Eleições
Democratas pressionam Rubio por suspeita de ajuda dos EUA a Flávio
Deputados pedem que Marco Rubio esclareça o uso de recursos dos EUA no voo que levou o senador a Miami após ordem do STF
A suposta participação do governo de Donald Trump na saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil provocou uma reação de parlamentares democratas nos Estados Unidos. Um grupo de 25 deputados enviou, na noite desta quinta-feira (29/10), uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, cobrando esclarecimentos sobre a assistência prestada ao senador brasileiro, que chegou a Miami com a mulher e as filhas após descumprir uma determinação judicial de entrega de seus passaportes.
A iniciativa ocorre depois de o jornal The New York Times revelar que a viagem do candidato derrotado à Presidência teria sido organizada com a ajuda de Jason Miller, funcionário da área de comunicação da Casa Branca. Segundo a publicação, o integrante da administração Trump providenciou o jato particular utilizado por Flávio para deixar a Argentina, fazer uma escala no Equador e seguir aos Estados Unidos.
Obtido pelo site Politico, o documento encaminhado a Rubio reúne questionamentos sobre o envolvimento de órgãos norte-americanos na viagem. Os congressistas querem saber se o Departamento de Estado participou da autorização de entrada do senador, quais agências foram consultadas durante o procedimento e se os funcionários responsáveis tinham conhecimento das investigações judiciais em andamento no Brasil.
Os democratas também pedem informações sobre a extensão do auxílio oferecido pelas autoridades norte-americanas para que Flávio conseguisse deixar o território brasileiro. Na avaliação dos parlamentares, a possível utilização de recursos governamentais para beneficiar um político estrangeiro submetido a medidas judiciais exige esclarecimentos públicos.
Na carta, os deputados defenderam a necessidade de transparência sobre a atuação da administração Trump.
“O povo americano e o Congresso têm um legítimo interesse em compreender se os recursos diplomáticos e de imigração dos EUA foram usados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias”, escreveram.
Os congressistas também destacaram que o episódio envolve questões diplomáticas e judiciais que ultrapassam a situação individual do senador. Por isso, cobram explicações sobre a aplicação das regras migratórias norte-americanas e os possíveis efeitos do caso sobre as relações entre Washington e Brasília.
A articulação foi liderada pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada, com a participação de integrantes da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes. Procurado pela imprensa norte-americana, o Departamento de Estado não havia respondido aos questionamentos sobre a carta.
Kamlager-Dove também criticou publicamente o tratamento dado ao brasileiro, contrastando a assistência relatada ao senador com a política migratória adotada pelo governo republicano. Em uma publicação no X, a parlamentar acusou Trump de favorecer aliados políticos enquanto endurece a atuação contra outros estrangeiros.
“Na América de Trump, existem dois sistemas de imigração: um em que seus aliados ricos e bem relacionados são bem-vindos, enquanto imigrantes trabalhadores com antecedentes limpos são aterrorizados nas ruas.”
Na mesma manifestação, a deputada classificou a acolhida oferecida a Flávio como um exemplo de tratamento desigual, acusando o presidente de proteger um aliado da família Bolsonaro enquanto restringe a entrada de pessoas em situações de vulnerabilidade.
“Trump está abrigando o filho de um aspirante a ditador, que nega o resultado das eleições e foge de um processo judicial, enquanto dá as costas a pessoas que fogem da guerra e da fome. Vergonhoso.”
Viagem começou após determinação do STF
A movimentação para retirar Flávio do Brasil teria começado na segunda-feira (26/10), um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotar o senador no segundo turno das eleições presidenciais. Na ocasião, o candidato do PL foi informado de que deveria entregar seus passaportes, conforme medida cautelar determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no domingo (25/10).
Segundo o New York Times, Eduardo Bolsonaro entrou em contato com Jason Miller assim que o irmão recebeu a intimação judicial. A partir dessa conversa, teria sido organizada a aeronave particular que transportou Flávio e seus familiares para os Estados Unidos.
O senador chegou a Miami na quarta-feira (28/10), após embarcar na Argentina na noite anterior e realizar uma parada para reabastecimento no Equador. A passagem pelo território argentino passou a ser investigada pelas autoridades brasileiras, que tentam esclarecer como o parlamentar conseguiu deixar o país apesar das restrições judiciais.
A permanência de Flávio nos Estados Unidos também poderá ser facilitada pelo governo Trump. Uma fonte da administração norte-americana informou ao jornal que o brasileiro deve solicitar residência permanente, por meio do documento conhecido como green card.
De acordo com o funcionário, o pedido deverá receber tratamento acelerado, semelhante ao concedido a Eduardo Bolsonaro. Em condições habituais, esse tipo de autorização é obtido após a concessão de um visto de imigrante.
PF investiga participação de empresários e aliados
Enquanto os democratas cobram explicações da Casa Branca, a Polícia Federal (PF) tenta reconstruir os deslocamentos de Flávio Bolsonaro dentro do Brasil. Os investigadores já identificaram o trajeto realizado pelo senador a partir da Argentina, mas ainda não esclareceram como ele saiu de Brasília e alcançou a região de Foz do Iguaçu, no Paraná, próxima à fronteira.
Uma das hipóteses examinadas é a de que o percurso tenha sido feito por via terrestre, em uma viagem de aproximadamente 20 horas. As apurações consideram informações sobre a movimentação do comboio utilizado pelo parlamentar em Brasília, que deixou o condomínio onde ele mora por volta das 19h50 de segunda-feira. Ainda não se sabe quem estava nos veículos naquele momento.
A Polícia Federal procura identificar eventuais responsáveis pelo apoio logístico e financeiro à viagem. Entre as possibilidades investigadas está a participação de empresários e aliados políticos da família Bolsonaro, além de uma eventual colaboração do governo argentino, presidido por Javier Milei. Essas suspeitas, entretanto, ainda dependem de comprovação.
O senador é investigado em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e envolve também o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio que está nos Estados Unidos desde agosto. As autoridades brasileiras também examinam os desdobramentos do descumprimento da ordem de entrega dos passaportes e da saída do país.
Apesar das diligências sobre a viagem, a PF não classifica formalmente Flávio como foragido, uma vez que ele figura como investigado no procedimento. A apuração relacionada à sua saída do Brasil busca esclarecer o descumprimento das restrições impostas pelo STF e a possível participação de terceiros.
Trump critica eleição brasileira
Em meio às informações sobre a assistência prestada ao senador, Donald Trump voltou a questionar o resultado das eleições brasileiras. Nesta quinta-feira, antes de seguir para um comício eleitoral, o presidente norte-americano criticou a votação que garantiu a reeleição de Lula, embora tenha afirmado que não apoiou oficialmente nenhum dos candidatos.
O republicano também mencionou a reação negativa do mercado financeiro após a vitória do petista, utilizando o desempenho dos ativos brasileiros para sustentar suas críticas à disputa presidencial.
“Acompanhei as eleições. Não tomei partido, mas vi o que estava acontecendo no Brasil, foi uma vergonha. O mercado falou isso. Olha como o mercado reagiu”, declarou a jornalistas.
Apesar das declarações, Trump afirmou que pretende procurar Lula para parabenizá-lo pelo resultado. O presidente norte-americano também alegou que sua decisão de não tomar partido na disputa havia ocorrido “a pedido de Lula”.