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Aposentado de 68 anos viveu 271 dias com um rim de porco e ficou livre da diálise, mas quem o salvou de vez foi um doador humano, aponta estudo da revista The Lancet

Paciente renal passou nove meses sem máquina de diálise com um rim de porco editado geneticamente

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Dois médicos do Massachusetts General Hospital e Biological Surgery conversam com paciente
Médicos do Massachusetts General Hospital e Shaun Kiem com Tim Andrews, o paciente que recebeu o rim de porco experimental. Foto: Massachusetts General Hospital

O transplante de um rim de porco em um paciente vivo permitiu que um norte-americano passasse 271 dias sem sessões de diálise, marcando um recorde na medicina. O experimento, detalhado na revista científica The Lancet, comprovou que o órgão animal pode servir como uma ponte segura até a chegada de um doador humano, mantendo o receptor em boas condições clínicas.

Tim Andrews, um aposentado de Nova Hampshire hoje com 68 anos, sofria de falência renal crônica decorrente do diabetes. Antes do procedimento, ele enfrentava exaustivas rotinas de hemodiálise três vezes por semana e chegou a sofrer um infarto. A cirurgia realizada em janeiro de 2025 em Boston utilizou um rim suíno com 69 edições genéticas para reduzir riscos de infecções e rejeição.

Como o aposentado viveu com um rim de porco?

O órgão foi fornecido pela empresa eGenesis e teve funcionamento imediato após o implante. Com a nova função renal, Andrews abandonou as máquinas de diálise e retomou atividades cotidianas, como cozinhar e caminhar com seu animal de estimação. Ele chegou a participar de um evento oficial no estádio do Boston Red Sox em junho de 2025.

Tim com o doutor Tatsuo Kawai (à esquerda) e com o doutor Leonardo V. Riella. Foto: Massachusetts General Hospital

O período de sucesso com o rim animal durou até outubro de 2025, quando a função do órgão começou a declinar. Após a retirada do rim de porco e um breve retorno à diálise por cerca de três meses, o paciente recebeu um rim humano em janeiro de 2026. A transição foi considerada um marco por não apresentar complicações imunológicas inesperadas.

Por que o resultado interessa a quem está na fila?

Um dos principais achados da pesquisa foi a ausência de novos anticorpos que pudessem atacar o futuro órgão humano. Os médicos temiam que o uso de tecidos animais sensibilizasse o organismo do paciente, inviabilizando um transplante convencional posterior. No entanto, os testes mostraram que o sistema imunológico de Andrews permaneceu compatível com a doação humana.

O que a ciência aprendeu com o caso de Tim Andrews

Os avanços técnicos e o impacto para quem aguarda na fila de transplante

🧬 Edição genética avançada: O uso de 69 modificações no DNA do animal foi crucial para neutralizar vírus suínos e garantir a segurança do receptor.

🛡️ Preservação do sistema imune: O rim de porco não gerou anticorpos que impedissem um transplante humano posterior, principal medo da medicina.

⏱️ Ponte para a cura: A técnica serviu como suporte clínico para que o paciente aguardasse em boas condições até a chegada de um doador compatível.

🇧🇷 Realidade brasileira: Atualmente, 38 mil brasileiros esperam por um rim, reforçando a urgência de novas tecnologias como o xenotransplante.

O nefrologista Leonardo Riella, principal autor do artigo, destacou que a inovação foca em resolver o gargalo da disponibilidade de órgãos. A falta de doadores é a maior crise do transplante hoje, afirmou o especialista, lembrando que mais de 100 mil pessoas aguardam na fila nos Estados Unidos, a maioria em busca de um rim.

Como está a fila de transplantes no Brasil?

A realidade brasileira também reflete essa escassez, com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos registrando cerca de 38 mil pessoas à espera de um rim. Somente na primeira metade de 2025, mais de 1,3 mil pacientes morreram antes de conseguir a cirurgia no país. Diabetes e hipertensão continuam sendo as principais causas de perda da função renal entre os brasileiros.

Embora o SUS tenha alcançado números recordes de procedimentos em 2024, a demanda ainda supera amplamente a oferta de órgãos. O uso de xenotransplantes, como o realizado em Andrews, segue em fase experimental e não é praticado no Brasil. Por enquanto, a doação autorizada por famílias após a morte permanece como a única alternativa para quem está na lista.