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A psicologia afirma que as crianças das décadas de 60 e 70 não se tornaram fortes por terem recebido uma educação melhor, mas sim porque aprenderam a gerir as suas próprias emoções
Tédio, espera e autonomia moldaram a resiliência de uma geração
Quem cresceu nas décadas de 1960 e 1970 raramente tinha um adulto por perto para resolver cada conflito, mediar cada briga com colega ou oferecer distração imediata para o tédio. Esse contexto, que hoje seria visto como falta de suporte, produziu algo que a psicologia do desenvolvimento passou décadas estudando: uma resiliência emocional específica, construída não por uma criação superior, mas pela necessidade constante de lidar com as próprias emoções sem rede de apoio imediata.
O que a psicologia identificou de diferente nessa geração?
Pesquisadores da área de desenvolvimento infantil apontam que as crianças dessa época foram expostas a um nível de autonomia que gerações posteriores raramente experimentaram. Elas iam à escola sozinhas, resolviam desentendimentos sem intervenção de adultos e conviviam com o tédio sem estímulos constantes. Os pais passavam mais tempo fora de casa e o bem-estar emocional infantil não ocupava o centro das dinâmicas familiares. O resultado foi o desenvolvimento involuntário de ferramentas emocionais que hoje são treinadas em contextos terapêuticos deliberados.
O que é o jogo livre e por que ele foi tão importante?
O psicólogo Peter Gray, do Boston College, descreveu como o chamado jogo livre moldou habilidades emocionais fundamentais nessa geração. Sem adultos mediando as interações, as crianças precisavam negociar regras, resolver conflitos e reorganizar dinâmicas de grupo por conta própria. Esse processo não era percebido como aprendizado, mas funcionava como um treinamento contínuo de regulação emocional. Cada briga resolvida entre crianças sem intervenção adulta era, na prática, um exercício de tolerância à frustração e de resolução de problemas.
O que mudou na percepção de controle entre gerações?
A psicóloga Jean Twenge investigou o conceito de locus de controle, que descreve a percepção que uma pessoa tem sobre o quanto é capaz de influenciar o que acontece em sua própria vida. Sua análise de dados coletados entre 1960 e 2002 revelou uma mudança significativa: ao longo dessas décadas, os jovens foram progressivamente sentindo que fatores externos controlavam mais suas decisões e resultados. Em 2002, um jovem médio percebia menos domínio sobre a própria vida do que 80% dos jovens dos anos 60. A pesquisa associou essa mudança ao aumento de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais nas gerações seguintes.

O que é a tolerância à angústia e como ela foi desenvolvida?
Outro conceito central para entender essa geração é o de tolerância à frustração, que descreve a capacidade de conviver com o desconforto sem buscar eliminá-lo imediatamente. Nos anos 60 e 70, essa habilidade era exercitada de forma cotidiana e não intencional. As crianças:
- Esperavam mais tempo para obter o que queriam, sem acesso a gratificação imediata
- Enfrentavam períodos de tédio sem distrações digitais disponíveis
- Resolviam conflitos sociais sem a intervenção rápida de pais ou professores
- Lidavam com frustrações menores sem que isso fosse tratado como um problema a ser resolvido por adultos
Especialistas descrevem essas experiências como um treinamento emocional involuntário que preparou essa geração para enfrentar adversidades na vida adulta com mais recursos internos.
Essa criação tinha lados negativos também?
Sim, e os pesquisadores são cuidadosos nesse ponto. A menor supervisão adulta e a ausência de validação emocional sistemática deixaram marcas em muitas pessoas. O estigma em torno da saúde mental naquele período era alto, e dificuldades emocionais eram frequentemente ignoradas em vez de reconhecidas. A resiliência emocional que essa geração desenvolveu veio acompanhada, em muitos casos, de uma dificuldade real de pedir ajuda, nomear sentimentos ou reconhecer quando o suporte profissional era necessário.
O que essa geração tem a ensinar sobre como lidar com emoções
O contraste com os modelos de criação atuais revela uma tensão que a psicologia ainda está tentando equilibrar. A supervisão constante e a intervenção imediata diante de qualquer dificuldade reduzem as oportunidades de desenvolver ferramentas de enfrentamento antes da vida adulta. Muitas crises emocionais que antes eram resolvidas no pátio da escola ou na rua do bairro aparecem hoje em etapas posteriores da vida, quando o custo é maior.
Isso não significa que a criação das décadas de 60 e 70 deva ser repetida. Significa que o espaço para errar, esperar, se frustrar e resolver sem ajuda imediata tem um papel que os modelos mais protetores de criação precisam encontrar formas de preservar. O locus de controle se constrói quando a criança experimenta, na prática, que suas ações têm consequências reais sobre o que acontece ao seu redor.