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Moradores de uma pequena ilha na Escócia juntaram dinheiro, compraram a ilha inteira do dono e, desde 2002, são eles mesmos que decidem o futuro do lugar
Com 4 milhões de libras e apoio de fundos públicos, cerca de 100 ilhéus assumiram a terra e hoje administram casas, energia eólica e novos projetos
A Ilha de Gigha, um pedaço de terra de cerca de 11 quilômetros de comprimento no arquipélago das Hébridas Interiores, na costa oeste da Escócia, virou exemplo de organização popular. Quando o último dono particular colocou a ilha à venda, em 2001, os moradores resolveram comprá-la. Desde 15 de março de 2002, a terra pertence à própria comunidade, por meio do Isle of Gigha Heritage Trust, e quem decide o rumo do lugar são os ilhéus.
Como os moradores da Ilha de Gigha compraram a ilha inteira?
Os moradores compraram a ilha depois de uma votação entre eles e de uma corrida atrás de dinheiro público e próprio. A comunidade aprovou a proposta de compra comunitária e elegeu um comitê de sete pessoas, apoiado por consultores, para tocar o projeto. Desse grupo nasceu o trust que hoje é dono da terra.
Segundo o histórico da compra publicado pelo Isle of Gigha Heritage Trust, a operação custou 4 milhões de libras esterlinas. O dinheiro veio com apoio do Scottish Land Fund, fundo escocês de compra de terras, e da agência de desenvolvimento Highlands and Islands Enterprise.
Parte do valor precisava voltar. O fundo exigiu a devolução de 1 milhão de libras até março de 2004, e os ilhéus quitaram a conta em menos de um ano. A arrecadação incluiu campanhas na comunidade e a venda da Achamore House, o casarão da antiga propriedade. A entrega oficial, em 15 de março de 2002, é celebrada todo ano como o Gigha Day, o Dia de Gigha.
Histórias de ilhas com comunidade forte e memória própria também existem no litoral brasileiro. A Super Rádio Tupi já contou a trajetória de uma delas, cheia de naufrágios e tradição.
Quem decide o futuro da Ilha de Gigha depois de 2002?
Quem decide é a própria comunidade, organizada no trust, a entidade comunitária que ficou com as terras. O Isle of Gigha Heritage Trust é administrado por um conselho de diretores voluntários, eleitos pelos membros da organização.

Esse conselho cuida do patrimônio da ilha e conduz os planos e projetos de interesse coletivo. Na prática, funciona como um condomínio do tamanho de um bairro, em que os vizinhos escolhem quem vai administrar casas, terrenos e negócios em nome de todos.
O que mudou na Ilha de Gigha desde a compra comunitária?
A principal mudança aparece na população, que voltou a crescer. Na época da compra, cerca de 100 pessoas viviam na ilha. Hoje, segundo o trust, são mais de 170 moradores, e a escola local ganhou mais alunos.
O trust construiu casas premiadas, reformou imóveis antigos e vendeu lotes para moradias particulares. Novos negócios surgiram ao lado das fazendas de leite e da aquicultura, atividades que já sustentavam a ilha antes de 2002.
Os marcos dessa virada ajudam a entender a escala da mudança. A tabela reúne as datas e os números informados pela própria organização dos moradores.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 2001 | Ilha posta à venda pelo último dono particular |
| 2002 | Compra concluída em 15 de março, por 4 milhões de libras |
| 2004 | Três turbinas eólicas da comunidade entram na rede |
| 2013 | Quarta turbina começa a gerar energia em outubro |
A energia virou uma das maiores fontes de renda. De acordo com a página do parque eólico do Isle of Gigha Heritage Trust, a ilha teve em 2004 o primeiro parque eólico comunitário da Escócia ligado à rede elétrica. As três turbinas de segunda mão ganharam o apelido de Dancing Ladies, as damas dançantes.
Toda a eletricidade é vendida, e o lucro das empresas de energia criadas pela comunidade é repassado todo ano ao trust. Esse dinheiro paga a manutenção e as melhorias da ilha. Como as turbinas originais já passam de 30 anos de fabricação, a comunidade discute como substituí-las.

Que lição a experiência de Gigha deixa para outras comunidades?
A lição é que vizinhos organizados podem assumir o próprio território quando têm votação, regras claras e apoio público. A Ilha de Gigha, descrita pelos moradores como a mais ao sul das Hébridas, fica a cerca de cinco quilômetros da península de Kintyre e virou referência para outras ilhas das Hébridas Interiores.
A compra comunitária mostra ainda que ser dono traz responsabilidade: dívida para pagar, casas para construir e energia para administrar. Para quem acompanha de longe, no Rio ou na Baixada, fica a reflexão sobre o poder da associação de moradores. Se você também acredita na força da vizinhança, vale conversar com a sua e trocar ideias sobre o bairro.
Para seguir viajando por ilhas cheias de história e natureza, a Super Rádio Tupi tem outra sugestão. Desta vez, o destino fica bem pertinho, no litoral paulista.
O refúgio paradisíaco que fica a apenas 200 km de São Paulo➔