Shunryu Suzuki, monge japonês, sobre aprender: "Na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na do especialista há poucas." Um ensinamento sobre manter a curiosidade mesmo depois de anos fazendo a mesma coisa - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

Shunryu Suzuki, monge japonês, sobre aprender: “Na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na do especialista há poucas.” Um ensinamento sobre manter a curiosidade mesmo depois de anos fazendo a mesma coisa

Monge que fundou o San Francisco Zen Center ensinou que a experiência pode fechar portas, e a ciência da curiosidade ajuda a explicar por quê

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
Para Shunryu Suzuki, manter a mente de principiante abre possibilidades mesmo depois de anos de prática
Para Shunryu Suzuki, manter a mente de principiante abre possibilidades mesmo depois de anos de prática - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A frase abre um dos livros mais lidos sobre meditação no Ocidente. Em Zen Mind, Beginner’s Mind, algo como “mente zen, mente de principiante”, o monge japonês Shunryu Suzuki ensinou que na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na do especialista há poucas. A lição serve para o motorista que roda o Rio há 20 anos, para a cozinheira de mão cheia e para quem faz tudo no automático: a experiência ajuda, mas também pode fechar portas.

De onde vem a frase de Shunryu Suzuki sobre o principiante?

A frase nasceu de uma palestra de 1965, e não de um texto escrito à mesa. Segundo o arquivo de palestras do San Francisco Zen Center, o mestre falou sobre o tema em Los Altos, na Califórnia, em 11 de novembro daquele ano. O encontro aconteceu numa sala de meditação montada na garagem da aluna Marion Derby.

Na gravação, a fala é um pouco diferente: na mente de principiante temos muitas possibilidades, mas na mente do especialista não há muita possibilidade. A versão enxuta, que circula até hoje, saiu da edição feita pelos alunos, que transcreveram as fitas e transformaram as conversas em livro.

O autor era um sacerdote da escola Soto, uma das linhas do zen japonês. O memorial do San Francisco Zen Center informa que Shunryu Suzuki nasceu em 18 de maio de 1904 e chegou a San Francisco em 1959, aos 54 anos. Em 1962, fundou o centro com alunos ocidentais. Ele morreu em 4 de dezembro de 1971.

No zen, a mente de principiante é a disposição de praticar sem ideias prontas
No zen, a mente de principiante é a disposição de praticar sem ideias prontas – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que a mente de principiante significa dentro do zen?

No zen, a mente de principiante é a disposição de encarar a prática sem ideias prontas. Para Shunryu Suzuki, quem se considera especialista tende a enxergar só o que já espera ver, e por isso as possibilidades encolhem.

Na palestra de 1965, o monge diz que o mais difícil é justamente manter essa mente de principiante na prática. Na introdução do livro, o discípulo Richard Baker conta que o mestre via isso nos americanos: gente com poucas ideias preconcebidas sobre o budismo zen.

Frases que atravessam gerações ganham força quando a gente conhece o contexto em que nasceram. Aqui na Super Rádio Tupi, outra reflexão clássica fala de coragem nas fases difíceis da vida.

Por que a curiosidade ajuda quem repete o mesmo trabalho?

A curiosidade deixa o cérebro mais preparado para guardar o que aprende. Um estudo publicado no periódico Neuron, em 2014, por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, mostrou isso na prática. Os voluntários lembravam melhor das respostas que despertavam interesse, inclusive num teste feito um dia depois.

A lição convida a questionar o piloto automático e testar outro jeito de realizar tarefas conhecidas
A lição convida a questionar o piloto automático e testar outro jeito de realizar tarefas conhecidas – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Os exames de ressonância indicaram mais atividade em áreas cerebrais ligadas à recompensa nos momentos de curiosidade alta. Os autores sugerem que estimular a curiosidade pode tornar o aprendizado mais eficaz. É um achado que conversa bem com o budismo zen: o que o monge ensinava como atitude, a ciência observa no laboratório.

Como levar a lição do monge japonês para o dia a dia?

O caminho é tratar a experiência como ponto de partida, e não como ponto final. A lição de Shunryu Suzuki não pede que ninguém jogue fora o que sabe. Ela convida a desconfiar do piloto automático: perguntar de novo, ouvir o colega mais novo e testar outro jeito de fazer.

Isso vale para o motorista que conhece cada atalho da Avenida Brasil, para o professor com décadas de sala de aula e para quem prepara o mesmo feijão toda semana. Que tal escolher hoje uma tarefa que você faz de olhos fechados e olhar para ela como se fosse a primeira vez? Depois, repare no que mudou.

Quem dedica a vida inteira a um mesmo projeto também tem muito a ensinar sobre persistência. Uma dessas histórias envolve um ex-monge espanhol e uma catedral erguida com material reaproveitado.