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A pequena cidade do Lobisomem que realizou o 1º Festival da Lua Cheia no interior de São Paulo com histórias assombradas, documentários e queijos com o nome da criatura

Histórias assombradas, documentários e queijos do Lobisomem.

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A pequena cidade do Lobisomem que realizou o 1º Festival da Lua Cheia no interior de São Paulo com histórias assombradas, documentários e queijos com o nome da criatura
Moradores mais velhos seguem contando as próprias versões, e algumas famílias construíram identidade em cima disso. / Imagem ilustrativa

Um bonecão peludo de cerca de cinco metros recebe quem chega a Joanópolis, na divisa de São Paulo com Minas Gerais. A cidade da Serra da Mantiqueira abraçou um causo antigo, transformou o medo em calendário oficial e hoje coleciona documentários, livros e queijos batizados com o nome da criatura.

Como um maçom virou o primeiro lobisomem da cidade

A versão mais repetida por lá não tem uivo nem lua cheia. Segundo o folclorista Valter Cassalho, um dos fundadores do município costumava andar pelas ruas à noite e, numa madrugada de tempestade, se enrolou num pano felpudo para socorrer um cachorro na chuva.

O relâmpago fez o resto. Quem passava viu apenas um vulto enorme curvado sobre o animal e saiu gritando pela rua. O apelido pegou e nunca mais soltou o nome do homem.

A história ficou restrita ao boca a boca por décadas, até ganhar registro escrito nos anos 1980, quando uma folclorista publicou um livro sobre as lendas da região. Dali em diante o causo virou marca da cidade, e Cassalho segue contando a origem em eventos organizados pela própria Prefeitura.

A pequena cidade do Lobisomem que realizou o 1º Festival da Lua Cheia no interior de São Paulo com histórias assombradas, documentários e queijos com o nome da criatura
Poucos lugares no Brasil transformaram um boato de vizinhança em identidade cultural com tanto empenho. / Créditos: Wikimedia Commons

O festival que colocou o mito no calendário oficial

A criatura deixou de ser assunto de esquina e virou política cultural. Em novembro de 2025 a Prefeitura da Estância Turística de Joanópolis realizou o 1º Festival da Lua Cheia, com três dias de programação dedicados ao folclore local.

O roteiro do evento mostra o tamanho do fenômeno. Houve contação de causos sobre a origem da lenda, roda literária em torno do livro que resgata a história de Bento Pinheiro, morador conhecido por seus relatos, e exibição de dois documentários feitos na zona rural do município.

A segunda edição, marcada para 2026, ampliou o escopo e incluiu filmes de terror e uma oficina sobre a história do horror no cinema brasileiro. A cidade também recebeu o lançamento de uma coletânea de contos ambientados nas suas paisagens, chamada Contos da Capital do Lobisomem.

O que o mito virou no comércio local

O personagem saiu do papel e ocupou vitrines. A lista oficial de expositores do festival reúne produtos inspirados diretamente na figura, feitos por produtores da cidade e da região.

  • Queijos artesanais de cabra: o Queijinho do Lobisomem e o Lua do Bosque estão entre os itens mais procurados.
  • Biscoitos e bolos temáticos: doces decorados com a silhueta da criatura e com a lua cheia.
  • Artesanato em MDF: chaveiros, luminárias e plaquinhas com o desenho do personagem local.
  • Livros e obras de arte: produção autoral inspirada no folclore joanopolense.
  • Crochê e papelaria: peças feitas à mão com os personagens da lenda.

Existe até uma versão amigável do monstro. O artesão Marcos Bueno, autor do primeiro desenho do lobisomem da cidade, conta em rodas de causos como o bicho ganhou um rosto simbólico e acabou virando objeto de afeto popular, e não só de susto.

Leia também: A capital da Amazônia que já foi da Bolívia e passou ao Brasil em um acordo de 2 milhões de libras.

A serra que serve de cenário para o causo

Nenhuma lenda sobrevive sem paisagem à altura. O município guarda um conjunto de atrativos naturais catalogados pelo portal de turismo da Prefeitura, quase todos ligados à mata fechada onde os relatos aparecem.

  • Cachoeira dos Pretos: queda de 154 metros a 18 km do centro, apontada como a segunda maior do estado de São Paulo.
  • Gigante Adormecido: montanha da Serra do Lopo, a 1.725 metros de altitude, cuja silhueta lembra um homem deitado.
  • Cachoeira dos Pires: conjunto de quedas e piscinas naturais a 3,7 km do centro, com visitação livre.
  • Represa Jaguari/Jacareí: espelho d’água a 4 km da cidade, com acesso público pelo Mangue Seco.
  • Rampas de asa delta: duas rampas na Serra do Lopo, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais.
  • Cachoeira Escondida: quedas rasas encobertas pela mata, indicadas para quem viaja com crianças.
A pequena cidade do Lobisomem que realizou o 1º Festival da Lua Cheia no interior de São Paulo com histórias assombradas, documentários e queijos com o nome da criatura
A filha de Bento Pinheiro, por exemplo, conta que era chamada de mulher do lobisomem na juventude e sentia vergonha da história. / Créditos: Wikipédia

Por que a lenda continua viva no século 21

O isolamento antigo da região e a religiosidade forte ajudaram a dar novos sentidos ao causo, muitas vezes interpretado como advertência moral. Moradores mais velhos seguem contando as próprias versões, e algumas famílias construíram identidade em cima disso.

A filha de Bento Pinheiro, por exemplo, conta que era chamada de mulher do lobisomem na juventude e sentia vergonha da história. Hoje o nome do pai aparece em título de livro, em documentário e na programação da secretaria municipal de cultura.

Ninguém sabe precisar quantos dos moradores acreditam de fato na criatura. O que se sabe é que o mito virou economia criativa, atraiu curiosos de vários estados e deu a uma cidade pequena da Mantiqueira um lugar improvável no mapa turístico paulista.

Vá conferir o causo de perto

Poucos lugares no Brasil transformaram um boato de vizinhança em identidade cultural com tanto empenho. Entre cachoeiras altas, montanhas de silhueta humana e festivais de lua cheia, Joanópolis provou que folclore também sustenta calendário e comércio.

Você precisa subir a serra numa noite de lua cheia e ouvir a versão joanopolense da história de quem viu o bicho.