Frase de Carolina Maria de Jesus: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.” Uma reflexão sobre o que só aprende quem viveu a falta - Super Rádio Tupi
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Frase de Carolina Maria de Jesus: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.” Uma reflexão sobre o que só aprende quem viveu a falta

Trecho de Quarto de Despejo abre artigo de revista da PUC-Rio e ganha novo peso com os números da fome no país, que voltou a sair do mapa da ONU em 2025

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Carolina Maria de Jesus relaciona a experiência da fome à responsabilidade de pensar no próximo
Carolina Maria de Jesus relaciona a experiência da fome à responsabilidade de pensar no próximo - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo, Carolina Maria de Jesus transformou a própria fome em matéria de escrita. Em Quarto de Despejo, diário publicado em 1960, ela deixou uma das frases mais lembradas da literatura brasileira. Nela, defende que o país seja governado por alguém que já passou fome, porque a fome também ensina. Mais de seis décadas depois, a ideia segue viva em discursos, salas de aula e pesquisas universitárias.

Em que trecho de Quarto de Despejo está a frase sobre a fome?

A frase está no próprio diário da escritora, numa das anotações sobre o dia a dia no Canindé. O trecho diz: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”. Logo depois, Carolina completa o raciocínio: “Quem passa fome aprende a pensar no próximo”.

O mesmo trecho abre, como epígrafe, o artigo Visão sobre a fome em jornais digitais no Brasil, publicado em 2023 na revista O Social em Questão, da PUC-Rio. A escolha mostra como a reflexão da autora virou referência também para pesquisadores que estudam a fome no país.

A força de uma frase curta, capaz de atravessar gerações, também aparece em outros clássicos. Na matéria abaixo, a reflexão parte de um romance do irlandês Oscar Wilde.

O que a fome ensinou a Carolina Maria de Jesus no Canindé?

A fome ensinou Carolina a medir o mundo pelo prato dos filhos. Mãe de três crianças, ela catava papel pelas ruas de São Paulo para comprar comida e escrevia em cadernos achados no lixo.

No Canindé, Carolina catava papel para comprar comida e escrevia em cadernos encontrados no lixo
No Canindé, Carolina catava papel para comprar comida e escrevia em cadernos encontrados no lixo – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Quando diz que a fome é professora, a autora não romantiza a miséria. Ela descreve um aprendizado forçado: quem sente a falta no corpo passa a enxergar a necessidade do vizinho e da criança. Daí vem a ideia de que um governante com essa vivência decidiria de outro jeito.

Esse olhar de dentro fez de Quarto de Despejo um documento raro. A favela costumava aparecer nos livros pelo olhar de fora. Com Carolina, quem vivia a falta passou a narrá-la com as próprias palavras.

Por que a frase ainda pesa no debate sobre a fome no Brasil?

A frase continua atual porque a fome nunca saiu de vez da agenda do país. Segundo a nota pública da Secretaria-Geral da Presidência da República, o Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU no período de 2020 a 2022. Naquele triênio, 4,7% da população, cerca de 10,1 milhões de pessoas, estava subalimentada.

O cenário mudou com o relatório da FAO, a agência da ONU para alimentação, divulgado em 28 de julho de 2025. Com dados de 2022 a 2024, o país ficou abaixo da linha de corte de 2,5%. A insegurança alimentar severa caiu de 7,3%, entre 2019 e 2021, para 3,4%.

Em Quarto de Despejo, Carolina transforma a experiência da falta em conhecimento e literatura
Em Quarto de Despejo, Carolina transforma a experiência da falta em conhecimento e literatura – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Na pesquisa publicada pela PUC-Rio, os autores analisaram 41 reportagens sobre fome publicadas entre outubro e dezembro de 2021. Em 78,1% delas, o Estado aparecia como responsável pelo cenário. Só 4,9% trataram do racismo estrutural, tema que atravessa a vida da escritora.

A TV Brasil dedicou um episódio do programa Caminhos da Reportagem à trajetória da autora, de Minas Gerais a São Paulo. O documentário passa também pela obra além do diário e reúne depoimentos como o da escritora Conceição Evaristo.

O que a literatura brasileira aprende com quem viveu a falta?

A literatura brasileira aprende com Carolina que a falta também produz conhecimento. O diário trata a fome como algo concreto, com horário e endereço. Mostra também que quem passa por ela entende de solidariedade antes de qualquer teoria.

Ler Quarto de Despejo hoje é ouvir uma mulher negra, com pouco estudo formal, que fez da escrita um jeito de existir. Se você ainda não conhece o livro, que tal procurá-lo numa biblioteca pública do Rio e conversar com essa professora tão particular que Carolina descreveu?

Quem gosta de histórias reais de gente simples do interior do Brasil tem mais uma leitura pela frente. Desta vez, o cenário é o sertão do Ceará.