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A cidade projetada para o mar invadir as ruas todo ano e limpá-las naturalmente que está chamando atenção
Uma cidade planejada para deixar o mar limpar as ruas sozinho
Quando a maré sobe em noites de lua cheia, a água do oceano invade as ruas de pedra do centro histórico e cobre o calçamento colonial. Paraty é uma cidade projetada assim no século XVIII, para que o mar lavasse suas vielas. Três séculos depois, a cena continua se repetindo entre casarões caiados, igrejas barrocas e 65 ilhas espalhadas por uma baía cercada de Mata Atlântica.
A cidade que o abandono preservou
Fundada em 1667 como Vila de Nossa Senhora dos Remédios, Paraty nasceu no ponto final do Caminho do Ouro. Pelo seu porto saíam as riquezas de Minas Gerais rumo a Portugal. No auge, a cidade chegou a ter mais de 250 engenhos de cana e era sinônimo de boa aguardente. A abertura de rotas alternativas e a construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, em 1864, desviaram o fluxo e isolaram Paraty por quase um século.
Esse esquecimento, porém, salvou o patrimônio. Quando a rodovia Rio-Santos chegou nos anos 1970, o mundo redescobriu ruas, igrejas e casarões praticamente intactos desde o século XVIII. O IPHAN tombou o conjunto em 1958. Em 2019, a UNESCO reconheceu Paraty e Ilha Grande como Patrimônio Mundial na categoria de sítio misto, o primeiro do Brasil e da América Latina a unir patrimônio cultural e natural em uma mesma chancela. Em 2025, a Forbes incluiu a cidade entre as 50 vilas mais bonitas do mundo.

O que visitar entre o mar e a serra?
Paraty concentra mais de 65 ilhas, cerca de 90 praias catalogadas e um centro histórico onde carros não entram. A variedade de atrações permite montar roteiros de dois dias ou duas semanas.
- Centro Histórico: ruas de pedra “pé-de-moleque” sem carros, casarões com símbolos maçônicos, igrejas como a de Santa Rita (1722) e a Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios. À noite, os becos ganham iluminação amarelada e mesas de restaurantes à luz de velas.
- Passeio de escuna pela baía: roteiros de 5 horas com paradas em ilhas e praias acessíveis apenas por barco. Saída do Cais de Turismo, com opções de escuna coletiva, traineira de madeira ou lancha privada.
- Vila de Trindade: a 30 km do centro, com quatro praias e a Piscina Natural do Cachadaço, formada por rochas no meio do mar. Acesso por estrada pavimentada.
- Saco do Mamanguá: considerado o único fiorde tropical do Brasil, um braço de mar cercado por montanhas e comunidades caiçaras. Acessível por barco ou trilha.
- Caminho do Ouro: trecho preservado da estrada construída por escravizados entre os séculos XVII e XIX para escoar a produção aurífera. Trilha guiada com pedras originais em meio à mata.
- Alambiques de cachaça: Paraty foi a primeira cidade do Brasil a receber o selo de Indicação Geográfica de Procedência para cachaça (2007). Alambiques como Coqueiro e Engenho D’Ouro abrem para visitação e degustação.
Paraty, no Rio de Janeiro, é um Património Mundial da UNESCO que combina preservação histórica com belezas naturais exuberantes. O vídeo do canal Rolê Família, que conta com mais de 50 mil inscritos, apresenta um roteiro completo de 4 dias com dicas de passeios, gastronomia e curiosidades:
FLIP, cachaça e jazz: a agenda que não para
Paraty é também Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO desde 2017. A agenda cultural justifica viagens em qualquer mês do ano.
A FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), realizada todo mês de julho desde 2003, é um dos maiores eventos literários da América do Sul e atrai escritores de renome mundial. Em agosto, o Festival da Cachaça, Cultura e Sabores celebra a tradição dos alambiques com degustações, música e danças folclóricas. O Bourbon Festival traz jazz e blues às praças. O Paraty em Foco, em setembro, reúne fotógrafos e artistas visuais. E a Festa do Divino, patrimônio cultural do Brasil, mantém celebrações centenárias que misturam liturgia católica com tradições populares.

O que comer na primeira Cidade Criativa da Gastronomia do Brasil?
A culinária de Paraty mistura influências caiçaras, indígenas e portuguesas. O peixe azul-marinho, cozido com folha de banana até ganhar coloração escura, é o prato símbolo. O camarão com banana verde aparece na maioria dos restaurantes do centro. Nos carrinhos de madeira que circulam pelas ruas, doces tradicionais como pé-de-moleque, manuê-de-bacia e maçapão completam a experiência. E a cachaça artesanal, com rótulos premiados internacionalmente, acompanha tudo.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Paraty tem clima tropical úmido, com chuvas concentradas no verão. O inverno seco é a melhor época para o centro histórico e trilhas. O verão favorece escunas e mergulho, mas exige tolerância às pancadas de chuva no fim da tarde.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à joia da Costa Verde?
Paraty fica a 250 km do Rio de Janeiro e a 280 km de São Paulo, ambos pela BR-101 (Rio-Santos). De carro, o trajeto leva cerca de 4 horas a partir das duas capitais. Ônibus regulares partem das rodoviárias do Rio e de São Paulo. A cidade não tem aeroporto comercial, mas o de Angra dos Reis fica a 100 km.
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Caminhe descalço pelas pedras que o mar lava
Paraty é o raro destino onde o abandono virou proteção. As mesmas ruas que perderam o ouro colonial guardaram um patrimônio inteiro para as gerações seguintes, cercado por mata preservada e um mar pontilhado de ilhas. Da FLIP à cachaça, do Mamanguá ao Caminho do Ouro, tudo cabe em uma cidade que não precisa de asfalto para ser completa.
Você precisa tirar os sapatos no centro histórico, subir numa escuna e provar a cachaça direto do alambique para entender por que a UNESCO colocou Paraty em uma categoria que só existia para Machu Picchu.