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Com 1.500 casarões coloniais em apenas 1,2 km², a “Pequena Lisboa” do século XVI foi o segundo Patrimônio Mundial do Brasil
Entre ruas de pedra e 1.500 casarões coloniais.
Ladeiras de paralelepípedos, casarões coloridos com azulejos portugueses e um dos carnavais mais tradicionais do país. Olinda, apelidada de “Pequena Lisboa” guarda quase cinco séculos de história em uma colina cravada no litoral de Pernambuco, a poucos minutos de Recife, e reúne a maior concentração de arquitetura barroca do Nordeste.
A vila que Duarte Coelho batizou de Ó linda
A cidade foi fundada em 12 de março de 1535 por Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. Segundo o registro das primeiras crônicas, o donatário teria exclamado “Ó linda situação para se construir uma vila” ao avistar a colina de frente para o mar, o que teria batizado o local.
A vila enriqueceu rapidamente com a cana-de-açúcar. Foi comparada em opulência à capital portuguesa e chegou a ser chamada de Pequena Lisboa. Em 1630, os holandeses invadiram a região e, um ano depois, incendiaram a cidade e transferiram a capital para o Recife. A reconstrução começou após a expulsão dos invasores em 1654 e preservou o traçado medieval das ladeiras.
Olinda deixou de ser capital de Pernambuco em definitivo em 1837, quando Recife assumiu a sede do governo provincial. A relação entre as duas cidades vizinhas permaneceu tão próxima que ambas celebram aniversário no mesmo dia, 12 de março, com festividades conjuntas.

1,2 km² onde cabem quase cinco séculos
O conjunto arquitetônico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1968. Catorze anos depois, em 1982, Olinda se tornou a segunda cidade brasileira reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, atrás apenas de Ouro Preto, em Minas Gerais.
Segundo o IPHAN, o centro histórico ocupa 1,2 km² e reúne cerca de 1.500 imóveis. Ali convivem edifícios coloniais do século XVI, fachadas azulejadas dos séculos XVIII e XIX e obras neoclássicas e ecléticas do início do XX. O conjunto integra a arquitetura ao sítio físico, com a presença marcante do mar e da vegetação nativa.
Destacam-se exemplares raros da arquitetura religiosa dos séculos XVI e XVII, como o Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o Convento de Nossa Senhora das Neves, que integra o conjunto do Convento de São Francisco. Cerca de vinte igrejas barrocas coroam colinas e ladeiras, transformando cada esquina em cenário histórico.
O carnaval das ladeiras e o Homem da Meia-Noite
Poucos carnavais brasileiros são tão tradicionais quanto o de Olinda. A festa acontece nas ruas do centro histórico, sem cordas ou camarotes, ao som de frevo, maracatu e caboclinhos. Os foliões sobem e descem as ladeiras acompanhando blocos que arrastam multidões.
O ponto alto é o desfile dos bonecos gigantes. Segundo a Secretaria de Cultura de Pernambuco, o Homem da Meia-Noite é o mais antigo entre eles, com cerca de quatro metros de altura. Fundado em 2 de fevereiro de 1932, o calunga de fraque, cartola e dente de ouro abre oficialmente a festa à meia-noite do sábado de carnaval.
A tradição cresceu com o tempo. Junto ao boneco original desfilam a Mulher do Dia e o Menino da Tarde, e mais de 50 figuras participam do Encontro dos Bonecos Gigantes na terça-feira gorda. A cada edição, novos personagens da cultura brasileira ganham versão gigante, misturando homenagens locais e nacionais.

O que fazer entre igrejas, mirantes e ateliês
O passeio pelo centro histórico se faz a pé, entre ladeiras íngremes e mirantes de tirar o fôlego. As distâncias são curtas e as atrações se conectam de forma quase natural.
- Alto da Sé: ponto mais alto da cidade, com vista panorâmica de Recife e do oceano. Ali estão a Igreja de São Salvador do Mundo, tapioqueiras tradicionais e feirinhas de artesanato.
- Convento e Igreja de São Francisco: primeiro convento franciscano das Américas, construído a partir de 1585, com painéis de azulejos portugueses e igreja barroca.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: erguida em 1580, tombada pelo IPHAN e restaurada em 2012.
- Mosteiro de São Bento: fundado em 1582, guarda o altar-mor barroco original hoje exposto no Metropolitan Museum de Nova York.
- Rua do Amparo: eixo cultural com ateliês de artistas plásticos, galerias e bares em casarões coloridos.
- Casa dos Bonecos Gigantes: acervo com o Homem da Meia-Noite e dezenas de outros calungas fora da temporada do carnaval.
- Mercado da Ribeira: um dos mais antigos do país, com artesanato regional e xilogravuras.
Sabores portugueses, africanos e indígenas na mesma mesa
A cozinha olindense mistura três raízes fortes, com pratos que combinam com o ritmo do passeio nas ladeiras. Bares e restaurantes ocupam antigos casarões e sobrados restaurados.
- Tapioca do Alto da Sé: vendida em barracas do mirante, recheada com queijo coalho, carne de sol ou coco ralado.
- Bolo de Rolo: quitute pernambucano de massa fina enrolada com goiabada, tradição herdada dos engenhos.
- Carne de sol com macaxeira: prato clássico do sertão nordestino, servido em restaurantes do centro histórico.
- Caldinhos: sopas concentradas de camarão, feijão ou peixe, servidas em copos pequenos.
Como é o clima de Olinda durante o ano?
A cidade tem clima tropical úmido, com temperaturas altas o ano inteiro. As chuvas se concentram entre março e agosto, mas quase nunca comprometem o passeio pelo centro histórico.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à Pequena Lisboa
Olinda fica a cerca de sete km de Recife, na região metropolitana. O Aeroporto Internacional do Recife Gilberto Freyre é o principal portão de entrada, a aproximadamente 30 minutos de carro do centro histórico. O acesso rodoviário se dá pela BR-101 e pela PE-015, e há linhas regulares de ônibus e transporte por aplicativo entre as duas cidades.
A cidade das ladeiras coloridas
Poucos destinos brasileiros oferecem quase cinco séculos de história em 1,2 km², com vinte igrejas barrocas, ruas de paralelepípedos e um carnaval de rua ainda tocado pelos mesmos ritmos do século passado. Olinda mantém viva a atmosfera colonial sem virar apenas paisagem de museu.
Você precisa conhecer Olinda e subir até o Alto da Sé ao pôr do sol para entender por que a Pequena Lisboa virou o segundo Patrimônio Mundial reconhecido no Brasil.