Economia
Bolsa aciona circuit breaker pela primeira vez desde 2020 após reeleição de Lula
B3 paralisa negociações temporariamente; dólar comercial salta e juros disparam
A Bolsa brasileira acionou o circuit breaker nesta segunda-feira (26) pela primeira vez desde março de 2020, no auge da pandemia de Covid-19. O gatilho foi a forte queda dos ativos após a vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial.
As negociações foram suspensas nos primeiros minutos do pregão, quando o Ibovespa atingiu queda de 10%. Elas voltaram por volta das 10h35, depois de um leilão. Na retomada, o índice chegou a cair mais de 17% e tocou a mínima de 169.516 pontos. As perdas diminuíram ao longo da manhã. Às 12h42, o Ibovespa recuava 14,44%, aos 175.466 pontos. Na sexta-feira (23), havia fechado em 205.082 pontos.
Lula foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% de Flávio, uma diferença de 4,4 milhões de votos. Flávio não reconheceu o resultado e disse que vai pedir a anulação da eleição à Justiça Eleitoral.
O mecanismo suspende temporariamente as negociações na Bolsa quando o mercado cai de forma acentuada. Ele interrompe a compra e venda de ações, derivativos e títulos de renda fixa privada até que as oscilações se estabilizem. É ativado em três estágios, de acordo com a intensidade da queda do Ibovespa em relação ao fechamento do dia anterior:
10% de queda: paralisação de 30 minutos
15% de queda: interrupção de uma hora
20% de queda: suspensão por prazo definido pela própria B3
Por que os ativos caíram tanto?
O mercado havia precificado uma vitória de Flávio Bolsonaro, que os investidores associavam a maior rigor fiscal. A continuidade de Lula na Presidência reforçou o temor de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. Esse cenário tende a elevar o prêmio de risco exigido para financiar o governo, pressionando a curva de juros e, com ela, o custo do crédito para empresas.
Os reflexos se espalharam por outros ativos. O dólar comercial abriu em alta de mais de 12% e chegou a R$ 5,60, mas perdeu força. Às 12h41, subia 8,47%, cotado a R$ 5,415. Na sexta, havia fechado a R$ 4,993.
Nos juros futuros, as taxas dos contratos longos de DI chegaram a subir mais de 260 pontos-base. O DI para janeiro de 2035 bateu 15,375%, contra 12,745% no ajuste anterior.
O CDS de cinco anos, termômetro do risco-Brasil, passava de 151 pontos no fim da manhã, alta de 26% sobre os 120,2 pontos de sexta. A alta indica maior desconfiança dos investidores sobre a capacidade do país de honrar seus compromissos financeiros, o que também encarece a captação de recursos no exterior.
O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação marcados para terça e quinta-feira e manteve só o de títulos pós-fixados (Selic) de terça. Também anunciou a recompra de NTN-F com vencimentos em 2031, 2033 e 2037. O Tesouro Direto chegou a suspender as negociações durante a manhã.
Bancos, varejistas e construtoras lideram as perdas. Na ponta oposta, exportadoras ganham com o dólar alto.
Reversão do primeiro turno
O movimento desta segunda-feira reverte os ganhos do pós-primeiro turno. Na eleição inicial, Flávio Bolsonaro terminou na liderança com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No pregão seguinte, a Bolsa disparou 7,70%, atingindo 206.911 pontos em recorde nominal e real. O dólar recuou 4,11%, a R$ 5,001, na maior queda diária desde 2018.
Aliados de Lula apontam o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), como o mais cotado para o Ministério da Fazenda. O vice-presidente Geraldo Alckmin também é citado. Ainda não há anúncio oficial.