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A maioria acha que criança pequena não percebe as brigas dos pais, mas especialistas em psicologia dizem o contrário: elas passam a ler a raiva no rosto dos adultos com mais precisão
Estudo sugere que a exposição a discussões pode aprimorar a capacidade de identificar certas emoções; entenda a complexa relação
Crianças que percebem rapidamente mudanças no tom de voz ou expressões faciais podem estar tentando antecipar o que vai acontecer em casa. Pesquisas em psicologia sugerem que crescer em um ambiente com conflitos pode alterar a forma como algumas delas reconhecem sinais emocionais.
Um estudo publicado em 2024, por exemplo, associou a exposição a conflitos hostis entre pais a um aumento na precisão para identificar certas emoções. A relação, no entanto, é complexa, e outras pesquisas mostram que adversidades na infância não geram o mesmo efeito em todas as crianças.
O que o estudo descobriu
Publicado na revista científica “Child Development”, o estudo foi conduzido por pesquisadores das universidades de Rochester e Binghamton, nos Estados Unidos. A pesquisa acompanhou 238 famílias com crianças em idade pré-escolar entre 2018 e 2022.
Os resultados indicaram que uma maior exposição inicial a conflitos interparentais hostis se associou a um aumento posterior na precisão com que as crianças identificavam expressões de raiva, tristeza e felicidade. Essa associação foi mais forte no reconhecimento de raiva e de emoções com maior intensidade.
Em certas circunstâncias, prestar mais atenção às emoções dos adultos pode funcionar como uma adaptação ao ambiente.
Isso significa aprender a ‘ler pessoas’?
Não exatamente. O experimento avaliou a precisão ao identificar expressões, o que é diferente de descobrir intenções, perceber mentiras ou antecipar comportamentos. O resultado também não deve ser interpretado como um benefício psicológico gerado por conflitos familiares.
O que o estudo mostra é uma associação específica: crianças mais expostas a conflitos hostis apresentaram mudanças em uma habilidade de reconhecimento emocional.
Um estudo com 6.506 crianças
Uma pesquisa anterior, de 2018, publicada no “Journal of Child Psychology and Psychiatry”, ajuda a ilustrar a complexidade do tema. O trabalho analisou 6.506 participantes de um grande estudo no Reino Unido, avaliando oito tipos de adversidade ocorridos até os 8 anos de idade, como abuso, instabilidade familiar e dificuldades financeiras.

Aos 8 anos e meio, as crianças realizaram um teste de reconhecimento de emoções. Embora mais de 75% dos participantes tivessem passado por ao menos uma adversidade, os pesquisadores não encontraram evidências de que essas experiências estivessem associadas a déficits no reconhecimento emocional.
Os dois estudos não se contradizem, pois fizeram perguntas diferentes. A pesquisa de 2024 focou em conflitos hostis específicos, enquanto a de 2018 agrupou diversas formas de adversidade. Portanto, não é possível concluir que infâncias difíceis tornam alguém melhor ou pior em ler emoções.
Atenção aos sinais pode continuar?
Em algumas pessoas, a exposição a situações ameaçadoras pode levar a um estado de alerta excessivo conhecido como hipervigilância. Fontes de saúde do governo dos Estados Unidos descrevem a condição como um estado em que a pessoa permanece “em guarda”, reagindo facilmente a estímulos.
Isso pode se manifestar como uma atenção elevada a mudanças de comportamento ou sons. Contudo, observar o tom de voz ou evitar discussões não significa que alguém tenha um transtorno psicológico. A hipervigilância é apenas um dos possíveis sintomas relacionados ao estresse traumático e é analisada junto a outros critérios para um diagnóstico.