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Parece até filme, mas é no Brasil: a rua eleita a mais bonita do mundo, com 156 árvores formando um túnel verde e tombada como patrimônio ecológico, pioneira no continente
Um corredor verde com 156 árvores transformou esta rua brasileira em um dos cenários urbanos mais impressionantes.
Em quase toda cidade grande, árvores de rua disputam espaço com fios, garagens e calçadas apertadas. Em Porto Alegre, a Rua Gonçalo de Carvalho inverteu essa conta, com copas de tipuanas que se fecham sobre o paralelepípedo e escondem os prédios. O túnel verde ganhou proteção municipal antes de ganhar fama mundial, e essa ordem explica muito sobre a rua.
De onde veio o apelido de rua mais bonita do mundo?
O apelido nasceu em um blog, não em um ranking. Em 2008, o biólogo português Pedro Nuno Teixeira Santos encontrou fotos da rua na internet e as publicou com a frase que acabaria viajando o mundo: a rua mais bonita do mundo. Nenhuma premiação oficial concedeu o título, mas ele colou na paisagem e se espalhou por sites de arquitetura, viagem e sustentabilidade.
O detalhe curioso está no calendário. Quando o post viralizou, a Gonçalo de Carvalho estava protegida por decreto havia dois anos, resultado de uma mobilização dos próprios moradores. A fama internacional chegou para reconhecer uma paisagem que a vizinhança havia defendido por conta própria.

Quem plantou as tipuanas da Gonçalo de Carvalho?
As árvores foram plantadas pela própria Prefeitura entre as décadas de 1930 e 1940, conforme estudo publicado na revista Paisagem e Ambiente, da Universidade de São Paulo (USP). A espécie dominante é a tipuana (Tipuana tipu), de copa ampla e densa, largamente usada na arborização urbana do passado, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (Smams).
A mesma árvore marca o Brique da Redenção e avenidas como a João Pessoa. Foi ali que, em 1975, o universitário Carlos Alberto Dayrell subiu em uma tipuana que seria cortada para a construção de um viaduto, protesto que reuniu cerca de 500 pessoas e que a Prefeitura ainda lembra quando conta a história da espécie na cidade.
Como os moradores conseguiram proteger o túnel verde?
Eles barraram uma obra. No início dos anos 2000, um projeto de estacionamento ameaçava parte das árvores, e os vizinhos se organizaram para impedir os cortes. A pressão levou ao Decreto Municipal nº 15.196, assinado em junho de 2006, que declarou a rua patrimônio histórico, cultural, ecológico e ambiental de Porto Alegre, proteção apontada como pioneira para uma rua na América Latina.
A contagem das árvores muda conforme o levantamento. O número mais citado, 156, vem de um inventário técnico contratado pela Prefeitura. Em 2019, ao programar a poda de três tipuanas de cerca de 15 metros que avançavam sobre prédios e fios, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) falava em pelo menos 96 exemplares. Manter um túnel vivo exige manejo constante.
Onde esticar o passeio perto do túnel verde?
O bairro Independência fica perto de parques e de outros endereços que ajudam a entender por que Porto Alegre trata árvores de rua como patrimônio. Dá para emendar vários deles num mesmo dia.
Quando as tipuanas florescem em Porto Alegre?
A floração acontece na primavera, e a chuva se distribui ao longo de todo o ano em Porto Alegre, entre 108 mm em abril e 172 mm em outubro, de acordo com as médias do Climatempo. O que muda de verdade é a temperatura, com mínimas de 10°C em julho e máximas de 29°C no verão.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Gonçalo de Carvalho a partir do aeroporto?
O Aeroporto Internacional Salgado Filho fica a cerca de 15 minutos de carro da rua, que corta o bairro Independência perto da Rua Ramiro Barcelos. A via é residencial e de acesso livre, e a melhor forma de conhecê-la é a pé, de uma ponta à outra, sem pressa.
Uma rua que a cidade decidiu não perder
A Gonçalo de Carvalho ganhou fama mundial por acaso, mas a proteção veio antes, da vizinhança que se recusou a trocar sombra por vagas de carro. Plantadas pelo poder público há quase um século, as tipuanas seguem de pé porque alguém decidiu que valiam mais do que qualquer obra.
Você precisa atravessar a Gonçalo de Carvalho a pé numa manhã de primavera, quando as flores das tipuanas pintam o paralelepípedo de laranja.