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Citação do dia de Montaigne: “Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se diverte mais comigo do que eu…” — a reflexão do século 16 sobre bichos, humildade e o jeito como olhamos os animais
A frase está no capítulo 12 do segundo livro dos Ensaios e questiona a certeza humana sobre a mente dos animais
Quem tem gato em casa já desconfiou alguma vez de quem está brincando com quem. Michel de Montaigne fez essa pergunta há mais de quatro séculos e a registrou num dos livros mais influentes da literatura francesa. A frase sobre a gata é curta, bem-humorada e esconde uma crítica séria à arrogância humana.
Onde Montaigne escreveu a frase sobre a gata?
A reflexão está nos Ensaios, no Livro II, capítulo 12, conhecido como “Apologia de Raymond Sebond”. O trecho pode ser conferido no Montaigne Project, da Universidade de Chicago. O acervo reúne as edições de 1580 e 1588 e o chamado Exemplar de Bordeaux.
O quadro a seguir traz a frase no francês antigo usado pelo autor e uma tradução livre. A versão em português ajuda a perceber a ironia da pergunta.
ENSAIOS, II, 12
“Quand je me joue à ma chatte, qui sçait si elle passe son temps de moy plus que je ne fay d’elle.”
Tradução livre: “Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai mais comigo do que eu com ela.”
A expressão francesa “passer son temps de” indica alguém que se ocupa ou se entretém com algo. Por isso a pergunta vai além da brincadeira: Montaigne sugere que o bicho também pode estar usando o dono como passatempo.
O que Montaigne queria dizer com essa pergunta?
A frase aparece no meio de um raciocínio maior. Pouco antes, Montaigne pergunta como o homem conhece os movimentos internos e secretos dos animais. Questiona também com base em que comparação ele conclui que os bichos são tolos.
A gata entra como exemplo doméstico dessa dúvida. Se não sabemos o que se passa na cabeça dela, também não podemos afirmar que somos nós que controlamos a brincadeira. A pergunta inverte o ponto de vista e deixa o leitor sem uma resposta confortável.
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Por que a reflexão fala de humildade humana?
Na “Apologia de Raymond Sebond”, Montaigne desconfia da presunção de quem se coloca acima de toda a natureza. O texto questiona a certeza de que a razão humana basta para julgar tudo o que existe, inclusive a vida dos animais.
Logo depois da frase sobre a gata, ele cita Platão e a descrição da idade de ouro sob Saturno. Nessa imagem, uma das vantagens do homem daquele tempo era a comunicação com os animais. O autor usa a referência para sugerir que perdemos algo ao tratar os bichos como seres inferiores.

O que a frase diz sobre a nossa relação com os bichos?
Montaigne não afirma que a gata pensa como gente. Ele apenas lembra que a relação tem dois lados e que cada um participa dela do seu jeito. A brincadeira é uma troca, não um espetáculo em que o animal só obedece.
A ideia soa familiar para quem convive com animais. Muitos tutores contam que o gato decide a hora do carinho e a hora de ir embora. Montaigne transformou essa observação cotidiana em argumento filosófico ainda no século 16.

Vale olhar para o seu gato de outro jeito hoje?
A pergunta de Montaigne não pede uma resposta definitiva, pede atenção. Ela convida a observar o animal sem a pressa de explicar tudo a partir do nosso ponto de vista. Também ajuda a aceitar que parte do mundo dele permanece fora do nosso alcance.
Na próxima vez que o seu gato puxar a brincadeira e depois sair andando como se nada tivesse acontecido, lembre-se do filósofo francês. Talvez quem estava se divertindo com a situação fosse mesmo ele, e não você.
A admiração pelos felinos é bem mais antiga que Montaigne e já teve até caráter religioso.
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