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Em 1869, um farmacêutico buscava um substituto da manteiga para a marinha de Napoleão III e criou a margarina, mas quem lucrou com ela foi outro
Hippolyte Mège-Mouriès vendeu a patente em 1871 a uma família holandesa, cuja empresa ajudaria a formar a Unilever, e morreu sem dinheiro
O francês Hippolyte Mège-Mouriès criou a margarina em 1869 para vencer um desafio lançado por Napoleão III: encontrar um substituto barato para a manteiga, que servisse à marinha e às classes trabalhadoras. A invenção ganhou o mundo, mas não enriqueceu o inventor. Dois anos depois, ele vendeu a patente a uma família holandesa. Morreu pobre em 1880.
A França do Segundo Império passava por uma industrialização acelerada. As cidades cresciam depressa, a procura por comida explodia, principalmente em Paris, e a manteiga, base da cozinha francesa, era cara e estragava rápido. Isso pesava também nas tropas, que precisavam de uma gordura que durasse nos deslocamentos.
O imperador abriu então um concurso. Pedia “um produto próprio para substituir a manteiga comum para a marinha e as classes trabalhadoras”, com “preço de custo módico” e “capaz de se conservar sem adquirir o gosto acre e o cheiro forte que a manteiga pega em pouco tempo”.
Quem era o inventor
Mège nasceu em 24 de outubro de 1817, em Draguignan, no sul da França. Aos 16 anos, entrou como aprendiz na farmácia de um conterrâneo e depois estudou em Aix e em Paris. Formou-se em 1838 e foi farmacêutico do Hôtel-Dieu de Paris até 1846. No mesmo período, fazia pesquisas de química aplicada.
Em 1848, patenteou um processo para extrair e refinar o açúcar da cana e da beterraba, e deixou a farmácia para se dedicar à química. Havia outros inventores de sobrenome Mège registrando patentes, por isso em 1852 ele juntou ao nome o sobrenome da mãe e passou a assinar Mège-Mouriès.
Antes da margarina, já tinha sido premiado mais de uma vez. O primeiro prêmio veio com um tratamento contra a sífilis. Depois, um produto à base de fosfato de cálcio e proteínas lhe rendeu 500 francos da Academia de Ciências. Em 1858, recebeu a grande medalha de ouro da Sociedade de Agricultura por um método de panificação que aumentava o rendimento do pão do Exército.
A “manteiga artificial” da fazenda imperial
Para atender ao imperador, Mège trabalhou na fazenda imperial de Vincennes, nos arredores de Paris. Lá desenvolveu uma pasta de gordura bovina com uma pequena proporção de leite. Deu a ela o nome de oleomargarina, a partir do grego margaron, “branco perolado”, por causa da cor.Em 15 de julho de 1869, registrou a patente nº 86.480, para a fabricação de uma “manteiga artificial”.
O produto cumpria o que o imperador havia pedido: custava menos, era mais fácil de fabricar e transportar e tinha valor nutritivo próximo ao da manteiga. Com a invenção, Mège-Mouriès foi feito cavaleiro da Legião de Honra.
Patente vendida aos holandeses
A guerra contra a Prússia, em 1870, impediu Mège-Mouriès de explorar a invenção. Em 1871, ele vendeu a patente à família Jurgens, que comerciava manteiga em Oss, na Holanda. Em 1927, a empresa dos Jurgens se uniu a outras fabricantes e formou a Margarine Unie. Pouco depois, a Margarine Unie se fundiu à britânica Lever Brothers, e da fusão nasceu a Unilever.
Na França, a venda foi liberada em abril de 1872, com aval do Conselho de Higiene e Salubridade do departamento do Sena, e com uma condição: em hipótese alguma o produto poderia ser chamado de manteiga. O preço ajudou nas vendas. A libra da margarina saía por 1,20 a 1,40 franco, e a da manteiga custava de 3 a 8 francos. Em 1874, os jornais já noticiavam falsificações da “falsa manteiga”.
Mège-Mouriès continuou pesquisando alimentação. Em 1875, patenteou uma conserva de carne bovina, e meses antes de morrer registrou uma última patente, sobre o uso do sal marinho na alimentação humana. Morreu em 31 de maio de 1880, em Neuilly-sur-Seine, na pobreza e no esquecimento, e foi enterrado no cemitério do Père-Lachaise, em Paris.
Da desconfiança à mesa
Os franceses demoraram a aceitar a novidade. A manteiga da Normandia, da Bretanha e de Charentes tinha prestígio, e a margarina passou por produto de segunda: muitos achavam o sabor pior e desconfiavam do efeito na saúde.
Com a industrialização, a fabricação melhorou, a qualidade subiu e o preço continuou baixo. No século 20, a margarina se espalhou pelo mundo, e as fórmulas passaram a usar principalmente gordura vegetal. Na França o consumo ainda é moderado, cerca de 3 kg por habitante ao ano, e o produto vai sobretudo para a cozinha, porque aguenta bem o calor do cozimento.