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Citação do dia de Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Lições sobre autonomia, o peso das escolhas e a coragem de recusar destinos prontos

A frase de Simone de Beauvoir que ensina a recusar destinos prontos e escolher o próprio caminho.

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Citação do dia de Simone de Beauvoir: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância." Lições sobre autonomia, o peso das escolhas e a coragem de recusar destinos prontos
Beauvoir não estava propondo que a pessoa cortasse laços com todo mundo em nome de uma liberdade abstrata.

Existe frase que a gente já viu tantas vezes em legenda de foto, tatuagem e post de segunda-feira que quase esquece de quem é. Essa citação atribuída a Simone de Beauvoir sobre liberdade e identidade é uma dessas. A ideia é forte, mas boa parte de quem repete a frase nunca leu uma linha da filósofa francesa, e vale a pena entender o que ela realmente quis dizer.

Aquela frase que todo mundo conhece sem saber de onde saiu

A citação circula em duas versões um pouco diferentes na internet, e a mais completa costuma ser: “que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”. Aparece em livro de autoajuda, mural de escola, cartaz de manifestação e biografia do Instagram, quase sempre sem indicar em que texto Beauvoir escreveu isso.

Vale uma nota honesta antes de seguir. A formulação exata que virou meme é, na verdade, uma versão adaptada do pensamento dela, uma espécie de resumo em português que ganhou vida própria e ficou mais poético do que qualquer trecho original. A ideia é fiel ao que Beauvoir defendia, mas o arranjo poético da frase foi obra de leitores brasileiros, não da autora.

Citação do dia de Simone de Beauvoir: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância." Lições sobre autonomia, o peso das escolhas e a coragem de recusar destinos prontos
Quem está escolhendo isso, eu ou o rótulo que colaram em mim?

Quem foi Simone de Beauvoir e por que ela escreveria algo assim?

Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir foi filósofa, romancista e uma das figuras centrais do existencialismo, corrente filosófica que sustenta uma ideia bem específica: o ser humano não nasce com uma essência pronta, ele se torna quem é a partir das escolhas que faz ao longo da vida. Não existe manual de instrução, cada pessoa constrói o próprio caminho.

Aplicado à vida das mulheres, esse pensamento explodiu em 1949, com a publicação de “O Segundo Sexo”, livro em que Beauvoir escreveu a frase que ela de fato assinou: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. A ideia é a mesma da citação que circula por aí: papéis sociais, expectativas de família e padrões impostos por fora não são destino, são construção. Os pontos que ancoram a frase famosa no pensamento real dela:

1
Rejeição do destino imposto Nem biologia, nem tradição, nem religião podem funcionar como sentença para a vida de alguém.
2
Liberdade como ponto de partida Para Beauvoir, ser livre não é conquista opcional, é a condição básica do humano.
3
Responsabilidade que vem junto Como ninguém escolhe por nós, cada decisão pesa mais e ninguém pode ser culpado depois.
4
Autonomia contra rótulo alheio Deixar que outros definam quem somos é entregar de graça a única coisa que é de fato nossa.

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Como aplicar essa ideia sem cair em autoajuda vazia?

A frase é fácil de compartilhar e difícil de viver. Beauvoir não estava propondo que a pessoa cortasse laços com todo mundo em nome de uma liberdade abstrata. O que ela defendia era outra coisa: perceber quais decisões da própria vida estão sendo tomadas por hábito, medo do que vão dizer ou pressão de família, e passar a decidir com consciência do que se está fazendo.

Para separar o uso raso da frase do uso que faz jus ao pensamento dela, ajuda comparar:

Uso raso Uso alinhado ao pensamento dela Diferença
Fazer o que quiser sem pensar Liberdade como impulso Escolher com consciência do peso de cada decisão Responsabilidade junto
Cortar todo mundo que discorda Isolamento como pureza Continuar em diálogo, mas sem entregar a autonomia Vínculo com liberdade
Recusar qualquer rótulo Contra toda categoria Perceber quais rótulos limitam e quais servem Discernimento

Por que a frase, mesmo adaptada, continua fazendo sentido?

Porque o que ela diz é mais velho e mais atual do que a Beauvoir dos anos 1940. Todo mundo, em algum momento, se pega vivendo uma vida escolhida por outros: a profissão que a família achou segura, o casamento que era o esperado, o corpo que a rede social premia. A frase funciona porque devolve para o leitor a pergunta que a filósofa passou a vida fazendo: quem está escolhendo isso, eu ou o rótulo que colaram em mim?

Não é uma frase de motivação. É um convite desconfortável de reparar quantas peças da própria vida estão no automático. E se a versão em português é mais poética do que qualquer linha original de Beauvoir, o eco dela na cabeça de quem lê ainda é o mesmo que ela queria provocar em 1949: aquele silêncio de meio segundo antes da próxima decisão.

💡 Curiosidade A frase que Beauvoir de fato escreveu e que atravessou décadas quase intacta é outra: “não se nasce mulher, torna-se mulher”, publicada em “O Segundo Sexo” em 1949, e considerada uma das linhas mais influentes do feminismo do século XX.