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Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro, sobre a felicidade: “Os melhores momentos da vida costumam acontecer quando o corpo ou a mente são levados ao limite num esforço voluntário para realizar algo difícil e que vale a pena.” Uma reflexão sobre o prazer de se dedicar por inteiro
Trecho do livro Flow, de 1990, resume a ideia do pesquisador que criou o conceito de estado de fluxo e virou referência da psicologia positiva
O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi passou a carreira tentando responder a uma pergunta simples: o que faz uma vida valer a pena? Uma das respostas mais lembradas dele contraria a ideia de que a felicidade mora no sofá. Para o pesquisador de família húngara, os melhores momentos surgem quando a gente se entrega, por vontade própria, a algo difícil e que tem sentido.
Em que livro Csikszentmihalyi falou dos melhores momentos?
A frase está no livro Flow: The Psychology of Optimal Experience, lançado em 1990 pela editora Harper & Row, em Nova York. No original em inglês, o autor escreve que os melhores momentos costumam acontecer quando o corpo ou a mente são levados ao limite. E completa: num esforço voluntário para realizar algo difícil e que vale a pena.
O trecho começa com uma provocação. Logo antes, Csikszentmihalyi afirma que os melhores momentos da vida não são os passivos, receptivos e de relaxamento. Ele também admite que essas experiências nem sempre são agradáveis enquanto acontecem. O esforço cansa e pesa, e o prazer muitas vezes aparece quando a gente olha para trás.

Segundo a Universidade de Chicago, onde ele se formou e lecionou por décadas, o livro foi traduzido para mais de 20 idiomas. A obra virou a mais conhecida do psicólogo e influenciou leitores bem longe da academia.
Frases famosas sobre felicidade costumam ter uma origem mais interessante do que parece. Outra citação célebre, de um escritor irlandês, também merece uma leitura atenta.
O que é o estado de fluxo que o psicólogo ajudou a definir?
O estado de fluxo é a experiência de ficar tão envolvido numa atividade que nada mais parece importar. A definição aparece no perfil publicado pela Universidade de Chicago após a morte do pesquisador. A ideia nasceu de entrevistas com artistas, atletas e cientistas, que descreviam a sensação de serem levados por uma correnteza.
Na prática, é o que sente quem perde a noção do tempo resolvendo um problema no trabalho, tocando um instrumento ou treinando para uma corrida. Esse fluxo não tem nada de preguiça nem de descanso. Ele pede atenção total, o oposto de ficar de bobeira.
Em 2004, Csikszentmihalyi resumiu essas ideias na palestra Flow, the secret to happiness, no evento TED. No vídeo, publicado no canal oficial do TED, ele pergunta o que faz uma vida valer a pena e explica por que o dinheiro não garante a felicidade.
Como a Hungria e a guerra marcaram a vida de Csikszentmihalyi?
Filho de um diplomata da Hungria, o pesquisador nasceu em 29 de setembro de 1934, em Fiume. A cidade, que na época pertencia à Itália, hoje se chama Rijeka e fica na Croácia. Em 1949, quando os comunistas assumiram o poder na Hungria, o pai deixou o cargo e abriu um restaurante em Roma.

O sofrimento que viu na guerra fez o jovem se perguntar o que torna a vida digna de ser vivida. Ele deixou a escola para ajudar a família e buscou respostas na arte, na filosofia e na religião. Na Suíça, uma palestra de Carl Jung o aproximou da psicologia, e aos 22 anos ele se mudou para os Estados Unidos.
A trajetória desaguou na psicologia positiva, área que estuda forças humanas como otimismo, criatividade e motivação. Em 2000, ele assinou com Martin Seligman o artigo Positive Psychology: An Introduction, publicado no periódico The American Psychologist. A terra natal da família o homenageou com o Prêmio Széchenyi, em 2011, e com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito da Hungria, em 2014.
Por que se dedicar por inteiro pode trazer mais felicidade?
Para Csikszentmihalyi, a satisfação duradoura vem do envolvimento, não só do conforto. Nessa visão da psicologia positiva, a felicidade se constrói no meio do esforço, quando a pessoa escolhe um desafio e mergulha nele de corpo e mente.
Isso vale para o trabalhador que domina um ofício, para o estudante diante de uma prova difícil e para quem aprende cavaquinho depois dos 50. O psicólogo morreu em 20 de outubro de 2021, aos 87 anos, em Claremont, na Califórnia. A lição dele continua de pé. Que tal escolher hoje uma coisa que te desafia e dar a ela sua atenção inteira? Depois conta pra gente como foi.
Se você gosta de entender o que a psicologia diz sobre os pequenos hábitos do dia a dia, tem outra leitura esperando por você.