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A capital brasileira que inventou o pão de queijo e o colocou entre os 4 melhores tipos de pães do mundo
A cidade onde nasceu um dos sabores mais famosos do Brasil.
O cheiro que sai de qualquer padaria, bar ou mercado de Belo Horizonte é o mesmo desde o século XVIII: polvilho quente e queijo derretido, a combinação que transformou a escassez colonial em um dos quatro melhores pães do mundo, o pão de queijo, segundo o guia gastronômico TasteAtlas. A capital mineira não só guarda essa origem: ela a vive todos os dias.
Como a falta de farinha criou o símbolo de Minas Gerais?
Por volta de 1750, nas fazendas do interior de Minas Gerais, a farinha de trigo era rara e cara, importada de Portugal e quase impossível de chegar com qualidade ao interior. A solução vieram das cozinheiras das fazendas: polvilho, derivado da mandioca cultivada pelos povos indígenas, misturado às aparas endurecidas dos queijos que sobravam da produção semanal. A mistura foi para o forno e nasceu o pão de queijo.
Segundo a professora e pesquisadora gastronômica Vani Fonseca, do Senac MG, o processo era simples: ao limpar as rodelas de queijo curado, as cozinheiras guardavam as lascas diariamente e, no fim de semana, incorporavam ao biscoito de polvilho. Cada fazenda tinha sua versão, passada de geração em geração, sem receita escrita. Por séculos, o quitute permaneceu segredo das cozinhas rurais de Minas.

De fazenda ao mundo: quando o pãozinho cruzou fronteiras
A popularização do pão de queijo nos centros urbanos começou na década de 1950, quando padarias e lanchonetes de Belo Horizonte passaram a vender a iguaria. O grande salto nacional veio nos anos 1960 com a industrialização da massa congelada. A partir daí, o pãozinho mineiro cruzou as fronteiras do estado e conquistou o Brasil inteiro.
O reconhecimento internacional chegou em etapas. Em 2023, o TasteAtlas elegeu o pão de queijo o 3º melhor café da manhã do mundo. Em 2024, o guia o classificou como o 4º melhor pão do planeta. No mesmo ano, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal, matéria-prima essencial da receita original, foram reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, numa tradição de três séculos que abrange 106 municípios mineiros. O Dia do Pão de Queijo, celebrado em 17 de agosto, foi instituído pelo próprio Senac MG.

Onde comer pão de queijo e gastronomia mineira em BH?
Belo Horizonte é reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia, título que reflete a densidade e a qualidade da cena alimentar da capital. O pão de queijo aparece em versões tradicionais e reinventadas por toda a cidade, do Mercado Central às casas especializadas da Savassi.
- Mercado Central: inaugurado em 7 de setembro de 1929 no terreno onde ficava o campo do América Futebol Clube, o mercado tem mais de 400 lojas e recebe cerca de 30 mil visitantes por dia. É o lugar mais completo para provar pão de queijo, queijo minas artesanal, torresmo, feijão tropeiro e cachaça em sequência.
- A Pão de Queijaria: pioneira em elevar o pãozinho a prato principal, inaugurada em 2014 com receita de cinco gerações e queijo Canastra puro. O Chovinista, com costelinha de porco desfiada, queijo minas derretido, couve e bacon, é o clássico da casa.
- Soul Queijo: na Savassi, mistura tradição e inovação com versões recheadas de brie com pera caramelizada e carne-seca com Catupiry. Funciona de segunda a sábado das 8h às 20h30.
- Provence Bistrô: menu degustação de seis etapas com ingredientes exclusivos da Serra da Mantiqueira, comandado pelo chef Ari Kespers. Apenas 24 lugares por noite, reserva obrigatória.
- Bares da Savassi e Lourdes: o pão de queijo acompanha o boteco mineiro com a mesma naturalidade de uma taça de chopp. Nas mesas de calçada do bairro, ele chega quente em cestinhas de palha, ao lado de torresmo e linguiça.
Belo Horizonte é o paraíso para os amantes de pão de queijo, oferecendo desde versões tradicionais até recheios gourmet inovadores. O vídeo é do canal Viaje Leve, que conta com mais de 20 mil inscritos, e apresenta uma jornada gastronômica por seis tipos diferentes desta iguaria mineira:
O que visitar além da gastronomia na capital mineira?
BH guarda dois patrimônios reconhecidos mundialmente e um circuito cultural que ocupa dias inteiros de visita. A cidade foi fundada em 1897, projetada pelo engenheiro Aarão Reis para substituir Ouro Preto como capital do estado, e carrega essa dupla identidade: cidade planejada com vocação moderna e guardiã da tradição mineira mais profunda.
- Conjunto Moderno da Pampulha: projetado por Oscar Niemeyer entre 1942 e 1943 a pedido do então prefeito Juscelino Kubitschek, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 2016. É o primeiro bem cultural a receber o título de Paisagem Cultural do Patrimônio Moderno no mundo. O conjunto reúne a Igreja São Francisco de Assis, o Museu de Arte da Pampulha, a Casa do Baile e o Iate Tênis Clube, com painéis de azulejo de Cândido Portinari e jardins de Roberto Burle Marx.
- Mercado Central: tombado pelo IPHAN, o mercado ocupa um quarteirão inteiro no centro da cidade e é considerado o terceiro maior mercado do Brasil. Uma visita que mistura religiosidade, cultura popular e gastronomia em 14 mil m².
- Circuito Liberdade: a Praça da Liberdade, no ponto mais alto da área central, abriga museus em palácios do século XIX, incluindo o Memorial Minas Gerais Vale e o Museu Mineiro, com acervo de arte sacra colonial e artefatos da família imperial.
- Inhotim: a 60 km de BH, em Brumadinho, o instituto reúne um dos maiores acervos de arte contemporânea ao ar livre do mundo, em 140 hectares de jardins tropicais. Programar meio dia só para o deslocamento.
- Bairro Santa Tereza: reduto boêmio com feiras de artesanato, grafites, bares e restaurantes que misturam comida mineira com influências contemporâneas.

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Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Belo Horizonte tem verões quentes e chuvosos e invernos secos e amenos. O frio genuíno da capital mineira, diferente do que muitos imaginam, é discreto: noites frescas de junho e julho com máximas ainda confortáveis. O melhor período para visitar depende do que se busca.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à capital mineira?
Belo Horizonte tem dois aeroportos: o Aeroporto Internacional de Confins (BHZ), a 38 km do centro, e o Aeroporto da Pampulha (PLU), a 9 km, com voos regionais. De São Paulo, a distância é de cerca de 590 km pela BR-381 (Fernão Dias), aproximadamente 7h de carro. De Rio de Janeiro, são cerca de 440 km pela BR-040, em torno de 5h30. Há ônibus executivos frequentes das duas capitais com embarque nos terminais rodoviários.
Venha provar BH de verdade
Belo Horizonte é uma cidade que se entende pela boca. A mesma Minas que criou o pão de queijo por necessidade no século XVIII é a que hoje abriga um Patrimônio da Humanidade modernista à beira de uma lagoa e um mercado centenário onde o queijo canastra divide bancada com cachaça artesanal e flores de Natal.
Você precisa conhecer BH, sentar num boteco da Savassi com pão de queijo quentinho e entender por que essa cidade transforma tudo em aconchego.