Entretenimento
Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: “Pobre não é quem tem pouco, mas quem precisa infinitamente de muito e deseja cada vez mais.” Uma lição sobre trocar horas de vida por coisas que não preenchem
Por que a verdadeira pobreza está no desejo que nunca se satisfaz.
Parcela do carro, do celular, da TV nova, e a sensação de que o salário nunca alcança. Quem vive nesse ritmo reconhece na hora a provocação da frase de Pepe Mujica: pobre não é quem tem pouco, mas quem precisa infinitamente de muito e deseja cada vez mais. O ex-presidente do Uruguai disse isso diante de líderes do mundo inteiro, e a ideia é bem mais antiga do que ele.
Por que essa frase incomoda tanta gente?
Porque ela vira a régua do avesso. A gente aprende a medir a riqueza pelo que tem: o carro, a casa, o saldo na conta. Mujica propõe medir pelo tamanho da vontade. Quem precisa de pouco para estar bem tem sobra; quem precisa de cada vez mais vive sempre em falta.
E isso se vê na prática. Muita gente ganha mais do que antes e, mesmo assim, sente que o dinheiro sumiu, porque as necessidades cresceram junto com o salário. Para Mujica, essa corrida sem linha de chegada é a pobreza de verdade.

Onde e quando Mujica disse isso?
Foi na Rio+20, a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, no Rio de Janeiro, em junho de 2012. Em vez de falar só de metas ambientais, Mujica questionou o próprio modelo de consumo. O que ele defendeu naquele discurso:
A frase é mesmo de Mujica?
Ele a disse, mas não a inventou, e fez questão de deixar isso claro. No próprio discurso, Mujica atribuiu a ideia aos “velhos pensadores”: o filósofo grego Epicuro, o romano Sêneca e os povos aimarás dos Andes. A frase ficou conhecida pela voz dele, mas a raiz é antiga.
A origem fica visível quando se compara:
| Quem | Quando | A ideia |
|---|---|---|
| Epicuro Filósofo grego | Século 3 a.C. | Feliz é quem se contenta com o necessário |
| Sêneca Filósofo romano | Século 1 d.C. | Pobre é quem deseja mais, não quem tem pouco |
| Pepe Mujica Ex-presidente do Uruguai | Rio+20, 2012 | Pobre é quem precisa infinitamente de muito |
Nas Cartas a Lucílio, Sêneca escreveu em latim que pobre não é quem tem pouco, mas quem deseja mais. Mujica pegou essa ideia de dois mil anos e a levou para o centro de uma conferência da ONU. A transcrição do discurso da Rio+20 mostra que ele citou os três pensadores antes de dizer a frase.
Leia também: A psicologia explica que quem diz “obrigado” com muita frequência pode não estar apenas demonstrando educação, mas revelando gratidão, empatia e uma forma mais positiva de enxergar a vida.
Por que Mujica virou símbolo dessa ideia?
Porque ele vivia o que dizia. Mesmo como presidente, entre 2010 e 2015, seguiu morando numa chácara simples nos arredores de Montevidéu, dirigindo um Fusca antigo e doando a maior parte do salário. Ganhou o apelido de “presidente mais pobre do mundo”, que ele mesmo rejeitava: dizia que não era pobre, era sóbrio.
Mujica morreu em maio de 2025, mas a frase continua circulando, justamente porque o dilema dela segue atual:
- Quanto do salário vai para parcelas de coisas que você nem lembra que comprou?
- Quantas horas extras viram consumo em vez de tempo livre?
- Do que você realmente precisa para se sentir bem?
O que essa reflexão ensina para a vida comum?
Não é um convite a largar tudo e viver no campo. É um convite a perceber quando o desejo virou uma esteira que não para. Cada compra custa tempo de trabalho, e tempo é a única coisa que não se compra de volta.
Então aquela sensação do começo, de que o dinheiro nunca alcança, talvez não se resolva ganhando mais, e sim precisando de menos. Viver com o suficiente não é se privar, é recuperar o controle sobre o próprio tempo. Foi isso que Mujica, Sêneca e Epicuro tentaram dizer, cada um à sua época.