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A psicologia afirma que as crianças das décadas de 60 e 80 não se tornaram fortes por terem recebido uma educação melhor, mas sim porque aprenderam a gerir as suas próprias emoções sem ajudas externas
A geração dos anos 60 e 70 aprendeu a lidar sozinha com sentimentos.
Quem cresceu antes dos anos 80 costuma dizer que aprendeu a se virar cedo, ora porque a mãe estava ocupada, ora porque a rua ensinava mais rápido que qualquer conversa em casa. Uma tese que circula na psicologia contemporânea tenta explicar por que aquela geração parece ter mais jogo de cintura emocional: não foi porque receberam uma educação melhor, e sim porque aprenderam a lidar sozinhas com o próprio incômodo, sem alguém interferindo o tempo todo.
O que essa comparação entre gerações realmente está dizendo?
A comparação entre a infância dos anos 60 e 80 e a de hoje não é sobre disciplina rígida, palmada ou nostalgia de rua vazia. O ponto que os pesquisadores destacam é outro: naquela época, entre um chamado da mãe e outro, a criança passava horas resolvendo por conta própria coisas pequenas que hoje raramente chegam sem mediação de um adulto.
Perder no futebol da esquina, ficar sem convite para a festa da vizinha, se entediar num sábado à tarde sem ter o que fazer. Sem ninguém do lado explicando cada sentimento ou oferecendo solução imediata, a criança precisava dar um jeito de digerir aquilo sozinha, e é esse exercício repetido diariamente que fica na conta do desenvolvimento emocional.

O que os estudos de psicologia dizem sobre proteção em excesso?
Uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychology em 2022 analisou vários estudos sobre o chamado parentalidade helicóptero, expressão da psicologia para descrever pais que supervisionam o filho o tempo todo e resolvem por ele situações que ele conseguiria enfrentar sozinho. A conclusão foi consistente entre a maioria dos estudos: adolescentes e jovens adultos com esse tipo de criação tendem a apresentar níveis mais altos de ansiedade e sintomas depressivos.
Isso não significa que atenção e afeto façam mal. O problema está no excesso, principalmente quando o adulto retira da criança a chance de errar e se recuperar sozinha. Os pontos que a pesquisa costuma destacar como perdas dessa proteção exagerada:
Mas será que a infância antiga era mesmo tão saudável assim?
Aqui entra a parte que a versão nostálgica do assunto costuma pular. A infância dos anos 60 e 80 também tinha coisas ruins que hoje seriam inaceitáveis: palmadas normalizadas, silêncio sobre abuso, pouco espaço para a criança falar de medo ou tristeza, e escola que gritava mais do que ensinava. Ter aprendido a “engolir” emoção não é o mesmo que ter aprendido a regulá-la de forma saudável.
O que a pesquisa moderna sugere não é copiar aquele modelo, e sim aproveitar o que ele tinha de bom, jogando fora o que fazia mal. A comparação honesta é mais ou menos assim:
| Aspecto | Infância anos 60 e 70 | Efeito na vida adulta |
|---|---|---|
| Autonomia Rua, tédio, brincadeira livre | Muito espaço para decidir sozinha | Ponto forte |
| Escuta emocional Falar de medo, tristeza | Pouco espaço, “engolir choro” | Ponto fraco |
| Segurança física Trânsito, extranhos, violência | Menos monitorada por adultos | Depende do contexto |
| Disciplina Palmada, castigo físico | Normalizada em muitas famílias | Prejudicial |
O que dá para aplicar hoje sem cair em extremo nenhum?
A saída que a psicologia atual costuma sugerir não é abandonar a criança à própria sorte, é praticar o que os pesquisadores chamam de parentalidade que apoia a autonomia. Na prática, isso quer dizer estar presente para acolher, mas resistir à vontade de resolver na hora todo pequeno tropeço, deixando a criança tentar antes de o adulto intervir.
Alguns gestos simples fazem diferença: perguntar “como você acha que dá para resolver isso?” antes de dar a solução, permitir tédio sem oferecer tela na mesma hora, deixar a criança discutir com o irmão até certo ponto sem entrar para apartar, e aguentar a frustração dela sem tentar consertar o sentimento. Este texto é informativo e não substitui orientação de profissional de psicologia ou pediatria.