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A pequena vila medieval na Itália que paga voluntários para morar lá com apoio da prefeitura e aluguel muito baixo
A vila medieval italiana que está recrutando moradores.
A 1.250 metros de altitude, dentro do Parque Nacional Gran Sasso e Monti della Laga, a vila de Santo Stefano di Sessanio tem 115 habitantes e um problema raro: não envelhecer sozinha. A solução veio em forma de cheque.
Por que uma vila italiana paga estrangeiros para morar lá?
O cenário é o de uma escolha quase de sobrevivência. Dos 115 moradores de Santo Stefano di Sessanio, 41 já passaram dos 65 anos e apenas 13 têm menos de 20, segundo dados divulgados pela CNN Brasil. Sem renovação populacional, escola, mercado e padaria correm risco de fechar.
Em 2020, a prefeitura criou um pacote de incentivos que somam até 44 mil euros por participante. Fabio Santavicca, prefeito da cidade, resumiu o objetivo em uma frase repetida pela imprensa internacional: a vila precisa continuar viva, e isso passa por trazer gente nova para dentro das muralhas medievais. A Itália é o segundo país com a população mais velha do mundo, atrás apenas do Japão, segundo o Il Sole 24 Ore.

Como funciona o pacote de até 44 mil euros?
O incentivo combina três frentes pensadas para sustentar a chegada do novo morador durante o período inicial. A lógica é simples: dar tempo para a pessoa se estabelecer, abrir um negócio e criar raízes na vila.
- Bolsa mensal: pagamento distribuído por 36 meses, no valor anual de até 8 mil euros, totalizando 24 mil euros em três anos.
- Subsídio para empreender: aporte único de até 20 mil euros para abertura de negócio em áreas estratégicas para a comunidade.
- Aluguel simbólico: imóvel pertencente à prefeitura cedido por valor reduzido durante a vigência do programa.
- Permanência mínima: o morador precisa fixar residência por pelo menos 5 anos, garantindo continuidade ao tecido social do povoado. Cerca de 1.500 pessoas se inscreveram já na primeira chamada, em 2020.
Quem pode se candidatar ao programa abruzzese
A pegadinha do anúncio está nas regras de elegibilidade. O programa não é aberto para qualquer pessoa, e a tabela abaixo resume os principais critérios divulgados oficialmente.
| Requisito | Detalhe |
|---|---|
| Idade | Entre 18 e 40 anos |
| Cidadania | Italiana, da União Europeia ou residente de longo prazo na UE |
| Origem | Cidade italiana com mais de 2 mil habitantes |
| Permanência | Mínimo de 5 anos em Santo Stefano |
| Negócio | Turismo, gastronomia, artesanato, manutenção ou serviços essenciais |
| Antecedentes | Sem condenações penais com sentença transitada em julgado |
A exigência de vir de uma cidade com mais de 2 mil habitantes parece estranha, mas tem lógica. A prefeitura quer evitar que outros pequenos vilarejos italianos percam moradores para Santo Stefano, criando um efeito dominó na crise demográfica do interior do país.
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O sueco que comprou meia vila e mudou tudo
A história de Santo Stefano só faz sentido quando se conhece Daniele Kihlgren, empresário ítalo-sueco que cruzou a região de moto no fim dos anos 1990 e ficou paralisado diante do casario de pedra calcária. Filho de uma família com fortuna no setor de cimento, ele decidiu fazer o oposto da indústria familiar: preservar.
Kihlgren investiu cerca de 4,5 milhões de euros na compra e restauração de casas abandonadas, segundo a CNN. Em 2004, abriu o Sextantio Albergo Diffuso, hotel cujos 30 quartos estão espalhados por casas medievais diferentes, e o acordo com a prefeitura incluiu um embargo histórico: nada de novas construções no centro, nada de concreto. Quando o Sextantio começou a operar, havia uma única atividade turística no vilarejo, hoje são 23, segundo o Giornale dell’Architettura.

O Pequeno Tibete italiano por trás da vila
A vila está dentro do Parque Nacional Gran Sasso e Monti della Laga, uma das áreas protegidas mais extensas da Itália, com 141.341 hectares e mais de 20 picos acima dos 2 mil metros. O Corno Grande, com 2.912 metros, é a vetta mais alta dos Apeninos e abriga o Calderone, último glaciar dos montes italianos.
O entorno ganhou o apelido de “Piccolo Tibet” pela paisagem lunar do Campo Imperatore, um planalto vasto onde rebanhos pastam no verão e a neve cobre tudo no inverno. A vila prosperou no século XVI sob domínio dos Medici de Florença, que compravam ali a lã preta chamada carfagna, e a Torre Medicea, símbolo do povoado, ruiu no terremoto de 2009 e levou 12 anos para ser reerguida, segundo o Italia.it.
A vila que decidiu não desaparecer
Santo Stefano di Sessanio prova que paisagem e identidade valem mais do que crescimento a qualquer custo. A combinação rara de incentivo financeiro, patrimônio medieval intacto e natureza preservada faz desse lugar um caso único entre os pequenos borghi italianos.
Você precisa conhecer Santo Stefano di Sessanio e entender por que uma vila de 115 habitantes virou modelo de repovoamento para metade da Europa.