca.
Por que as montanhas do Rio ficaram sem floresta?
No início do século 19, o café se espalhou pelas encostas próximas à capital do Império. Fazendeiros derrubaram a Mata Atlântica para abrir plantações na Tijuca, no Alto da Boa Vista e nas serras vizinhas, e o que sobrava da mata virava lenha e carvão para a cidade em crescimento.
Com o solo exposto e sem cobertura vegetal, as nascentes que alimentavam os chafarizes do Rio perderam força. Secas na década de 1840 e no início da de 1850 agravaram a falta de água e deixaram claro que o problema vinha das montanhas desmatadas.
A decisão de Dom Pedro II em 1861
O governo imperial começou a desapropriar terras e, em 11 de dezembro de 1861, Dom Pedro II aprovou as instruções que criaram as Florestas da Tijuca e das Paineiras. O objetivo era proteger os mananciais e recuperar a vegetação. A medida é considerada uma das primeiras iniciativas de reflorestamento planejado por um governo nas Américas, décadas antes de a conservação ambiental virar tema de política pública.
O trabalho do major Archer e de trabalhadores escravizados
A tarefa ficou com o major Manuel Gomes Archer, que administrou a floresta de 1862 a 1874. O trabalho começou com um pequeno grupo de pessoas escravizadas e, mais tarde, passou a contar também com trabalhadores assalariados. Ao longo desses anos, a operação incluiu:
- coleta de sementes e mudas em fazendas e matas vizinhas, incluindo a região de Guaratiba;
- formação de viveiros para produzir as mudas antes do plantio;
- plantio em encostas íngremes, feito à mão e com poucas ferramentas;
- uso majoritário de espécies nativas da Mata Atlântica, combinadas a algumas exóticas.
Estima-se que cerca de 100 mil mudas tenham sido plantadas nesse período. Eleutério, Constantino, Manuel, Mateus, Leopoldo e Maria, alguns dos escravizados que trabalharam no replantio, são hoje lembrados como parte essencial dessa história.
Como a floresta se transformou em parque nacional?
Depois de Archer, o barão Gastão d’Escragnolle assumiu a administração e investiu no paisagismo, com a colaboração do paisagista francês Auguste Glaziou, criando recantos, lagos e mirantes. Em 1961, exatamente cem anos depois do decreto imperial, a área passou a integrar um parque nacional, que ganhou o nome de Parque Nacional da Tijuca em 1967. Hoje administrado pelo ICMBio, ele abriga o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea e a Vista Chinesa.

O que a floresta oferece ao Rio hoje
Com cerca de 4 mil hectares, o Parque Nacional da Tijuca está entre os mais visitados do Brasil e presta serviços que vão muito além da paisagem:
- protege nascentes e ajuda a regular o fluxo de água nas encostas;
- ameniza a temperatura dos bairros vizinhos;
- reduz o risco de deslizamentos ao segurar o solo com raízes;
- abriga espécies da Mata Atlântica, como bugios e cutias, reintroduzidos em projetos de restauração da fauna;
- oferece trilhas, cachoeiras e áreas de lazer a poucos minutos do centro da cidade.
Um legado que ultrapassa o Império
A Floresta da Tijuca costuma ser citada como uma das maiores florestas urbanas do mundo, embora o próprio Rio tenha outra área ainda maior, o Parque Estadual da Pedra Branca. O que a torna única é a origem: boa parte da mata atual nasceu de um replantio planejado, feito em terrenos que já tinham sido devastados.
Mais de 160 anos depois, a história mostra que recuperar uma floresta é possível, mas leva gerações. O esforço que começou com a falta de água na capital do Império hoje garante mananciais protegidos, sombra e biodiversidade a uma das maiores metrópoles do país.