Provérbio japonês: "A alma de uma criança de três anos permanece até os cem." A lição de por que o que aprendemos na infância nos acompanha a vida inteira - Super Rádio Tupi
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Provérbio japonês: “A alma de uma criança de três anos permanece até os cem.” A lição de por que o que aprendemos na infância nos acompanha a vida inteira

Ditado registrado no kabuki em 1697 fala do temperamento dos primeiros anos e encontra eco nas pesquisas de Harvard sobre o cérebro infantil

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O provérbio japonês diz que o temperamento formado aos três anos acompanha a pessoa até a velhice
O provérbio japonês diz que o temperamento formado aos três anos acompanha a pessoa até a velhice - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Um provérbio japonês registrado há mais de três séculos diz algo que pais, avós e professores conhecem bem: o jeito que a gente forma nos primeiros anos costuma ficar até a velhice. A frase “A alma de uma criança de três anos permanece até os cem” conversa hoje com a psicologia do desenvolvimento e com o que a neurociência descobriu sobre a infância.

O que diz o provérbio japonês sobre a alma aos três anos?

O ditado afirma que o temperamento de uma criança pequena não muda com o passar dos anos. Em japonês, a forma mais conhecida é mitsugo no tamashii hyaku made, e os cem anos aparecem como imagem de uma vida longa.

O Nihon Kokugo Daijiten, dicionário de referência da língua japonesa da editora Shogakukan, define a expressão como o caráter da primeira infância que não se altera com a idade. A palavra mitsugo também quer dizer trigêmeos, mas no provérbio indica a criança de três anos.

Existe um detalhe curioso. Na contagem tradicional de idade da cultura do Japão, o bebê já nascia com um ano. Assim, os três anos do ditado equivalem a algo entre um e dois anos, e a frase é usada de forma figurada para falar da primeira infância.

Quem gosta de revisitar os próprios primeiros anos encontra mais lembranças aqui na Tupi. Uma das nossas matérias mostra como a vida na rua marcou uma geração inteira.

De onde vem o ditado e qual seu lugar na cultura do Japão?

O ditado circula no Japão há mais de 300 anos. O mesmo dicionário aponta como registro mais antigo a peça de kabuki Tsuwamono Kongen Soga, de 1697, em que um personagem diz a frase praticamente como ela é dita hoje.

Mais de 1 milhão de novas conexões entre neurônios se formam a cada segundo nos primeiros anos de vida
Mais de 1 milhão de novas conexões entre neurônios se formam a cada segundo nos primeiros anos de vida – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Com o tempo, a cultura japonesa criou variações. Há versões em que o coração da criança dura até os sessenta anos e a sabedoria, até os oitenta. A Coreia tem um ditado parecido, segundo o qual o hábito dos três anos vai até os oitenta.

Os dicionários de provérbios japoneses fazem uma ressalva importante. A frase fala de temperamento e de traços profundos, não de conteúdos decorados. Por isso, usar o ditado para justificar aulas precoces de tudo é visto como uma leitura equivocada da tradição.

O que a ciência sabe sobre o cérebro na primeira infância?

A ciência confirma que os primeiros anos pesam muito, como sugere o provérbio japonês, mas sem fatalismo. Segundo o Centro sobre a Criança em Desenvolvimento da Universidade Harvard, mais de 1 milhão de novas conexões entre neurônios se formam a cada segundo nos primeiros anos de vida.

Depois dessa explosão, o cérebro elimina as ligações pouco usadas, num processo chamado poda, que deixa os circuitos mais eficientes. Os circuitos simples vêm primeiro e os complexos são construídos em cima deles. É assim que o desenvolvimento infantil monta a base para aprendizado, comportamento e saúde.

O cérebro segue mudando a vida toda, e o tempo com crianças pequenas deixa marcas duradouras
O cérebro segue mudando a vida toda, e o tempo com crianças pequenas deixa marcas duradouras – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Os genes funcionam como a planta de uma casa, e as experiências influenciam como ela será erguida. Os pesquisadores de Harvard lembram ainda que a capacidade de adaptação do cérebro, a chamada plasticidade, diminui com a idade, embora novas conexões continuem possíveis.

O próprio centro de Harvard resumiu essa ideia num vídeo curto, em inglês, publicado em seu canal oficial. Ele explica como as experiências dos primeiros anos ajudam a construir a arquitetura do cérebro, dos circuitos simples aos mais complexos.

Por que a lição do ditado continua valendo para as famílias?

Porque ela traduz, em linguagem de avó, o que a psicologia do desenvolvimento observa nas pesquisas: as experiências e as relações da infância deixam marcas duradouras. Isso vale para uma família em Tóquio e também para uma casa em Nova Iguaçu ou em Madureira.

A sabedoria do provérbio não precisa ser lida como sentença definitiva, e a psicologia ajuda nisso, já que o cérebro segue mudando a vida toda, ainda que com mais esforço. Que tal aproveitar a próxima tarde com seus filhos, netos ou sobrinhos pequenos e lembrar que cada momento junto conta?

E se bateu saudade da sua própria infância, tem lembrança boa esperando por você aqui no site.