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Provérbio espanhol: “Na falta de pão, boas são as tortas”, o ditado registrado em 1627 que lembra o nosso “quem não tem cão caça com gato” e fala com quem vive esperando a hora perfeita

Refrão do Século de Ouro, ainda em uso na Espanha, ensina a se virar com o que se tem e já teve versão em Portugal com pão e torta

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Na falta de pão, boas são as tortas: o provérbio manda se contentar com o que se tem quando o ideal não aparece
Na falta de pão, boas são as tortas: o provérbio manda se contentar com o que se tem quando o ideal não aparece - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Quando o pão acaba, a torta resolve. Essa é a lógica do provérbio espanhol A falta de pan, buenas son tortas, registrado em 1627 pelo estudioso Gonzalo Correas. Quase quatro séculos depois, o ditado ainda é usado na Espanha. Ele conversa direto com o brasileiríssimo quem não tem cão caça com gato e serve de recado para quem adia tudo à espera da hora perfeita.

O que significa o provérbio espanhol do pão e das tortas?

O provérbio recomenda se contentar com o que se tem quando não deu para conseguir algo melhor. A definição está no Refranero Multilingüe do Centro Virtual Cervantes, do Instituto Cervantes, que classifica o refrão como de uso atual. Fome, pobreza e conformidade aparecem ali como ideias-chave.

A imagem vem da mesa antiga. Segundo o verbete, o pão foi por muito tempo o alimento básico e, em épocas de escassez, quase o único. A torta também leva massa de farinha, assada devagar no forno, e pode ser doce ou salgada. Não é o ideal, mas mata a fome do mesmo jeito.

O molde fez escola. A estrutura “a falta de…, bom é…” deu origem a outros ditados espanhóis, como A falta de caldo, buena es la carne, que troca o prato desejado pelo que está disponível.

Como Gonzalo Correas registrou o refrão em 1627?

O ditado aparece no Vocabulario de refranes y frases proverbiales, que Gonzalo Correas deixou pronto para a gráfica em 1627. O Refranero indica o registro de A falta de pan, buenas son tortas nessa coletânea, no verbete A203.

Gonzalo Correas registrou o refrão em 1627 no Vocabulario de refranes y frases proverbiales, reunido de fontes escritas e orais
Gonzalo Correas registrou o refrão em 1627 no Vocabulario de refranes y frases proverbiales, reunido de fontes escritas e orais – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Um estudo publicado na Revista de Investigación Lingüística, da Universidade de Murcia, descreve o Vocabulario de refranes como um arquivo de frases e provérbios do Século de Ouro espanhol. Correas reuniu o material a partir de fontes escritas e orais, o que torna a obra preciosa para entender como o povo falava.

O refrão do pão ganhou outras roupagens com o tempo. A tabela reúne versões listadas pelo Instituto Cervantes, com a origem de cada registro.

Variações do refrãoREFRANERO
Formas do ditado e onde aparecem
Versão Registro
A falta de pan, buenas son tortas de Zaratán Correas (1627), verbete A521; Zaratán é uma localidade de Valladolid conhecida pelo bom pão
A mengua de pan, buenas son tortas Forma antiga registrada por Santillana e Núñez
A falta de pan, casabe Cuba, República Dominicana e Venezuela

As variações mostram que a ideia viajou bem: cada lugar trocou o substituto pelo que tinha à mão. Na literatura, o romancista Luis Coloma usou o refrão em Pequeñeces, de 1891, para justificar a resignação de um personagem.

A sabedoria dos vizinhos ibéricos rende outras lições sobre comida e prevenção. Esta aqui vem de Portugal e fala de planejamento.

Por que o ditado lembra o nosso quem não tem cão caça com gato?

Porque os dois dizem a mesma coisa: sem o recurso ideal, use o que existe. O verbete em português do Refranero Multilingüe aponta “quem não tem cão caça com gato” como equivalente do provérbio espanhol e o classifica como muito usado. No Brasil, também circula “quem não tem cachorro, caça com gato”.

Quem não pode andar a cavalo anda a pé: usar o que se tem hoje vale mais do que esperar a hora perfeita
Quem não pode andar a cavalo anda a pé: usar o que se tem hoje vale mais do que esperar a hora perfeita – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O parentesco é antigo. Segundo o mesmo verbete, Portugal tinha a versão “À míngua de pão boas são as tortas”, registrada na coletânea de Delicado em 1651 e hoje fora de uso. A língua portuguesa já teve o pão e a torta antes de adotar o cão e o gato.

Entre os sinônimos listados aparece ainda “quem não pode andar a cavalo anda a pé”. Para quem encara trem, ônibus e van no mesmo dia no Rio, o recado soa bem familiar.

Vale esperar a hora perfeita ou usar as tortas que se tem?

Na maioria das vezes, vale usar as tortas. O provérbio espanhol lembra com bom humor que a torta não substitui o pão em tudo, mas resolve a fome de hoje. Já a espera pelo cenário ideal pode não ter fim.

Isso não significa aceitar qualquer coisa para sempre. O ditado fala de conformidade diante da escassez, não de desistir de buscar o melhor depois. Começar com pouco tempo, pouco dinheiro ou pouca experiência costuma ensinar mais do que adiar. Que tal escolher hoje a sua “torta” e dar o primeiro passo naquilo que você vem empurrando?

Outras culturas também têm frases certeiras sobre recomeço. Esta, do Japão, fala de quedas e de persistência.

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