Entretenimento
Segundo a psicologia, quem nasceu nos anos 60 e 70 pode ter desenvolvido uma capacidade especial de lidar com a solidão, graças a uma infância com menos distrações
A infância sem celulares pode ter ajudado pessoas dos anos 60 e 70 a aproveitar melhor o tempo a sós
Para quem nasceu nos anos 60 e 70, uma tarde sem companhia podia passar entre histórias em quadrinhos, desenhos no caderno e músicas escolhidas no rádio. Crescer antes dos celulares e das redes sociais dava a algumas crianças oportunidades de descobrir o que gostavam de fazer por conta própria. A psicologia ajuda a entender como essas experiências podem tornar o tempo a sós mais familiar na vida adulta e por que isso é diferente de sentir solidão.
O que uma infância com menos distrações digitais podia ensinar?
Antes de poder chamar um amigo por mensagem a qualquer hora, uma criança que chegava da escola sem companhia tinha de decidir como ocupar parte da tarde. Para algumas, era a chance de montar um quebra-cabeça no próprio ritmo ou inventar uma brincadeira com o que havia em casa. Quando havia liberdade para escolher, esses momentos podiam virar experiências de autonomia.
Em uma pesquisa qualitativa publicada no European Journal of Social Psychology, alguns entrevistados relacionaram o prazer de ficar a sós na vida adulta a experiências positivas com esse tipo de pausa desde cedo. O estudo analisou relatos pessoais. A ideia de que uma infância com menos distrações digitais pode ter favorecido essa familiaridade é uma interpretação possível, pois a pesquisa não comparou gerações nem mediu o efeito das telas.

Ficar sozinho e sentir solidão são a mesma experiência?
Na psicologia, o tempo a sós descreve um momento sem interação social. A solidão é a sensação de que falta a conexão desejada. A mesma casa silenciosa pode ser acolhedora depois de um dia cheio e parecer vazia quando se espera uma visita que não vem. A diferença aparece em situações comuns.
- Uma pessoa escolhe ler sozinha depois do almoço porque quer descansar.
- Outra gostaria de conversar durante o jantar, mas sente falta de alguém com quem possa dividir o dia.
- Alguém pode estar cercado de gente numa festa e ainda sentir falta de uma conversa em que se sinta ouvido.
Por que escolher ficar a sós muda a experiência?
Em um estudo publicado na Scientific Reports, 178 participantes registraram a rotina durante 21 dias. Nos dias em que ficar sozinho foi vivido como uma escolha, os relatos indicaram, em média, menos estresse e solidão e maior satisfação com o dia. A pesquisa acompanhou experiências cotidianas e identificou associações entre esses fatores.
Isso ajuda a entender por que uma hora livre pode ter sentidos tão diferentes. Quem reserva esse tempo para ouvir um disco ou cuidar das plantas pode aproveitar a pausa porque escolheu o momento e a atividade. Se a pessoa queria companhia, passar a mesma hora sozinha pode acentuar a saudade.
Como esse aprendizado pode aparecer na vida adulta?
Para algumas pessoas que cresceram nas décadas de 1960 e 1970, a familiaridade com atividades individuais pode aparecer na maneira de aproveitar uma tarde livre. O que muda de uma pessoa para outra é o tipo de pausa que faz sentido na rotina.
Atividades do cotidiano que podem recuperar prazer, autonomia e pausas longe das mensagens
- 1Quem gostava de desenhar no caderno pode reencontrar nessa atividade um jeito de desacelerar;
- 2Quem aprendeu a preparar o próprio lanche pode gostar de cozinhar sem pressa quando tem a casa para si;
- 3Quem passava parte da tarde lendo pode continuar reservando um horário em que prefere deixar as mensagens para depois.
O silêncio muda de significado ao longo da vida
Ter nascido nos anos 60 ou 70 situa a infância em uma época. A relação com o silêncio também passa pela convivência em casa, pelas oportunidades de brincar e pela liberdade para escolher o que fazer. Duas pessoas da mesma idade podem lembrar de tardes sem companhia com sentimentos bem diferentes.
Na vida adulta, gostar de um café em silêncio pode conviver com a vontade de almoçar com amigos no domingo. A pausa escolhida dá espaço para descansar ou se dedicar a um interesse. Já a saudade de uma conversa aponta para o valor daquele vínculo.