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Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, sobre os fracassos: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” Uma reflexão sobre lutar por aquilo em que se acredita
Antropólogo que ajudou a criar a UnB, o Parque Indígena do Xingu e os CIEPs do Rio transformou as próprias derrotas em bandeira num discurso feito na Sorbonne
O antropólogo Darcy Ribeiro tinha um jeito raro de fazer o balanço da própria vida. Num discurso na Sorbonne, em Paris, ele abriu com uma confissão que até hoje corre o país: “Fracassei em tudo o que tentei na vida”. Depois listou as causas que não conseguiu vencer e virou o jogo com outra frase: “Mas os fracassos são minhas vitórias”. É uma ideia que o ouvinte conhece bem, a de continuar brigando pelo que acredita mesmo quando o resultado não vem.
Onde Darcy Ribeiro falou dos próprios fracassos na vida?
Darcy Ribeiro fez esse balanço num discurso na Sorbonne, uma das universidades mais tradicionais da França. O trecho foi lembrado pela Rádio Senado, que reproduziu as palavras na voz de Caetano Veloso ao contar a trajetória do pensador. Na lista de derrotas estão as crianças que ele queria alfabetizar, os indígenas que tentou proteger e a universidade séria que sonhou construir.
O fecho é o que dá força ao discurso: ele diz que detestaria estar no lugar de quem o venceu. Para Darcy, perder uma luta justa não era vergonha. Vergonha seria ficar do lado de quem impediu as crianças de aprender a ler ou negou respeito aos povos originários. Dito assim, o fracasso vira uma espécie de atestado de coerência.
Como a antropologia levou Darcy Ribeiro aos povos indígenas?
Foi pela antropologia que Darcy chegou às aldeias. Mineiro de Montes Claros, ele começou a estudar medicina, trocou o curso pelas ciências sociais e se formou antropólogo. Depois viveu entre comunidades indígenas de estados como Mato Grosso do Sul, Pará e Maranhão, num trabalho de campo que marcou toda a sua obra.

Essa convivência ajudou a moldar duas criações que existem até hoje: o Parque Indígena do Xingu e o Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Para os povos indígenas do Brasil, eram passos importantes de proteção do território e da memória. Mesmo assim, o antropólogo considerava a missão inacabada e por isso a contava entre os fracassos.
A reflexão de Darcy conversa com outras frases da literatura brasileira sobre medo, risco e recomeço. Guimarães Rosa, outro mineiro, deixou uma das mais lembradas.
Por que a educação no Brasil foi a maior bandeira de Darcy?
Para Darcy, a escola era o caminho para o país mudar de verdade. Ao lado do educador Anísio Teixeira, ele esteve na origem da Universidade de Brasília. A página de história da Universidade de Brasília registra que o antropólogo definiu as bases da instituição, enquanto Anísio planejou o modelo pedagógico.
A UnB foi inaugurada em 21 de abril de 1962, e Darcy foi o primeiro reitor. O golpe militar de 1964 interrompeu o projeto. Para escapar da perseguição e da prisão, ele pediu asilo no Uruguai, onde trabalhou com universidades latino-americanas. É esse o pano de fundo do discurso: o sonho de uma universidade séria tinha sido atropelado pela ditadura.

De volta ao país, a educação no Brasil seguiu no centro da sua agenda, e o Rio sentiu isso de perto. Como vice-governador do estado entre 1983 e 1987, na gestão de Leonel Brizola, ele criou os CIEPs, os centros integrados de ensino público. Mais tarde foi senador pelo Rio, de 1991 até morrer, em 1997, aos 74 anos.
A TV Senado preparou uma programação especial para o centenário de nascimento do antropólogo, celebrado em 2022. No vídeo abaixo, a emissora apresenta essa homenagem à trajetória de Darcy Ribeiro.
Que lição os fracassos de Darcy Ribeiro deixam para quem luta?
A lição é que o valor de uma luta não se mede só pelo placar final. Darcy perdeu batalhas, mas deixou de pé parque, museu, universidade e escolas. Em novembro de 2024, o nome dele entrou no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, um reconhecimento que chegou décadas depois das derrotas que ele tanto contava.
Para o trabalhador que estuda à noite ou para a mãe que corre atrás de vaga na escola, a frase vira combustível. Nem toda causa se ganha numa vida só, mas abandonar a causa é a derrota de verdade. Que tal procurar um livro de Darcy na biblioteca do seu bairro e descobrir qual luta você também não largaria?
Se a vontade de ler bateu forte, tem mais sugestão aqui no site. A lista abaixo reúne obras que ajudam a entender o Brasil.
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