Entretenimento
A cidade goiana onde ruas de pedra, 80 cachoeiras e uma festa de quase 200 anos dividem espaço
Cavaleiros, máscaras, igrejas e cachoeiras.
Algumas cidades concentram história, fé e natureza num raio de poucos quilômetros. No coração de Goiás, a cerca de 120 km de Goiânia, Pirenópolis guarda ruas de pedra do século XVIII, uma das festas mais antigas do país e dezenas de cachoeiras escondidas na Serra dos Pireneus. A cidade colonial virou um dos destinos preferidos de quem vive em Brasília e no Centro-Oeste.
Como o primeiro jornal do Centro-Oeste chegou a Pirenópolis?
A história é digna de aventura. Em 5 de março de 1830, o comendador Joaquim Alves de Oliveira comprou uma tipografia no Rio de Janeiro, transportou o pesado equipamento por centenas de quilômetros em lombo de mula até o interior de Goiás e lançou o Matutina Meyapontense. Foi o primeiro jornal do Centro-Oeste e o primeiro editado fora de uma capital em todo o Brasil, numa época em que a cidade ainda se chamava Meia Ponte.
O feito revela a importância da cidade nos tempos do ouro. Fundada em 1727 às margens do Rio das Almas, a então Meia Ponte prosperou com a mineração e competiu com Vila Boa, hoje a Cidade de Goiás, pelo título de mais rica da província. O jornal circulou até 1834, somando mais de 500 edições, e a cidade só passou a se chamar Pirenópolis em 1890, em referência à Serra dos Pireneus, que lembrava aos moradores a cordilheira europeia entre a França e a Espanha.

O que faz o centro histórico ser tão preservado?
O centro histórico de Pirenópolis é um dos conjuntos coloniais mais bem preservados do Centro-Oeste, com cerca de 17 hectares de casarões, igrejas e ruas de quartzito que atravessaram quase três séculos. O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico foi tombado como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no fim da década de 1980, com a inscrição definitiva em 1990.
A joia desse acervo é a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, construída a partir de 1728 e considerada um dos maiores templos coloniais da região. Ironia da história, foi a estagnação econômica após o fim do ouro que ajudou a preservar a cidade: sem dinheiro para reformas e novas construções, Pirenópolis manteve intactos seus casarões e seu traçado original. Caminhar por suas ladeiras é percorrer uma cidade do século XVIII quase congelada no tempo.
Quais cachoeiras e atrações visitar em Pirenópolis?
A região reúne mais de 80 cachoeiras catalogadas na Serra dos Pireneus, a maioria em propriedades e reservas particulares com estrutura para o visitante. Os principais pontos ficam a no máximo 40 km do centro. A seleção abaixo mistura natureza, cultura e aventura.
Por que as Cavalhadas são a festa mais famosa da cidade?
As Cavalhadas são a tradição que torna Pirenópolis conhecida no Brasil inteiro. Incorporadas à Festa do Divino Espírito Santo em 1826, elas encenam a batalha medieval entre cristãos e mouros, com cavaleiros fantasiados que representam as duas tropas em combates coreografados a cavalo. A festa acontece no período de Pentecostes, cerca de 50 dias após a Páscoa, e atrai milhares de visitantes.
O espetáculo vai além dos cavaleiros. Durante os três dias de Cavalhadas, personagens mascarados chamados mascarados ou cavaleiros percorrem as ruas com fantasias coloridas e máscaras de boi, provocando o público numa mistura de teatro e folia. A manifestação é tão significativa que foi reconhecida pelo IPHAN como patrimônio cultural imaterial do país em 2010, consolidando quase dois séculos de tradição ininterrupta.

O que comer em Pirenópolis?
A gastronomia goiana é farta e tem raiz no Cerrado, com ingredientes típicos da região e doces de tacho. Os restaurantes se concentram na Rua do Lazer e no entorno do centro histórico.
- Empadão goiano: torta recheada com frango, queijo, linguiça, ovos e guariroba, o palmito amargo típico de Goiás.
- Pamonha e pastel de pamonha: feitos da massa de milho verde, doces ou salgados, tradição das cidades goianas.
- Peixe na telha: pescado assado servido sobre telha de barro, prato comum nas casas à beira dos rios.
- Doces de frutas do Cerrado: compotas e cristalizados de caju, figo e outras frutas, vendidos no centro histórico.
Qual a melhor época para visitar Pirenópolis?
O clima é típico do Cerrado, com uma estação seca bem definida e outra chuvosa. A escolha da época depende do que você procura: cachoeiras cheias na chuva ou trilhas firmes na seca.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Pirenópolis?
Pirenópolis fica a cerca de 120 km de Goiânia e a 150 km de Brasília, as duas principais portas de entrada, ambas com aeroporto. De carro, o acesso é feito por rodovias estaduais em bom estado, com viagem de aproximadamente duas horas a partir de qualquer uma das duas capitais. A proximidade faz da cidade um destino clássico de bate e volta ou de fim de semana para moradores do Centro-Oeste.
O museu a céu aberto que o fim do ouro preservou
Pirenópolis reúne num só lugar quase três séculos de história, uma festa medieval que atravessou duas centenas de anos e mais de 80 cachoeiras escondidas na Serra dos Pireneus. Entre casarões coloniais, igrejas de ouro e o som da água correndo pelo Cerrado, a cidade mostra por que é considerada o berço da cultura goiana.
Você precisa caminhar pelas ruas de pedra de Pirenópolis, mergulhar numa cachoeira cristalina e ver os cavaleiros das Cavalhadas para entender por que uma cidade que fez jornal antes de ter asfalto continua encantando o Brasil.