Brasil
Comunidade sem posto de saúde descobre que um prédio de R$ 900 mil foi construído para ser a unidade básica do bairro, mas nunca abriu as portas e hoje está sem portas, sem fios e sem uso
Auditorias do TCU mostram milhares de obras de saúde paradas no país e falhas no controle de UBSs retomadas, e o morador tem canais para cobrar
Quando um prédio erguido para ser a unidade básica de saúde do bairro fica pronto e nunca abre, o morador paga duas vezes. Ele banca a obra com o imposto e continua sem atendimento perto de casa. Com o tempo, o imóvel fechado perde portas, fios e louças, e um investimento de centenas de milhares de reais vira ruína. Os órgãos de controle conhecem bem esse problema, e existem caminhos para cobrar uma solução.
Por que uma unidade básica de saúde pronta acaba virando ruína?
Construir é só metade do caminho. Para funcionar, uma UBS precisa de equipe contratada, equipamentos, móveis e registro nos sistemas do Ministério da Saúde, e tudo isso pesa todo mês no orçamento da prefeitura.
Quando o município não planeja esse custeio, troca de gestão ou entra em disputa com a construtora, o prédio para no tempo. Sem vigilância, a obra pública abandonada vira alvo de furto e invasão, e cada mês de portas fechadas encarece a recuperação do imóvel.
A unidade fechada faz falta porque é a porta de entrada do Sistema Único de Saúde. É no posto que funciona o primeiro nível da atenção primária: vacina, pré-natal, acompanhamento de pressão alta e diabetes e o atendimento das queixas do dia a dia.
O que o Tribunal de Contas da União encontrou nas obras da saúde?
O tribunal encontrou paralisia em larga escala. Em dezembro de 2024, um diagnóstico do Tribunal de Contas da União apontou 11.941 obras paradas que eram financiadas com dinheiro federal, 52% dos contratos em vigor. Educação e saúde somavam 8.674 delas, entre creches, escolas, UBSs e UPAs.

Em novembro de 2025, os auditores analisaram de perto unidades retomadas pelo Pacto Nacional pela Retomada de Obras da Saúde. A auditoria do TCU sobre UBSs reativadas examinou 23 unidades em sete estados, que receberam R$ 12,9 milhões. Ela encontrou endereços errados, valores que não batiam e datas conflitantes nos sistemas de controle.
No caso de Piranhas (AL), duas unidades receberam verba federal para serem construídas, mas já funcionavam desde 2003 e 2007. O tribunal mandou o Ministério da Saúde apurar as falhas e fazer vistorias presenciais. Também recomendou placas de obra com QR Code ligado a um canal de denúncia.
Cuidar da saúde no dia a dia depende de ter onde medir a pressão perto de casa. A reportagem abaixo explica por que a hipertensão exige acompanhamento constante.
“Assassina Silenciosa” ataca no Brasil! Você pode ser a próxima vítima da hipertensão?➔
Como o morador pode cobrar a abertura do posto do bairro?
O primeiro passo é descobrir de quem é a obra e de onde saiu o dinheiro. A placa na frente do terreno costuma informar o órgão responsável, o valor e o prazo. Com esses dados, dá para pedir formalmente à prefeitura que explique em que pé está a obra.

Com a informação em mãos, a cobrança ganha força. Estes são os canais para levar a reclamação sobre uma obra pública abandonada:
- Ouvidoria da secretaria municipal de saúde e ouvidoria do SUS, pelo Disque Saúde 136.
- Câmara de Vereadores e conselho municipal de saúde, que fiscalizam a gestão local.
- Tribunal de Contas do Estado ou do Município, quando a verba é local, e o TCU, quando o dinheiro é federal.
- Ministério Público, que pode investigar o desperdício de recurso público.
Fotos com data, o endereço exato e o nome da obra ajudam qualquer um desses órgãos a agir. Quanto mais moradores assinam a mesma reclamação, mais difícil fica ignorar o pedido.
O que o bairro perde sem a atenção primária perto de casa?
O bairro perde o cuidado que evita a internação. A atenção primária à saúde acompanha gestantes, crianças, idosos e doentes crônicos antes que o problema vire emergência. Sem ela, a fila vai para UPAs e hospitais que já vivem lotados.
Um prédio fechado no meio da comunidade é dinheiro público parado e saúde adiada. Se no seu bairro existe uma unidade básica pronta e sem uso, junte os vizinhos, registre tudo e leve o caso aos canais oficiais. E conta pra gente aqui na Tupi, porque a gente quer acompanhar essa cobrança junto com você.
Para quem pensa em trocar a cidade grande pelo interior, saber onde fica o posto de saúde mais próximo é um dos pontos a conferir antes da mudança.