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Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, sobre consumo: “Pobre não é quem tem pouco, mas quem precisa infinitamente de muito e deseja cada vez mais.” Uma reflexão sobre a diferença entre viver com o suficiente e viver para acumular
Discurso feito no Rio de Janeiro em 2012 retomou uma lição de Sêneca e Epicuro e virou símbolo da crítica do líder uruguaio ao consumo sem freio
Quando subiu à tribuna da Rio+20, em junho de 2012, Pepe Mujica não ficou em metas técnicas. O então presidente do Uruguai lembrou que pobre não é quem tem pouco, mas quem precisa infinitamente de muito e deseja sempre mais. A frase atravessou fronteiras, sobreviveu à morte dele, em maio de 2025, e ainda cutuca o consumismo que empurra tanta gente para o carnê e a hora extra.
Onde Pepe Mujica falou sobre pobreza e consumo no Rio?
Foi aqui no Rio de Janeiro, na conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, a Rio+20. Mujica discursou em 20 de junho de 2012, e a transcrição publicada pelo Ministério das Relações Exteriores do Uruguai registra a frase com todas as letras.
No texto oficial, o uruguaio diz que pobre não é quem tem pouco, mas quem necessita infinitamente de muito e segue desejando mais e mais. A Presidência do Uruguai guarda o áudio completo da fala, que tem menos de dez minutos.
Na mesma ocasião, ele fez uma pergunta que ficou famosa: o que aconteceria com o planeta se as famílias da Índia tivessem tantos carros quanto as alemãs? Para Mujica, a grande crise não era ecológica, e sim política.
De onde vem a ideia de pobreza que Mujica levou à Rio+20?
A ideia é antiga, e o próprio Mujica fez questão de dizer isso. Antes da frase, ele citou os velhos pensadores que já definiam a pobreza assim: Epicuro, Sêneca e os povos aimarás, dos Andes.

Em latim, a formulação mais conhecida está na segunda das Cartas a Lucílio, de Sêneca: “non qui parum habet, sed qui plus cupit, pauper est”. Em tradução livre, não é pobre quem tem pouco, mas quem deseja mais. Na mesma carta, o filósofo romano recorre a Epicuro: a pobreza vivida com alegria é coisa honrosa.
O mérito do uruguaio foi levar essa sabedoria a uma cúpula de chefes de Estado. Ele tratou a sobriedade como questão cultural, não como privação, e ligou o tema ao futuro do planeta.
Essa conversa sobre o tempo que deixamos escapar também aparece em outra reflexão publicada aqui no site, a partir de uma frase de Oscar Wilde.
Por que o consumismo rouba tempo de vida, segundo Mujica?
Para ele, cada compra é paga com horas de trabalho, ou seja, com vida. No discurso, Mujica lembrou que os trabalhadores lutaram pela jornada de oito horas e, em alguns lugares, já conquistavam a de seis.
O problema, segundo ele, é que muita gente usa o tempo livre num segundo emprego para pagar o carro, a moto e as prestações. Um dia, a pessoa percebe que virou um velho cuja vida já passou.

Quem encara trem lotado na Baixada ou horas de engarrafamento na Avenida Brasil para fechar o mês conhece esse dilema. A reflexão não manda ninguém largar o emprego: pergunta para que serve tanto esforço. O consumismo, nessa visão, transforma o desejo sem fim em trabalho sem fim.
Essa ideia lembra o que hoje muita gente chama de minimalismo: comprar menos, com mais critério, e guardar tempo para o que importa de verdade.
O que a sobriedade de Mujica ensina a quem vive hoje?
Ensina que bem-estar não se mede pela pilha de coisas acumuladas. No fim do discurso, Mujica resumiu que o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana, feita de amor à terra, cuidado com os filhos e tempo com os amigos.
O próprio Uruguai reconheceu esse legado quando ele morreu. O Decreto 104/025 declarou luto oficial de 14 a 16 de maio de 2025 e destacou que o ex-presidente, que governou de 2010 a 2015, defendeu os mais humildes e combateu o individualismo extremo.
Sobriedade não é miséria, nem minimalismo de fachada para foto bonita. É escolher o suficiente e gastar só com o que vale o seu tempo. Que tal, na próxima compra por impulso, fazer a pergunta do velho Pepe: quantas horas da minha vida isso custa?
E se você gosta de reflexões que cabem no dia a dia, tem outra frase antiga no site, desta vez sobre a força de caminhar junto.
Provérbio africano sobre união: “Se você quer ir rápido, vá sozinho; se quer ir longe…”…➔