Brasil
Cão Orelha: veterinário descreve quadro “terminal” e suspeita de espancamento
Relato à Polícia Civil contradiz versão de atropelamento e detalha lesões graves
O veterinário que atendeu o cão Orelha logo após o resgate afirmou, em depoimento à Polícia Civil, que os ferimentos apresentados pelo animal não eram compatíveis com atropelamento. Segundo o profissional, as lesões estavam concentradas apenas na cabeça, o que indicaria agressão física.
O depoimento consta em um dos inquéritos policiais obtidos nesta sexta-feira (6) e contradiz a versão apresentada pela defesa do adolescente indiciado, que sugeriu a possibilidade de atropelamento. De acordo com o veterinário, não havia cortes, escoriações ou raladuras pelo corpo ou pelas patas do animal.
Segundo o relato, Orelha apresentava ferimentos gravíssimos, especialmente no lado esquerdo da cabeça. O cão estava com inchaço volumoso, quase inconsciente e sem conseguir se manter em pé, além de sangramento nasal e bucal e protusão ocular, quando o olho fica projetado para fora da órbita.
Por que o veterinário suspeitou de agressão?
O profissional afirmou que a ausência de lesões típicas de atropelamento reforçou a suspeita de espancamento. No depoimento, ele relatou que não havia marcas fora da região da cabeça e que os ferimentos eram compatíveis com o uso de instrumento contundente, como barra de ferro ou pedaço de madeira, sem sinais de perfuração ou corte.
Ainda segundo o veterinário, foram identificados ruídos na mandíbula e no maxilar, indicando possíveis fraturas. Diante do sofrimento do animal e do que descreveu como “quadro clínico terminal”, Orelha acabou morrendo pouco depois do atendimento. O profissional reafirmou à polícia que não havia qualquer lesão fora da cabeça.
A moradora que resgatou o cão também prestou depoimento e relatou que o animal tinha três cortes profundos na cabeça, com exposição do crânio, dentes quebrados e a perda de um dos olhos. Segundo ela, Orelha estava em estado de agonia e com severa desidratação.

O que diz o laudo oficial?
O laudo da Polícia Científica de Santa Catarina aponta que a morte de Orelha foi causada por uma lesão contundente na cabeça. O documento admite diferentes mecanismos para o trauma, incluindo agressão com objeto rígido ou atropelamento, mas não identificou fraturas ou lesões em outras partes do corpo nem definiu de forma isolada a dinâmica exata do impacto.
A morte do cão completou um mês nesta quinta-feira (5). O animal foi agredido na madrugada de 4 de janeiro, por volta das 5h30, na Praia Brava, em Florianópolis, e morreu no dia seguinte em uma clínica veterinária.
Laudos da Polícia Científica indicaram pancada na cabeça como causa da morte. Um adolescente foi indiciado como autor das agressões. A Polícia Civil analisou mais de mil horas de imagens de câmeras de segurança, ouviu 24 testemunhas e utilizou tecnologia para mapear a movimentação do suspeito no horário do crime. O caso mobilizou moradores da região e motivou um movimento por justiça em defesa dos animais comunitários da Praia Brava.