Economia
Herdeiros podem perder parte dos bens previstos em testamento por causa da regra que garante metade da herança aos herdeiros necessários
Herdeiros podem receber menos do que está no testamento quando a divisão invade a metade protegida da herança
O nome de uma pessoa pode aparecer no testamento ao lado de uma casa ou de uma quantia definida e, ainda assim, ela receber menos do que foi escrito. Isso acontece quando a distribuição ultrapassa a parte da herança que o falecido podia deixar livremente. No Brasil, a existência de herdeiros necessários protege metade dos bens, chamada de legítima, e pode exigir um ajuste durante o inventário.
Quem tem direito à metade protegida da herança?
O artigo 1.845 do Código Civil aponta como herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. Filhos e netos integram o primeiro grupo; pais e avós, o segundo. Quem terá direito na partilha depende de quais familiares sobreviveram ao falecido e das regras de sucessão aplicáveis àquela família.
A proteção não significa que cada pessoa receberá metade do patrimônio. O artigo 1.846 reserva metade da herança ao conjunto dos herdeiros necessários. A divisão dessa parcela entre eles exige observar o parentesco, a eventual participação do cônjuge e outras circunstâncias do inventário.
O que a pessoa pode decidir no testamento?
Quando há herdeiros necessários, a outra metade forma a parte disponível. Ela pode ser destinada a um amigo, a uma instituição, a um parente distante ou a um dos próprios herdeiros protegidos pela legítima. Para visualizar a regra, considere um exemplo simples, com patrimônio de R$ 1 milhão já apurado para a herança:
- R$ 500 mil compõem a legítima reservada aos herdeiros necessários;
- R$ 500 mil formam a parte disponível para as disposições do testamento;
- Um beneficiário pode receber bens da parte disponível, desde que a legítima permaneça preservada.

Quando o valor escrito precisa ser reduzido?
Imagine que a pessoa do exemplo deixou dois filhos e determinou que um amigo recebesse R$ 700 mil. Se os R$ 1 milhão representarem toda a herança considerada no cálculo e não houver outras circunstâncias que o alterem, a entrega integral ao amigo invadiria os R$ 500 mil reservados aos filhos. A disposição testamentária precisaria ser reduzida até o limite permitido.
O artigo 1.967 do Código Civil prevê a redução das disposições que excederem a parte disponível. Isso não torna automaticamente todo o testamento sem efeito. A correção busca preservar o que pode ser cumprido da vontade do falecido e recompor a parcela protegida por lei.
O que pode mudar esse cálculo no inventário?
Um testamento costuma ser feito anos antes da morte. Nesse intervalo, o patrimônio pode mudar: um imóvel pode ser vendido, dívidas podem surgir e novos bens podem ser adquiridos. Por isso, o valor estimado quando o documento foi assinado nem sempre será o mesmo usado para organizar a sucessão. Entre os pontos que precisam ser conferidos estão:
Informações que precisam ser verificadas na partilha
- 1Quais bens e dívidas fazem parte da herança;
- 2Se há cônjuge sobrevivente e qual era o regime de bens;
- 3Quem são os herdeiros com direito à sucessão;
- 4Se doações anteriores precisam ser consideradas na partilha.
Um filho citado no testamento também pode receber menos?
Pode, caso o documento lhe atribua uma parcela que prejudique a legítima dos demais herdeiros necessários. Um filho pode ser favorecido com parte ou até com toda a metade disponível, além da participação que lhe couber na legítima. O limite está em não retirar dos outros sucessores protegidos a parcela que a lei lhes assegura.
O testamento continua valendo após o ajuste
O testamento pode organizar a distribuição dos bens e indicar quem receberá determinados itens. O Superior Tribunal de Justiça já reconheceu que o documento pode até tratar da totalidade do patrimônio, desde que o resultado respeite a legítima. Mencionar todos os bens, portanto, não dá liberdade para afastar a metade protegida quando existem herdeiros necessários.
Na partilha, o documento precisa ser lido junto com a composição real da herança e da família. Se a disposição exceder a parte disponível, o beneficiário poderá receber menos do que imaginava, enquanto o restante do testamento poderá ser cumprido dentro dos limites legais. É esse confronto entre os bens existentes, os direitos dos sucessores e a vontade escrita que define o quinhão de cada pessoa.