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Brasileiros estão comprando casas na Itália por menos de R$ 6 e a prefeitura ainda paga a reforma
A casa italiana que custa R$ 6: como brasileiros estão comprando imóveis na Sicília e recomeçando a vida
Um euro. Menos do que um café expresso em Roma. É o preço real que brasileiros estão pagando por casas centenárias em vilarejos da Sicília, a maior ilha do Mediterrâneo, onde pedras de basalto negro guardam séculos de história árabe, grega e normanda.
O programa que começou para salvar cidades fantasmas
O Case a 1 Euro não é golpe nem clickbait. O projeto nasceu em 2009 no município siciliano de Gangi como resposta ao esvaziamento que ameaçava transformar pequenas cidades em ruínas habitadas apenas por idosos. Com jovens migrando para Milão, Roma e países do norte europeu, sobrou um acervo imenso de imóveis abandonados, muitos centenários, sem herdeiros dispostos a reformá-los.
A solução foi radical: vender as casas por um valor simbólico a quem se comprometesse a restaurá-las. O modelo se espalhou por dezenas de municípios italianos, de Mussomeli e Troina no interior siciliano até Taranto, na Puglia. Hoje, segundo a Agência ANSA Brasil, mais de 21 milhões de euros já foram investidos em restaurações apenas nos vilarejos sicilianos.
Sambuca di Sicilia: o vilarejo mais bonito da Itália tem casas por 1 euro
Sambuca di Sicilia, encravada nas colinas da província de Agrigento, foi eleita em 2016 o Borgo più bello d’Italia, o vilarejo mais bonito da Itália. O título acendeu os holofotes sobre a cidade, e o programa de casas a 1 euro, lançado em 2019, transformou Sambuca em fenômeno global. A CNN publicou uma matéria. O Telegraph e o Guardian também. Em dias, a prefeitura recebeu mais de 40 mil e-mails de interessados do mundo inteiro.
A atriz Lorraine Bracco, conhecida pelo papel em Sopranos, comprou uma das casas e transformou a reforma num reality show exibido pelo Discovery Channel. Uma família sueca documentou sua própria restauração para a televisão nacional. Sambuca deixou de ser um vilarejo ameaçado de extinção para virar destino internacional. Antes de 2016, havia apenas uma estrutura hoteleira com 52 leitos na cidade. Hoje, são cerca de 200 vagas de hospedagem.
Campofranco: o destino preferido dos brasileiros na Sicília
Se Sambuca atraiu americanos e europeus, Campofranco virou o endereço favorito dos brasileiros. O município de cerca de 2,5 mil habitantes, na província de Caltanissetta, tem um diferencial que nenhum outro vilarejo oferece: não exige reforma imediata nem depósito de caução na prefeitura. A única condição é fechar o negócio pessoalmente na Itália.
Os irmãos Antonino e Carmelo Cuschera, donos da imobiliária Vero Affare, organizam as vendas e assumem toda a burocracia. Após uma divulgação em português na imprensa internacional, mais de 300 pedidos chegaram só pelo WhatsApp. Seis imóveis já foram vendidos a brasileiros, com mais duas negociações em andamento. “O brasileiro se sente em casa na Sicília”, disse Antonino à ANSA Brasil. Em uma visita recente, moradores locais ofereceram café e biscoitos aos interessados e os convidaram para entrar em suas casas.
Quanto custa de verdade? O preço oculto da reforma
A casa custa 1 euro, mas a reforma é o investimento real. Os custos variam conforme o estado do imóvel e as exigências do município, mas os números dão a dimensão do compromisso.
- Reforma média: cerca de 30 mil euros (aproximadamente R$ 192 mil), podendo chegar a 200 mil euros em projetos maiores.
- Caução (na maioria dos municípios): entre 1 mil e 5 mil euros, depositados na prefeitura como garantia da reforma e devolvidos após a conclusão das obras.
- Prazo para reformar: geralmente de 3 a 5 anos a partir da compra, conforme as regras de cada município.
- Documentação: codice fiscale italiano, passaporte, planta e certificados do imóvel, com tradução juramentada dos documentos brasileiros.
- Benefício fiscal: os custos de reforma podem ser deduzidos do imposto de renda italiano, mediante emissão de codice fiscale ou Partita IVA.

A paranaense Dinara Jane comprou uma casa em Campofranco e já tinha experiência prévia: reformou um imóvel de 42 metros quadrados em Taranto por cerca de 20 mil euros, hoje alugado para um casal italiano. “É em Campofranco que vou construir a minha história”, disse ela à ANSA.
O que ver e viver nos arredores dos vilarejos sicilianos
Morar ou visitar o interior da Sicília é ter um raio de atrações históricas a menos de uma hora. A região entre Agrigento, Caltanissetta e Palermo concentra alguns dos sítios arqueológicos mais impressionantes do mundo.
- Vale dos Templos (Agrigento): conjunto de templos dóricos gregos do século V a.C., declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 1997. Fica a cerca de 20 km de Campofranco. Com 1.300 hectares, é um dos maiores parques arqueológicos do mundo.
- Quartiere Saraceno de Sambuca: sete vielas (“vaneddi”) com arcos e casas sobrepostas, herança direta da ocupação árabe do século X. Dá para percorrer o bairro em menos de 30 minutos, mas é difícil sair sem parar em cada esquina.
- Lago Arancio: reservatório artificial a poucos km de Sambuca, cercado por vinhedos e amendoeiras. No inverno, flamingos param por ali durante a migração.
- Ruínas de Adranone: cidade greco-púnica a 1.000 metros de altitude nas montanhas próximas a Sambuca. Pouco visitada, com vista de 360 graus sobre o vale.
- Praias de falésias brancas: a faixa costeira siciliana fica a cerca de 30 km de Campofranco, com praias de areia clara e mar azul-turquesa.

Como chegar aos vilarejos da Sicília saindo do Brasil
O aeroporto mais próximo de Campofranco e Sambuca é o Aeroporto de Palermo Falcone-Borsellino, a cerca de 100 km de Campofranco e 80 km de Sambuca. Voos diretos do Brasil chegam a Roma ou Milão, com conexão para Palermo. De Palermo, aluguel de carro é a opção mais prática para o interior; o percurso até Campofranco leva cerca de 1h30 pela SS121.
Vale a pena comprar uma casa por 1 euro na Sicília?
A resposta honesta é: depende do que você busca. Para quem enxerga a reforma como projeto de vida, a oportunidade é real e verificada por dezenas de brasileiros que já fecharam negócio. A combinação de preço simbólico, patrimônio histórico, gastronomia intensa e proximidade com o Vale dos Templos cria um cenário que poucos lugares no mundo oferecem. O desafio é a burocracia italiana, o custo da reforma e a exigência de presença física para fechar o negócio.
Você precisa pisar no basalto siciliano para entender por que tantos brasileiros estão trocando o cotidiano brasileiro por uma casa de pedra no interior da Sicília por menos do que custa um café.