A vila onde dois rios se encontram sem se misturar e criam um dos paraísos de água doce mais bonitos do planeta - Super Rádio Tupi
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A vila onde dois rios se encontram sem se misturar e criam um dos paraísos de água doce mais bonitos do planeta

Onde dois rios se encontram sem perder suas cores.

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A história de Santarém começou muito antes da chegada dos colonizadores europeus. / Imagem ilustrativa

Em frente a Santarém, no oeste do Pará, o azul-esverdeado do rio Tapajós encosta no marrom do rio Amazonas e se recusa a virar uma coisa só. A cena dura cerca de oito quilômetros e é o cartão de entrada para Alter do Chão, vila de aproximadamente 6 mil moradores eleita pelo jornal The Guardian em 2009 como a praia de água doce mais bonita do mundo.

Por que os rios Tapajós e Amazonas não se misturam?

Porque são rios de personalidades opostas. O Tapajós desce dos planaltos com poucos sedimentos em suspensão e ganha o tom azul-esverdeado; o Amazonas carrega toneladas de material erodido dos Andes, o que explica sua cor barrenta. Diferenças de densidade, temperatura e velocidade fazem com que as duas massas de água resistam à mistura por um bom trecho.

Segundo a Prefeitura de Santarém, o encontro se estende por cerca de oito quilômetros e pode ser observado da própria orla. Quem mergulha entre os dois rios sente a mudança de temperatura na pele: um lado morno, o outro frio. Em 2014, o Governo do Pará reconheceu o fenômeno como patrimônio cultural de natureza imaterial do estado pela Lei Estadual nº 8.062.

A vila onde dois rios se encontram sem se misturar e criam um dos paraísos de água doce mais bonitos do planeta
Os rios Tapajós e Amazonas abastecem a cidade com peixes que ganham preparo único na cozinha paraense. / Créditos: depositphotos.com / pedarilhos

De aldeia Borari a Caribe Amazônico

Antes dos portugueses, o povo Borari já habitava a margem direita do Tapajós. O explorador Pedro Teixeira fundou a povoação em 6 de março de 1626, e em 1758 o governador da capitania do Grão-Pará elevou o local à categoria de vila, batizando-o em homenagem à cidade portuguesa de mesmo nome, no Alentejo.

A vila coleciona reconhecimentos internacionais desde o fim dos anos 2000. Em 2009, o The Guardian a elegeu como a praia de água doce mais bonita do planeta, título registrado pelo portal Visit Brasil, da Embratur. Em 2022, a Lei Estadual nº 9.543 declarou Alter do Chão patrimônio cultural material e imaterial do Pará.

O aquífero gigante que dorme embaixo da vila

Alter do Chão dá nome a uma das maiores reservas subterrâneas de água doce já mapeadas do mundo. A Formação Alter do Chão é a base do Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), delimitado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) a partir de 2013.

As estimativas da equipe apontam volume superior ao do Aquífero Guarani, o que reforça o simbolismo do vilarejo: em cima, a praia de água doce mais premiada do país; embaixo, um oceano de água doce silencioso. Poucos destinos concentram tanto símbolo hídrico num só endereço.

O que fazer em Alter do Chão em um roteiro completo?

O passeio muda de acordo com a estação. Na cheia, canoas cortam a floresta alagada; na vazante, as praias emergem como miragens no meio do rio.

  • Ilha do Amor: banco de areia branca em frente à vila, acessível em minutos pelas canoas dos catraieiros locais. Cartão-postal do destino na vazante.
  • Floresta Encantada (Lago Verde): entre fevereiro e julho, a mata de igapó fica submersa e permite passeios de canoa entre copas de árvores centenárias.
  • Floresta Nacional do Tapajós: unidade de conservação gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com cerca de 530 mil hectares e mais de 160 km de praias fluviais.
  • Comunidade de Jamaraquá: porta de entrada mais usada da Flona, com trilhas guiadas por moradores locais e a célebre samaúma gigante.
  • Canal do Jari: passeio de barco entre os rios com boas chances de avistar botos, preguiças, macacos e jacarés.
  • Serra da Piraoca: mirante natural com vista de 360 graus sobre a vila, o Tapajós e a floresta.

Belezas naturais e o encanto do Caribe Amazônico. O vídeo é do canal Trip Partiu, que conta com mais de 650 mil inscritos, e apresenta os melhores passeios por Alter do Chão (PA), detalhando a Ilha do Amor, a Floresta Encantada e as praias do Rio Arapiuns:

Onde comer bem à beira do Tapajós?

A cozinha da vila cabe entre o pescado do dia e o tucupi da manhã seguinte. Os endereços tradicionais ficam a poucas quadras da orla.

  • Pirarucu na brasa: um dos maiores peixes de escamas de água doce do mundo, servido com farinha e vinagrete de jambu.
  • Tucunaré grelhado: peixe inteiro na chapa, acompanhado de arroz, farofa e açaí batido na hora.
  • Tacacá: caldo quente de tucupi com goma, camarão seco e folhas de jambu, servido em cuia ao entardecer.
  • Açaí paraense: grosso, salgado, sem açúcar, comido com farinha de tapioca e peixe frito.

Leia também: A cidade do interior paulista que combina qualidade de vida, bons serviços e tranquilidade para morar.

Festa do Sairé: quando o boto vira personagem principal

Todo mês de setembro, Alter do Chão para para a Festa do Sairé, celebração que mistura ritos indígenas Borari com heranças jesuíticas. O momento mais aguardado é a disputa entre os botos Cor-de-Rosa e Tucuxi, agremiações que apresentam música, dança e teatro inspirados nas lendas amazônicas.

A festa reúne centenas de brincantes e é considerada uma das manifestações culturais mais importantes da Amazônia. A programação oficial é divulgada pela Prefeitura de Santarém a cada edição.

Como é o clima ao longo do ano

Santarém tem clima equatorial úmido, com duas estações bem marcadas: o inverno amazônico das chuvas e o verão da vazante, quando as praias aparecem.

💧 Cheia Fev-Jul
Média: 24-33°C
Chuva: Alta
Período ideal para explorar a Floresta Encantada e fazer passeios de canoa nos igapós.
🌤️ Transição Ago
Média: 24-34°C
Chuva: Baixa
O recuo das águas revela as primeiras faixas de areia na vila.
☀️ Vazante Set-Nov
Média: 25-35°C
Chuva: Baixa
Época perfeita para curtir a Ilha do Amor e a tradicional Festa do Sairé.
🏜️ Seca alta Dez-Jan
Média: 25-34°C
Chuva: Baixa
As praias estão em plena forma, complementadas por passeios na Flona.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Alter do Chão

A porta de entrada é o Aeroporto Maestro Wilson Fonseca, em Santarém, com voos regulares saindo de Belém, Manaus e Brasília. Da cidade, a vila fica a 37 km por estrada asfaltada, cerca de 45 minutos de carro ou van. Quem prefere o caminho fluvial pode chegar a Santarém em embarcações regionais partindo de Belém ou Manaus, viagens que atravessam o próprio rio Amazonas.

Vá ver os rios discutirem em silêncio

Alter do Chão condensa numa vila de 6 mil pessoas fenômenos que costumam morar em capítulos separados de atlas: rios que ignoram um ao outro, praias que somem seis meses por ano e uma floresta que aceita ser navegada. Nenhum destino do país entrega esse conjunto no mesmo endereço.

Você precisa conhecer Alter do Chão pelo menos uma vez e escolher se vai atrás da praia branca ou da floresta submersa. Os dois cenários existem no mesmo pedaço de mapa.