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Brasil

Lula pede investigação de interferência após fechamento de embaixadas

EUA suspendem serviços consulares no país por questões de segurança, sem dar detalhes. PF apura suspeita de plano contra representação americana, mas diz não ter detectado riscos. Campanha de Lula pedirá investigação de possível interferência no pleito
crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Em um movimento liderado pelos Estados Unidos, pelo menos três países decidiram fechar suas representações diplomáticas no Brasil por temor de violência com a realização do primeiro turno das eleições. O governo norte-americano emitiu o comunicado durante a madrugada dessa sexta-feira, mas não citou o motivo exato, o que provocou especulações e alertas no Executivo brasileiro. Seguindo a decisão dos EUA, Austrália e Canadá também anunciaram a suspensão das atividades diplomáticas em Brasília. O Reino Unido adotou um tom mais moderado e alertou seus cidadãos para evitarem participação em comícios políticos.

No comunicado, os Estados Unidos disseram que a decisão de interromper os serviços diplomáticos teria validade imediata, mas não deram prazo para que as atividades normais sejam retomadas. A ordem para suspender as atividades consulares em todas as representações diplomáticas no Brasil, às vésperas das eleições, foge do padrão adotado por Washington em episódios semelhantes nas últimas décadas. Historicamente, paralisações dessa dimensão estiveram associadas, sobretudo, a ameaças terroristas ou a riscos concretos à segurança de instalações norte-americanas no Oriente Médio, no Norte da África e em partes da Ásia.

No Brasil, a interrupção alcança a Embaixada dos EUA, em Brasília, e os consulados em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Recife e em Porto Alegre. O comunicado norte-americano cita apenas “questões de segurança”, sem detalhar a natureza do risco nem estabelecer prazo para a retomada dos atendimentos. Norte-americanos que necessitem de assistência emergencial foram orientados a não comparecer às instalações e procurar os oficiais consulares de plantão.

Em nota à imprensa, o Departamento de Estado disse que a gestão do presidente Donald Trump colocou a segurança de cidadãos dos EUA como prioridade e confirmou a interlocução com o governo do Brasil. “Estamos trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”, diz um trecho da nota.

O Departamento de Estado, no entanto, não detalhou quais ameaças ou informações específicas embasaram o movimento. A pasta ressaltou que embaixadas e consulados norte-americanos utilizam regularmente o Smart Traveler Enrollment Program (STEP) para comunicar cidadãos dos EUA sobre alterações no cenário dos países onde estão.

“As Embaixadas e Consulados dos Estados Unidos no exterior utilizam regularmente o sistema de mensagens STEP, incluindo alertas, para informar os cidadãos americanos sobre ameaças, eventos e mudanças relevantes no contexto local”, disse.

O STEP é o mecanismo oficial do Departamento de Estado para o envio de alertas a norte-americanos que estão no exterior. Entre as comunicações previstas estão avisos de segurança, manifestações, emergências, alterações nas recomendações de viagem e mudanças no funcionamento das representações diplomáticas.

O Batalhão Rio Branco, da Polícia Militar do Distrito Federal, deslocou equipes especializadas para proteger prédios diplomáticos. A decisão ocorre por conta da eleição polarizada, com atenção global para o Brasil neste momento e preocupações com eventuais atos de violência. O reforço no policiamento não tem prazo para terminar, mas deve ser encerrado quando ficar avaliado que terminou o cenário de insegurança em razão das eleições.

Buscas no Entorno

Em meio à interrupção dos serviços norte-americanos em território nacional, a Polícia Federal realizou, nessa sexta-feira, buscas no Entorno do DF e em São Paulo por supostos riscos de investidas contra instalações diplomáticas dos EUA. No entanto, a corporação afirmou que as diligências ocorreram apenas de maneira preventiva.

“Trata-se de ação preventiva adotada em investigação sigilosa conduzida pela Polícia Federal e fruto da cooperação permanente com agências de inteligência estrangeiras”, destacou a PF, em nota.

Conforme a corporação, nenhuma ameaça foi detectada. “As medidas pertinentes foram prontamente adotadas, não tendo sido verificados até o momento elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados, tampouco identificados quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas”, acrescentou. De acordo com a PF, “as investigações prosseguem com a análise dos equipamentos de comunicação e mídias apreendidos e eventuais outras providências necessárias”. A Embaixada da Austrália em Brasília limitou-se a dizer que a suspensão deve-se a “preocupações com a segurança”.

Reação

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, disse que levar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) as informações sobre a decisão dos Estados Unidos. O documento será protocolado em uma investigação que apura possível interferência externa no pleito brasileiro.

No Planalto, de acordo com diversas fontes consultadas pelo Correio, a avaliação é de que a situação não deve escalar. No entanto, o governo acompanha o panorama de perto e não descarta que o ato tenha ligação com uma tentativa de provocar instabilidade interna, ou demonstrar apoio, mesmo que comedido, ao senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL.

Uma preocupação é a formação do chamado Escudo das Américas, grupo criado supostamente para combater facções criminosas, mas que, para o governo brasileiro, é uma tentativa de elevar a pressão sobre o país e buscar interferir nos assuntos internos.