Bichos
Especialistas em cães afirmam: quando o cachorro pega o chinelo do tutor, ele pode não estar querendo apenas brincar, mas buscando o cheiro de quem ama
Estudo da Universidade Emory mostrou que o cheiro de uma pessoa conhecida ativa a área de recompensa do cérebro canino, mas roer objetos também pode indicar tédio ou ansiedade
Quem tem cão em casa conhece a cena: o tutor tira o chinelo e, minutos depois, ele aparece na caminha do bicho ou debaixo do sofá. Especialistas em comportamento canino explicam que o gesto nem sempre é só brincadeira. O cachorro entende o mundo principalmente pelo nariz, e o olfato canino reconhece no chinelo o cheiro de quem ele ama, um sinal do vínculo afetivo que a ciência já começou a medir.
O que o cheiro do tutor provoca no cérebro do cão?
O cheiro de uma pessoa conhecida ativa no cérebro do cão uma área ligada à recompensa e à expectativa de coisa boa. Foi o que mostrou um estudo da Universidade Emory publicado no periódico Behavioural Processes, em 2015. Os pesquisadores examinaram 12 cães acordados em ressonância magnética, treinados para ficar parados sem sedação.
Os animais sentiram cheiros de pessoas e de cachorros, conhecidos e desconhecidos. A região do olfato reagiu de forma parecida a todos, mas o núcleo caudado respondeu mais forte ao cheiro da pessoa conhecida, mesmo ausente. Para os autores, os cães distinguem esse cheiro e o associam a algo positivo.
O estudo não testou chinelos nem outros objetos da casa. Ajuda, porém, a entender por que um item que passa o dia colado à pele do tutor desperta tanto interesse num focinho capaz de reconhecer quem é da família.

Por que o chinelo também pode ser só brincadeira ou tédio?
Porque roer e carregar objetos é um comportamento natural do cachorro, com vários motivos além do cheiro. A ASPCA, entidade americana de proteção animal, aponta tédio, falta de exercício, busca por atenção e troca de dentes dos filhotes, fase que costuma acabar por volta dos seis meses.
A reação da família pesa. Se cada chinelo roubado rende correria pela sala, o animal pode entender que achou um jeito garantido de chamar atenção.
O cheiro do tutor também explica outro hábito comum dentro de casa. A Tupi já mostrou o que especialistas dizem sobre o cachorro que escolhe justamente o travesseiro.
Quando o chinelo roído pode ser sinal de ansiedade de separação?
O alerta acende quando o estrago acontece principalmente com o cão sozinho em casa. Segundo a ASPCA, animais com ansiedade de separação roem mais quando ficam sós e costumam também chorar, latir ou andar de um lado para o outro.
A veterinária comportamentalista Debra Horwitz, em palestra publicada pela Veterinary Information Network, explica que a maioria desses cães reage nos primeiros 30 minutos após a saída do tutor. Se o padrão se repete, procure um médico-veterinário com formação em comportamento para avaliar o caso.
Como evitar que o cão transforme o chinelo em brinquedo?
O caminho mais simples é tirar o chinelo do alcance e oferecer ao cachorro objetos próprios para roer. A ASPCA recomenda guardar calçados em armário fechado e não dar sapato velho como brinquedo, porque o bicho não separa o par liberado do proibido.

Bronca depois do estrago também não resolve, já que o animal não liga a punição ao que fez antes. Algumas atitudes funcionam melhor no dia a dia:
- Supervisionar o cão acordado e, ao flagrar o chinelo na boca, trocar com calma por um brinquedo dele e elogiar.
- Garantir passeios, brincadeiras e brinquedos de desafio, que gastam energia e reduzem o tédio.
- Aplicar repelentes de sabor amargo próprios para pets nos objetos visados, sempre ensinando o que pode ser roído.
O que esse hábito revela sobre o vínculo com o tutor?
Revela que o tutor ocupa um lugar central na vida do bicho. O cheiro de quem cuida dele está ligado a sensações boas, como indicou a pesquisa da Emory, e esse vínculo afetivo aparece até num chinelo levado para a caminha.
Entender o motivo ajuda a responder do jeito certo, com rotina, atenção e brincadeira no lugar da bronca. Da próxima vez que o seu chinelo sumir, repare quando isso acontece: essa pista pode deixar a convivência com o seu companheiro ainda mais tranquila.
Quem passeia com o cachorro pelas ruas do Rio também precisa entender os sinais de outros cães. Uma matéria da Tupi explica o recado de cada cor de coleira.