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Cícero, filósofo e orador romano, sobre envelhecer: “Assim como aprecio o jovem que tem algo de velho, aprecio o velho que tem algo de jovem.” Uma reflexão sobre manter a curiosidade e a leveza em qualquer idade
Trecho do diálogo Sobre a Velhice defende que estudar, lembrar e seguir curioso mantém o espírito jovem mesmo quando o corpo já sente o peso dos anos
A frase que circula como conselho para envelhecer bem tem endereço certo. Ela foi escrita por Cícero, um dos grandes nomes da oratória na Roma Antiga, no diálogo Sobre a Velhice. A ideia é simples: o tempo pesa menos para quem segue curioso, aprendendo e de bom humor com a vida.
Em que obra Cícero escreveu a frase sobre o jovem e o velho?
A frase está na seção 38 de Sobre a Velhice, título em português do diálogo latino Cato Maior de Senectute. No texto original em latim de Cato Maior de Senectute, a passagem diz que o autor aprova o jovem em que há algo de velho e o velho em que há algo de jovem.
A continuação completa o raciocínio: quem segue essa regra poderá ser velho no corpo, mas nunca no espírito. A obra é dedicada ao amigo Ático, e o autor entrega a palavra a Catão, o Velho, estadista romano que, no diálogo, diz estar no 84º ano de vida.
A escolha do personagem foi pensada. O próprio texto explica que a fala foi colocada na boca de um ancião respeitado para ganhar mais autoridade, recurso típico de quem dominava a oratória como poucos em Roma.
O que Catão ensina sobre curiosidade e estudo na velhice?
Catão responde com a própria rotina: estudar, escrever e treinar a memória. Na mesma seção 38, ele conta que reunia registros antigos, preparava discursos para causas célebres, estudava direito e lia literatura grega.

Antes dessa receita, porém, o personagem enfrenta as queixas mais comuns contra a idade. Na seção 15, Cícero lista quatro motivos que levam muita gente a ver a velhice como um peso:
- ela afasta a pessoa das atividades e dos negócios;
- ela deixa o corpo mais fraco;
- ela tira quase todos os prazeres;
- ela não está longe da morte.
O diálogo rebate cada uma dessas acusações. Na seção 26, Catão lembra o legislador grego Sólon, que se gabava de envelhecer aprendendo algo novo todos os dias, e conta que aprendeu letras gregas já idoso.
Todas as noites, à moda dos pitagóricos, ele repassava o que tinha dito, ouvido e feito, para exercitar a memória. Catão chama essas práticas de exercícios do engenho e diz que, vivendo assim, nem percebe a velhice chegando de mansinho.
A conversa sobre envelhecer com sabedoria também aparece em outros pensadores antigos. Do outro lado do mundo, Confúcio deixou uma visão própria sobre essa fase da vida.
Por que a lição da Roma Antiga segue atual no envelhecimento?
A lição segue atual porque o mundo nunca teve tanta gente idosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no planeta terá 60 anos ou mais até 2030. Em 2050, esse grupo deve chegar a 2,1 bilhões.

A mesma OMS lidera a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), declarada pela Assembleia Geral da ONU. Um dos eixos é mudar a forma como a sociedade pensa e age diante da idade, combatendo o preconceito contra os mais velhos.
Nesse ponto, o texto escrito na Roma Antiga conversa com a saúde pública de hoje. A meta não é negar o corpo que muda, mas garantir que os anos a mais sejam vividos fazendo o que se valoriza, com ambientes e relações que ajudem nisso.
Como levar a leveza de Cícero para qualquer idade?
O caminho sugerido por Cícero é manter a cabeça em movimento, sem fingir que o tempo não passa. Para o jovem, a lição é ganhar um pouco de prudência. Para quem já tem cabelos brancos, é não perder o gosto pela novidade, pela conversa e pelo riso.
Isso cabe na rotina de qualquer carioca: um livro novo, uma atividade no centro comunitário do bairro, uma roda de samba com os netos ou uma prosa no banco da praça. E você, que tal escolher hoje uma coisa nova para aprender e contar para a gente o que descobriu?
Se a filosofia antiga já ajudou você a pensar a vida, tem mais reflexão por aqui. Sêneca, outro pensador romano, escreveu sobre o sofrimento que nasce da imaginação.