Entretenimento
A areia que não queima e o mar a 16°C no verão: a 7ª cidade mais antiga do Brasil tem praias de Caribe a 155 km do Rio
Em 1503, o navegador Américo Vespúcio avistou um Caribe e ancorou naquele trecho do litoral fluminense e estranhou uma coisa: a água era fria demais para o trópico. Batizou o lugar de Cabo Frio sem imaginar que, mais de cinco séculos depois, esse mesmo mar gelado viraria o maior chamariz da Região dos Lagos.
Por que o mar de Cabo Frio é frio mesmo no verão?
A resposta tem nome científico: ressurgência. Ventos constantes de nordeste empurram a camada de água quente da superfície para o oceano aberto e, no vazio, correntes geladas sobem de grandes profundidades carregadas de nutrientes. O ciclo reduz os sedimentos em suspensão e deixa o litoral com uma transparência comparável à do Caribe, com temperatura que pode baixar a 16°C mesmo em janeiro.
A areia completa o cenário. Os grãos da orla cabo-friense são quase inteiramente de quartzo, mineral que reflete a luz em vez de absorvê-la. O resultado é uma faixa branca que permanece fresca mesmo ao meio-dia de dezembro. O mesmo quartzo fino dá ao mar o tom que varia do azul-turquesa ao verde-esmeralda conforme a maré.

Quatro séculos de história à beira do mesmo mar
Fundada em 13 de novembro de 1615 por Constantino Menelau, a cidade é a sétima mais antiga do Brasil, conforme a Prefeitura de Cabo Frio. O território foi disputado por portugueses, franceses e holandeses atraídos pelo pau-brasil. Para defender a costa, os portugueses ergueram o Forte São Mateus entre 1616 e 1620, com pedra unida por argamassa de óleo de baleia e cal. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1956, o forte ainda vigia a entrada do Canal do Itajuru e é um dos cartões-postais mais fotografados da região.
No Bairro da Passagem, primeiro núcleo urbano da cidade, ruas de paralelepípedo e casarões coloniais contam essa história em pedra. Em 1953, foi ali também que a costureira Nilza Rodrigues Lisboa copiou moldes da atriz Tônia Carrero e, com uma máquina de manivela sob a luz do lampião, deu início àquilo que se tornaria a Rua dos Biquínis.
O que visitar além da Praia do Forte?
O Portal de Turismo de Cabo Frio lista atrações que vão muito além da faixa de areia. A cidade tem praias para cada perfil, patrimônio histórico e passeios náuticos a poucos minutos do centro.
- Praia do Forte: 7,5 km de areia branca e mar esverdeado no coração da cidade, com quiosques, surfe e o Forte São Mateus na extremidade. O trecho do Lido tem ondas mansas, bom para crianças.
- Praia do Peró: certificada com o selo internacional Bandeira Azul, com dunas e ondas disputadas por surfistas e kitesurfistas. Uma das poucas praias do estado do Rio a ter essa distinção.
- Ilha do Japonês: no Canal do Itajuru, acessível por barco, tem águas calmas e cristalinas ideais para snorkeling e fotos. Há quiosques simples no local.
- Rua dos Biquínis: no bairro Gamboa, mais de 100 lojas de moda praia formam o maior shopping a céu aberto do mundo nessa categoria, segundo o Guinness Book. Funciona de 9h às 21h na baixa temporada.
- Convento Nossa Senhora dos Anjos: construção franciscana do século XVII que abriga o Museu de Arte Religiosa e Tradicional, com pinturas originais na capela-mor, tombada pelo patrimônio histórico.
- Morro da Guia: ponto mais alto da cidade, com vista em 360° do centro e da costa, ideal para o pôr do sol. A Capela de Nossa Senhora da Guia, do século XVIII, fica no topo.

O que comer no Caribe Brasileiro?
A gastronomia de Cabo Frio nasce do mar. A pesca artesanal abastece restaurantes do Boulevard Canal, do Bairro da Passagem e da Rua Porto Alegre, onde mesas na calçada e brisa da lagoa definem o ritmo da refeição.
- Camarão da Praia do Siqueira: o bairro tem tradição pesqueira e realiza o Festival do Camarão de Cabo Frio, com dezenas de pratos a preço fixo.
- Moqueca de cavaquinha: prato caiçara servido nos restaurantes do Boulevard Canal, com frutos do mar locais e coentro.
- Pargo assado na brasa: peixe local, crocante por fora e suculento por dentro, acompanhado de farofa e salada. Encontrado nas churrascarias de orla.
- Casquinha de siri: aperitivo tradicional nos quiosques da Praia do Forte e da Praia do Peró, servido gratinado.
- Caldeirada: caldo aromático que reúne diferentes frutos do mar em uma panela, servido fumegante, típico das noites mais frescas do inverno.
Quando ir e o que esperar do clima?
O microclima de Cabo Frio é um dos mais secos do litoral fluminense, com sol o ano inteiro e chuvas menos intensas que nas cidades vizinhas. Cada estação muda o ritmo da cidade.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme frentes frias e intensidade da ressurgência.
Como chegar à capital da Costa do Sol?
Cabo Frio fica a 155 km do Rio de Janeiro pela Ponte Rio-Niterói, BR-101 e Via Lagos (RJ-124), em cerca de 2 horas de carro. Ônibus partem da Rodoviária Novo Rio com regularidade. A cidade também tem o Aeroporto Internacional de Cabo Frio (CFB), com voos sazonais, e fica a 13 km de Arraial do Cabo e 25 km de Búzios, o que facilita roteiros combinados pela costa fluminense.
Uma cidade que impressiona antes mesmo de chegar à areia
Cabo Frio é daquelas cidades que acumulam curiosidades sem precisar inventar: a areia que não queima, o mar gelado em pleno trópico, um forte colonial do século XVII na beira da praia e a rua que entrou para o Guinness vendendo biquínis. Quatro séculos de história convivem com o turismo mais agitado do litoral fluminense sem que um apague o outro.
Você precisa conhecer Cabo Frio e entender por que Américo Vespúcio parou o barco aqui há mais de 500 anos, e por que tanta gente faz o mesmo até hoje.