Economia
Cartórios fazem comunicado sobre herança: documento é essencial e muitos esquecem
Ausência de testamento público em 2026 costuma travar inventário e aumentar custo da herança
Perder um familiar já é doloroso por si só. Quando essa perda vem acompanhada de um patrimônio sem organização e uma família sem consenso, o luto divide espaço com brigas jurídicas que podem durar anos. É exatamente esse cenário que cartórios e advogados especializados em sucessão têm alertado em 2026: a ausência do testamento público é o detalhe que mais frequentemente transforma um inventário simples em um processo litigioso, caro e demorado. Os números confirmam o crescimento da consciência sobre o tema, mas ainda mostram que a grande maioria dos brasileiros chega ao fim da vida sem ter registrado formalmente sua vontade.
Por que os cartórios estão fazendo esse alerta agora?
O aviso tem contexto direto. Segundo comunicado da Associação dos Notários e Registradores, o ponto mais sensível no processo de herança em 2026 é a ausência de documento claro sobre a vontade de quem faleceu. Quando não existe testamento, a família passa a depender exclusivamente da sucessão legal e da interpretação dos próprios herdeiros, o que abre espaço para frustrações, divergências e impasses que travam o inventário por meses.
A Lei Complementar 227, publicada em janeiro de 2026, tornou o cenário ainda mais crítico ao exigir alíquotas progressivas do ITCMD em todos os estados e ampliar a tributação sobre bens no exterior. Com o custo do inventário mais alto, qualquer atraso provocado por conflito entre herdeiros passa a representar perda financeira real, além do desgaste emocional. O alerta dos cartórios não é novo, mas ganhou urgência com esse novo ambiente tributário.
Quantos brasileiros realmente fazem testamento?
Os dados revelam um paradoxo. De um lado, o interesse cresceu de forma consistente: segundo o Colégio Notarial do Brasil, os testamentos registrados em cartório cresceram 22% em 2024, reflexo de maior conscientização sobre o planejamento sucessório. Do outro, o número absoluto ainda é pequeno diante da população: o relatório Cartório em Números de 2024 registrou cerca de 30 mil testamentos lavrados nos primeiros nove meses do ano, em um país com mais de 1,3 milhão de óbitos anuais. A proporção evidencia que a maioria das famílias ainda enfrenta a partilha sem qualquer registro formal da vontade do falecido.
Esse contraste tem explicação cultural. Muitos brasileiros associam o testamento a grandes fortunas ou a situações de doença terminal, quando na prática qualquer pessoa com bens a partilhar, a partir dos 16 anos e com plena capacidade mental, pode e deve considerar o documento. Um imóvel, uma poupança, um veículo ou até mesmo a definição de quem deve ficar com um bem de valor afetivo já justificam a lavratura.

O que o testamento público garante que a lei sozinha não garante?
A sucessão legal prevista no Código Civil distribui automaticamente o patrimônio entre os herdeiros segundo uma ordem de parentesco, mas não contempla preferências pessoais, situações familiares complexas ou a proteção de pessoas próximas que não são herdeiros legais. O testamento preenche essas lacunas dentro dos limites legais. Os principais pontos que só o documento formaliza são:
- Destinação de até 50% do patrimônio para qualquer pessoa ou instituição, incluindo amigos, companheiros sem união estável registrada e entidades beneficentes, respeitada a parte legítima dos herdeiros necessários
- Inclusão de cláusulas restritivas como impenhorabilidade, inalienabilidade e incomunicabilidade, que protegem o bem herdado de dívidas ou de ser levado em caso de divórcio do herdeiro
- Nomeação de um testamenteiro, responsável por garantir que as disposições do documento sejam cumpridas após o falecimento
- Definição clara sobre bens específicos para herdeiros específicos, evitando a divisão proporcional automática que pode resultar em condomínio forçado em imóveis
- Reconhecimento de filhos não registrados ou disposições sobre dependentes que não têm grau de parentesco formal

Como funciona o testamento público na prática e quanto custa?
O processo é mais simples do que a maioria imagina. O interessado comparece a um Cartório de Notas, expressa sua vontade ao tabelião, que redige o documento e o lê em voz alta na presença de duas testemunhas maiores de 18 anos e sem grau de parentesco com o testador. Após a assinatura de todos, o instrumento é registrado no livro de notas e arquivado permanentemente. O conteúdo permanece sigiloso até o falecimento do testador. A tabela abaixo resume as principais diferenças entre as modalidades disponíveis:
| Modalidade | Onde é feito | Nível de segurança jurídica | Custo médio |
| Testamento público | Cartório de Notas | Alto — arquivado e registrado no RCTO | R$ 500 a R$ 1.000 (varia por estado) |
| Testamento particular | Escrito pelo testador | Médio — exige confirmação judicial posterior | Sem custo cartorial |
| Testamento cerrado | Cartório de Notas (lacrado) | Médio — tabelião não acessa o conteúdo | Similar ao público |
Quando a ausência de testamento complica mais o inventário?
Há situações em que a falta do documento deixa de ser apenas uma inconveniência e se torna um obstáculo real à conclusão da partilha. Especialistas apontam os cenários de maior risco que qualquer família deve conhecer antes de postergar a decisão:
- Famílias recompostas com filhos de relacionamentos anteriores, onde a divisão legal pode resultar em partilha diferente da combinada verbalmente em vida
- Companheiros em união estável sem escritura pública, que precisarão provar judicialmente o vínculo antes mesmo de participar do inventário, atrasando todo o processo
- Patrimônio com imóveis de difícil divisão entre múltiplos herdeiros, criando condomínio forçado que obriga decisões coletivas sobre venda, aluguel ou uso do bem
- Herdeiros com dívidas que podem contaminar o quinhão recebido, situação evitável com cláusulas específicas no testamento
Já passou da hora de parar de adiar esse documento?
O testamento público não é um ato de pessimismo, é um ato de organização. Custa em média o equivalente a um mês de conta de luz, leva menos de uma hora no cartório e pode poupar a família de anos de disputa judicial. Com o novo ambiente tributário de 2026 tornando o inventário mais caro e mais complexo, qualquer medida que reduza conflito entre herdeiros representa economia real. Procure um Cartório de Notas, informe-se sobre as regras do seu estado e considere incluir o documento no planejamento patrimonial da sua família enquanto há tempo para escolher com calma.