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Lula x Flávio Bolsonaro: principais momentos e checagens do debate da Globo

Candidatos trocam acusações sobre economia, segurança, saúde e milícias no último embate antes do segundo turno; veja o que é fato, fake ou impreciso

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Foto: Manoella Mello/ TV Globo

O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram na noite desta sexta-feira (23) no debate promovido pela TV Globo, o último antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). O encontro, mediado pelo jornalista César Tralli e transmitido ao vivo dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, misturou discussões sobre economia, saúde e segurança pública com uma série de ataques pessoais entre os dois candidatos.

O xingamento mais lembrado da noite foi o apelido “nove dedos”, usado por Flávio ao criticar a política econômica do governo: “Não adianta nada, Lula, o salário mínimo estar em 1.621 reais se você dá com uma mão e tira com os nove dedos.”

Lula respondeu chamando o adversário de “miliciano” e explicou que perdeu o dedo em acidente de trabalho aos 17 anos. “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, disse o presidente. Flávio usou o direito de resposta para falar sobre causa animal, sem rebater a acusação. Ao final do debate, afirmou que nunca foi investigado por envolvimento com milícia.

Checagem — Flávio Bolsonaro: impreciso. Há evidências da ligação dele com milicianos, embora ele não seja investigado por envolvimento com esses grupos. Veja a checagem do Aos Fatos.

Primeiro bloco

O primeiro bloco girou em torno das regiões do país e de temas como infraestrutura, exportações, saneamento e aposentadorias. Flávio atacou o governo pelo número de obras paradas, citando relatório do TCU que apontaria mais de 11.500 obras paralisadas.

Checagem — Flávio Bolsonaro: fake/impreciso. O número atual do TCU é 4.215 obras paralisadas; o total de mais de 11.500 corresponde a abril de 2025. Veja a checagem do Aos Fatos.

Lula rebateu dizendo que herdou 6 mil obras inacabadas e listou projetos em andamento, como a BR-319, a Transnordestina, a Fiol e a Fico.

Checagem — Lula: impreciso. Em abril de 2023, o TCU registrava 8.603 obras paralisadas, mais do que as 6 mil citadas. Veja a checagem do Aos Fatos.

No tema salário mínimo, Flávio acusou Lula de elevar juros e endividar a população. O presidente retrucou que, sem os governos do PT, o salário mínimo seria de R$ 900, e questionou o adversário sobre a proposta de tarifa zero nos ônibus nos fins de semana. Flávio disse ser favorável à ideia, mas criticou a carga tributária do governo e prometeu reajustar o salário acima da inflação.

Checagem — Lula: fato. Sem a política de valorização do salário mínimo, o piso seria de R$ 852, segundo estimativa do Ministério do Trabalho e Emprego. Veja a checagem do Aos Fatos.

No Centro-Oeste, Lula afirmou que o Brasil abriu 700 novos mercados e aumentou o superávit comercial. Criticou a postura de Flávio durante as tarifas impostas por Donald Trump: “Quando o meu adversário ficou lambendo o Trump para taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado.” Flávio respondeu que produtores rurais enfrentam juros reais próximos de 20% e prometeu garantir recursos para o seguro rural e o Plano Safra.

Checagem — Lula: fato. O Brasil alcançou a marca de 700 novos mercados para produtos agropecuários. Veja a checagem do Aos Fatos.

Na rodada sobre a região Norte, Flávio perguntou por que a bancada do PT votou contra o Marco Legal do Saneamento Básico. Lula disse que o adversário “não conhece o Brasil” e lembrou que Jair Bolsonaro ironizou as mortes por falta de oxigênio no Amazonas durante a pandemia.

Checagem — Lula: fato. Jair Bolsonaro debochou de pessoas com sintomas de falta de ar por causa da Covid-19. Veja a checagem do Aos Fatos.

Flávio questionou se quem governa o país é Lula ou o Google, em referência aos pedidos do petista para que eleitores checassem dados na plataforma. A checagem de dados é importante para conferir a fala dos candidatos, que não teve esse recurso oferecido na televisão de forma simultânea.

Dívidas e SUS

No segundo bloco, a disputa em torno do endividamento dos brasileiros ganhou espaço central. Flávio prometeu comprar dívidas dos bancos e refinanciá-las pela Caixa Econômica Federal, com suspensão dos pagamentos por seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. Lula afirmou que o adversário copiava uma proposta sua, já enviada ao Senado, e disse ter enviado medida provisória para leilão de dívidas que pode alcançar R$ 150 bilhões.

Checagem — Lula: fato. O governo lançou o Desenrola Brasil 3.0, que prevê a compra de carteiras de dívidas pela Caixa. O valor de R$ 150 bilhões se refere ao volume potencial de débitos elegíveis. Veja a checagem do Aos Fatos.

No tema SUS, Lula perguntou como Flávio pretende melhorar a saúde pública prometendo cortes. “Como é que você vai melhorar a saúde? É com o tesouraço?”, questionou o presidente. Flávio criticou as filas de atendimento e disse que os cortes seriam na corrupção e na burocracia. Após pressão de Lula, o senador confirmou: “Eu vou manter, sim, vou investir no SUS, sim.”

O tema da licença-maternidade também gerou embate. Lula cobrou Flávio por ter votado contra a ampliação do benefício para 180 dias quando era deputado estadual. O senador admitiu o erro: “Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho.”

Checagem — Lula: fato. Flávio foi o único deputado a votar contra auxílio-maternidade para servidoras estaduais na Alerj. Veja a checagem do Aos Fatos.

Segurança e violência

Flávio perguntou sobre saídas temporárias de presos, maioridade penal e classificação de facções como organizações terroristas. Lula trouxe o caso Ana Clara, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil, e questionou por que o senador atuou como advogado do policial réu pelo crime. “O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos?”, disse o presidente.

Checagem — Lula: fato. Flávio integra a defesa do PM Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos. Segundo reportagem da UOL, a defesa foi feita de graça. Veja a checagem do Aos Fatos.

Flávio prometeu classificar o PCC, o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas, pena mínima de oito anos para furto de celular, trabalho obrigatório nos presídios e redução da maioridade penal para 16 anos, ou 14 anos em casos de estupro. “Eu vou tratar bandido como bandido”, afirmou. Lula, na tréplica, citou a atuação de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, onde, segundo o presidente, o senador defendeu e homenageou milicianos.

Checagem — Lula: fato. Flávio defendeu a atuação de milícias em discurso na Alerj. Veja a checagem do Aos Fatos.

Bloco final

O quarto e último bloco, de tema livre, foi tomado por acusações cruzadas. Lula questionou Flávio sobre uma ilha em Angra dos Reis comprada pelo jogador Richarlison, afirmando que o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, obteve a titularidade do imóvel em uma semana enquanto o atleta ainda aguardava regularização. “Queria que me explicasse como vocês tomaram a ilha do Richarlison”, disse o presidente. Flávio negou irregularidades e disse que Willer é amigo, não sócio: “O sócio dele é o seu advogado, o ex-ministro da Dilma, chamado Eugênio Aragão.”

Checagem — Lula: fato. A disputa entre Willer Tomaz e Richarlison já transitou em julgado; o último recurso foi rejeitado pelo STJ em 2025. Veja a checagem do Aos Fatos.

Os dois também trocaram acusações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso pelo governo Lula. Flávio afirmou que Vorcaro financiou o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, sem contrapartida política.

Checagem — Flávio Bolsonaro: fake/impreciso. É falso dizer que a PF atestou, em relatório, que não houve dinheiro público em “Dark Horse”; também não é possível afirmar que o dinheiro do Master não tinha origem em esquemas de desvio de recursos públicos. Veja a checagem do Aos Fatos.

Lula retrucou dizendo que Flávio estava em um barco negociando com dois empresários enquanto o Brasil registrava 100 mil mortes por Covid. “Ele estava no barco, negociando com dois empresários. Eu sei até o nome das pessoas”, afirmou o presidente. O senador negou.

Checagem — Lula: fato, com contexto. A fala se refere a reportagem que revelou que Flávio esteve com prostitutas e lobistas da Covaxin em 2021; a vacina foi barrada pela Anvisa e não distribuída no Brasil. Veja a checagem do Aos Fatos.

Encerramento

Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo tom do debate, fez um apanhado de sua trajetória de vida e convocou os eleitores a votar pela manutenção da democracia. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto, o que não é bom para ninguém”, disse.

Flávio agradeceu o apoio recebido durante a campanha e fez três promessas: não prometer o que não pode cumprir, devolver o poder de compra dos brasileiros e lutar pela liberdade e pela segurança nas ruas. “Vote em Flávio Bolsonaro, 22, pelo futuro, pelo futuro da nossa nação”, pediu ao encerrar.