Brasil
Hantavírus: o que diferencia o caso em Minas do registrado em cruzeiro
Os hantavírus pertencem à família Hantaviridae; cada variante costuma estar associada a uma espécie específica de roedor reservatório
Mesmo com especialistas descartando alarmismo em torno do hantavírus, a população segue preocupada com possíveis surtos e até com o risco de uma pandemia. O tema voltou a ganhar destaque após o primeiro óbito registrado em Minas Gerais, e no país, neste ano. A doença também ganhou repercussão internacional depois de mortes e casos confirmados no cruzeiro MV Hondius. Em 2025, o Brasil registrou 36 casos da doença, com 15 óbitos.
O hantavírus é uma doença rara, geralmente transmitida pela exposição à urina, fezes ou saliva de roedores infectados. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os hantavírus são vírus zoonóticos que infectam naturalmente roedores e, em algumas situações, podem ser transmitidos a humanos. A infecção pode causar quadros graves e até levar à morte, embora as manifestações clínicas variem conforme o tipo de vírus e a região geográfica.
Nas Américas, a infecção é conhecida por causar a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, condição de evolução rápida que compromete pulmões e coração. Já na Europa e na Ásia, os hantavírus estão mais associados à febre hemorrágica com síndrome renal, que afeta principalmente os rins e os vasos sanguíneos.
Vírus tem diferentes variantes
Os hantavírus pertencem à família Hantaviridae. Cada variante costuma estar associada a uma espécie específica de roedor reservatório, na qual o vírus causa infecção prolongada sem sinais aparentes de doença. Embora muitas espécies de hantavírus tenham sido identificadas no mundo, apenas algumas são conhecidas por causar doença em humanos.
No caso registrado em Minas Gerais, segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), a vítima era um homem de 46 anos, morador de Carmo do Paranaíba, no Alto Paranaíba, que tinha histórico de contato com roedores silvestres em área de lavoura.
Esse tipo de infecção é mais comum em áreas rurais e costuma estar associado a atividades ocupacionais ligadas à agricultura e ao contato com ambientes infestados por roedores silvestres.
Já o episódio no cruzeiro chama atenção por outro motivo. Embora a principal forma de transmissão também seja pelo contato com secreções de roedores infectados, a cepa Andina, encontrada em algumas regiões da América do Sul, é uma das poucas variantes com registro de transmissão direta entre pessoas.
Segundo a OMS, essa é a única variante conhecida por causar transmissão limitada de pessoa para pessoa, especialmente entre contatos próximos e prolongados, com casos já registrados na Argentina e no Chile.
Sem alarmismo
Para o infectologista Evaldo Stanislau, professor da Universidade São Judas/Inspirali, a principal mensagem neste momento é de cautela, sem alarmismo. “O hantavírus é uma doença já conhecida. A excepcionalidade desse caso é justamente o contexto de um ambiente confinado, como um navio, e a suspeita de uma transmissão entre pessoas, algo considerado raro”, explica.
“A cepa identificada no surto é a variante Andes. Trata-se da única variante conhecida com registros de transmissão entre humanos, embora isso ocorra apenas em situações muito específicas, envolvendo contato próximo e prolongado”, complementa.
Quais são os sintomas?
Os sintomas iniciais podem se parecer com os de outras infecções virais comuns, o que exige atenção ao contexto epidemiológico do paciente. “Na maioria das vezes, a doença começa com febre, mal-estar, dores no corpo e sintomas inespecíficos. Em uma parcela menor dos casos, pode evoluir para quadros graves, com falta de ar, insuficiência respiratória e necessidade de internação intensiva”, afirma o infectologista.
De acordo com a OMS, os sintomas costumam aparecer entre uma e oito semanas após a exposição ao vírus. Fatores como contato frequente com áreas rurais, celeiros, depósitos fechados ou locais com presença de roedores ajudam os médicos a levantar a suspeita da doença.
Nos casos mais graves, a infecção pode evoluir para a síndrome pulmonar por hantavírus, podendo progredir entre 4 e 24 horas após o início de tosse.
Como prevenir?
As principais medidas de prevenção envolvem evitar contato com roedores e adotar cuidados básicos de higiene, especialmente em locais fechados ou com risco de contaminação.
Entre as recomendações estão:
- Evitar contato com fezes, urina e saliva de roedores
- Manter ambientes limpos e ventilados
- Redobrar os cuidados ao limpar locais fechados por muito tempo
- Usar proteção ao manusear áreas possivelmente contaminadas
- Manter a vacinação em dia antes de viagens
- Evitar viajar com sintomas infecciosos
“Em qualquer ambiente aglomerado e fechado, há maior risco de transmissão de doenças infecciosas. Mas isso vale muito mais para gripe, COVID-19 e outros vírus respiratórios do que para o hantavírus”, ressalta.