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A cidade onde edifícios de até 17 andares parecem desafiar a gravidade e uma obra de engenharia conseguiu corrigir a inclinação de um deles
3. Uma camada de argila mole sob Santos fez edifícios saírem do prumo.
Na maioria das cidades, um prédio inclinado é sinal de alerta imediato. Em Santos, no litoral paulista, dezenas de edifícios da orla pendem há décadas sobre uma camada de argila marinha, a ponto de transformar a paisagem em curiosidade para turistas e em laboratório de engenharia para a Universidade de São Paulo (USP).
Por que os prédios da orla de Santos são tortos?
Porque foram construídos com fundações rasas sobre um solo que cede aos poucos. Segundo artigo de professores da Escola Politécnica da USP publicado na revista Geotecnia, da Universidade de Coimbra, a maioria dos prédios altos da orla foi erguida entre 1960 e 1975, sobre camadas intercaladas de areia e argila orgânica mole, de origem sedimentar.
O fenômeno tem nome técnico: recalque, o afundamento lento do terreno sob o peso da construção. Como a argila não cede por igual, um lado do edifício desce mais que o outro, e o prédio inclina. Os engenheiros calculam em cerca de 100 os prédios tortos da orla, e estudo do Mackenzie registra que os problemas aparecem na cidade desde o início dos anos 1950.

Como um prédio inclinado foi colocado de volta no prumo?
Com macacos hidráulicos e estacas muito profundas. O Edifício Núncio Malzoni, de 17 andares e construído em 1967, chegou a ter inclinação de 4%, metade da registrada na Torre de Pisa, na Itália. Segundo a Revista Pesquisa FAPESP, foi a primeira vez no Brasil que um prédio passou por esse tipo de reaprumo.
Os engenheiros cravaram estacas de concreto a 56 metros de profundidade, mais fundo do que estações do metrô paulistano como São Bento e República, que não passam de 34 metros. O peso dos pilares foi transferido para as novas estacas por vigas instaladas no térreo, e os macacos endireitaram o edifício a cerca de 1 centímetro por dia. Os dois blocos do condomínio acabaram reaprumados, mas muitos prédios da orla seguem inclinados por causa do alto custo da obra.
Como é a qualidade de vida em Santos?
A cidade aparece entre as primeiras do país em desenvolvimento humano. Segundo a Prefeitura de Santos, o município tem o terceiro maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de São Paulo e o sexto do Brasil, resultado medido com dados do Censo de 2010.
A mesma publicação apresenta Santos como “a cidade mais verticalizada do Brasil”, com cerca de 60% de verticalização, o que ajuda a explicar a concentração de prédios na orla. A cidade também tem 48 km de ciclovias e um sistema de bicicletas compartilhadas, e o relevo plano da ilha favorece quem prefere se deslocar pedalando.
O que fazer em Santos?
O roteiro combina orla, história e mirantes. Estes pontos resumem a visita.
Qual a melhor época para visitar Santos?
A chuva cai o ano inteiro, com pico em janeiro, que soma cerca de 233 mm. Junho e agosto são os meses menos chuvosos, com 97 mm cada, e o inverno costuma ser a época mais confortável para caminhar pela orla e subir o Monte Serrat.
Chuva média mensal com base no Climatempo. As temperaturas foram omitidas porque a série disponível não representa bem as variações da área urbana. Condições podem variar.
Como chegar a Santos?
A cidade fica a cerca de 72 km de São Paulo, e o acesso principal é feito pelas rodovias Anchieta e Imigrantes, que descem a Serra do Mar até a Baixada Santista. A proximidade com a capital faz de Santos um destino possível até para um bate e volta.
Para conhecer a orla e os prédios inclinados, o ideal é circular a pé ou de bicicleta, aproveitando a ciclovia que acompanha a praia.
A cidade que aprendeu a conviver com o próprio chão
Santos mostra como a natureza do solo pode marcar a paisagem de uma cidade inteira. A argila que entortou os prédios também levou engenheiros a desenvolver soluções inéditas no país, e os edifícios fora do prumo viraram parte da identidade da orla.
Você precisa conhecer Santos e caminhar pelo calçadão para ver de perto os prédios que desafiam o prumo à beira-mar.